MENU

'Os residentes' causa incômodo no Festival de Cinema de Tiradentes

'Os residentes' causa incômodo no Festival de Cinema de Tiradentes

Atualizado: Sexta-feira, 28 Janeiro de 2011 as 12:06

A falta de uma narrativa convencional – com princípio, meio e fim, de entendimento mais fácil – causou incômodo em parte do público que assistiu ao filme "Os residentes" (2011), do cineasta mineiro Tiago Mata Machado, de 37 anos. A exibição foi na noite desta quinta-feira (27) na Mostra Aurora, dentro do Festival de Cinema de Tiradentes, na Região Central de Minas Gerais. Os primeiros 30 minutos foram suficientes para que alguns espectadores abandonassem o Cine-Tenda.

Foi o caso da professora Lyliane Dias Costa, de 51 anos, e a filha dela, Maria Cecília Dias Costa, de 26 anos. "Faz cinco anos que eu venho à mostra. Eu adoro cinema, mas essa história é confusa, sem conexão. Não consegui entender nada", disse Lyliane, justificando sua saída no meio do filme.

"Não consegui pegar o fio da meada. É a primeira vez que eu deixo um filme antes de acabar de vê-lo", completou Maria Cecília.

Mas a decepção não foi geral. No fim da sessão, houve aplausos e gente que até comparou o trabalho de Machado ao do cineasta francês Jean-Luc Godard. "Esse filme tem influências do Godard, porque não tem uma linearidade, mas isso pode confundir as pessoas", opinou o estudante do 7º período de Cinema Mateus Primo, de 25 anos.

Para o universitário, a desconstrução na narrativa realmente dificulta a compreensão. "Mas essa inquietude faz com que a maioria dos espectadores permaneça dentro do cinema para entender a história", diz.

Novos diretores

Já o diretor, que no festival participa da Mostra Aurora, voltada a novos talentos,  disse que, para criar o filme, se inspirou em várias referências como em sua mulher, que é artista plástica -- mas admitiu influências de Godard. "Coloquei, também, traços dos anos 70 e fiz referências a projetos que movimentaram o século XX", disse o cineasta, sem especificar quais.

Mesmo com as reações despertadas, Machado disse não crer que o filme dele  saia premiado no festival. "Eles [os jurados] têm de ter muita personalidade para votarem no meu filme. Sei que ele [o filme] não é competitivo. Mas, de qualquer forma, uns amam e outros odeiam", definiu Machado.

Ouvido pelo G1 antes da exibição do filme em Tiradentes, Cléber Eduardo, curador da mostra, já previa a reação a  "Os residentes". "Talvez seja o filme mais provocador da atual safra nacional", disse ele. "Não só pela linguagem, mas porque se recusa a uma narrativa que seja resumível em uma sinopse. Isso sempre gera incômodos", explicou.

O filme

"Os residentes" se passa em uma casa abandonada em que  pessoas instauram uma nova zona autônoma temporária. Jura e o filho alojam-se na cozinha; Matheus e Ava enfurnam-se num quarto; e Dimas marca seu território pelas paredes da casa. Logo, eles receberão novos hóspedes: um velho militante neoísta, um autoexilado e uma artista plástica de renome, aparentemente sequestrada. O modo de vida do grupo começa, repentinamente, a extrapolar os limites da casa e se espalhar pela cidade.

O filme tem no elenco Melissa Dullius, Gustavo Jahn, Jeane Doucas, Simone Sales de Alcântara, Dellani Lima, Roberto de Oliveira, Geraldo Peninha, Cassiel Rodrigues e Paulo César Bicalho.

O longa foi rodado na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, durante dois meses. De acordo com Machado, R$ 700 mil foram investidos  e cerca de 40 pessoas trabalharam no projeto.

Berlim

"Os residentes" é um dos filmes brasileiros que vão participar do Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro. Segundo Machado, o longa-metragem terá quatro exibições.

A 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes vi até o dia 29 de janeiro. Serão exibidos 134 filmes nacionais. Toda a programação do evento é gratuita.

Por: Alex Araújo

veja também