MENU

Ossos ocultos em São Paulo serão investigados

Ossos ocultos em São Paulo serão investigados

Atualizado: Quinta-feira, 27 Maio de 2010 as 11:34

O Ministério Público Federal e a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos vão investigar se os cemitérios paulistanos de Parelheiros e Vila Formosa abrigam vítimas da repressão da ditadura militar (1964-1985).

A procuradora da República Eugênia Fávero requisitou à prefeitura que o cemitério de Parelheiros fique lacrado até passar por uma perícia.

O pedido foi feito após denúncia de um ex-funcionário de que lá existe um ossário clandestino, com restos mortais não identificados.

No cemitério da Vila Formosa, as buscas terão como ponto de partida documentos obtidos pela família do desaparecido político Virgílio Gomes da Silva.

Em depoimento prestado na Procuradoria em fevereiro, o ex-administrador do cemitério de Parelheiros Laércio Ezequiel dos Santos afirmou que no local há um poço com centenas de ossadas sem identificação.

POÇO DE OSSOS

Santos declarou que, logo após assumir a gerência do cemitério, em 2007, descobriu que havia uma alçapão embaixo de sua mesa na sala da administração.

Ele disse que, então, consultou funcionários mais antigos que ele e foi informado de que o poço era usado há décadas como depósito de ossadas não identificadas.

''Depois que descobri o poço, nunca mais consegui dormir direito'', afirmou em entrevista à Folha. Segundo ele, era comum funcionários encontrarem até três ossadas em sepulturas cujos registros apontavam a presença de um corpo, nos trabalhos de abertura de covas para exumação.

Quando isso acontecia, disse ele no depoimento, a praxe no local era colocar no poço do escritório as ossadas sem identificação. O ex-administrador disse que avisou a direção do Serviço Funerário de São Paulo sobre o problema, mas nada foi feito.

Ele próprio afirmou ter depositado no poço cerca de 25 ossadas sem registro.

CIMENTADO

Santos disse que, no início de 2008, resolveu tapar o poço e construiu um piso sobre o alçapão. Ele foi exonerado em outubro passado.

Antes de atuar no serviço público, Santos foi líder de perueiros na zona sul, e chegou a ser acusado de promover a violência em protestos contra a Prefeitura. Ele ficou preso por três meses por conta dessa suspeita.

Segundo a procuradora Fávero, as descrições feitas pelo ex-administrador coincidem com situações verificadas no cemitério de Perus, onde foram encontrados corpos de vítimas da ditadura.

A procuradora também afirmou que as informações de Santos merecem ser investigadas porque há relatos de ex-presos políticos sobre a montagem, no bairro de Parelheiros, de um sítio, conhecido como 31 de março.

Nesse local, as Forças Armadas teriam torturado e matado opositores.

Os trabalhos de exame de ossadas deverão ser realizados pela Polícia Federal, por meio de um convênio com a comissão de desaparecidos.

Segundo o presidente da comissão, Marco Antônio Barbosa, a atuação em São Paulo representa um esforço para ampliar os trabalhos da comissão, hoje concentrados na região do Araguaia.

O secretário de Serviços Alexandre de Moraes informou que apurará ''com rigor'' a denúncia e pedirá apoio da Polícia Militar para que o poço seja aberto hoje ou amanhã. A Prefeitura tem colaborado com as as investigações de ossários clandestinos, segundo a nota.

Por Flávio Ferreira

veja também