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'Outros carrinhos poderiam se soltar', diz relatório de delegada

'Outros carrinhos poderiam se soltar', diz relatório de delegada

Atualizado: Sexta-feira, 26 Agosto de 2011 as 4:33

A delegada Adriana Belém finaliza o inquérito

sobre o parque de Vargem Grande

(Foto: Lilian Quaino/G1)

  Peças deterioradas, condutores com emendas expostas, utilização de pregos enferrujados. Essas são algumas das situações que a delegada Adriana Belém, da 42ª DP (Recreio) cita em seu relatório que conclui o inquérito sobre o acidente que matou dois jovens num parque de diversões em Vargem Grande, Zona Oeste do Rio, no domingo (14), e deixou vários feridos.

Um brinquedo se desprendeu e atingiu um grupo de pessoas.

No relatório, divulgado na tarde desta sexta-feira (26), ela ressalta o depoimento de uma perita do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea-RJ), que disse que "existia a possibilidade de outros carrinhos se soltarem porque não se tratou de uma ocorrência pontual e sim de desgaste da nave".

"Estado precaríssimo"

A delegada conclui no texto que "o parque funcionava em estado precaríssimo", mostrando que seus proprietários não demonstravam o menor respeito à vida e à integridade física da pessoa humana.

Brinquedo se desprendeu matando dois jovens e

ferindo vários outros em parque

(Foto: Reprodução/TV Globo)

  O inquérito finalizado pela delegada Adriana e seu relatório de 12 páginas em que fundamenta o indiciamento por homicídio doloso, segue agora para a promotora Márcia Velasco, da Promotoria do Recreio. A delegada indiciou a dona do parque e seu filho por homicídio doloso (com intenção de matar) e por dez lesões corporais. Se condenados podem receberm penas de 12 a 30 anos de prisão.

No dia 16 de agosto, após prestar depoimento na delegacia, a dona do parque de diversões disse que não teve culpa.

"Eu não sou assassina, eu não tive culpa, foi um acidente", disse ela.

Além dela, o filho e outro sócio do parque de diversões também prestaram depoimento. Na ocasião, a delegada informou que eles se recusaram a falar sobre qualquer coisa e que nada colaboraram na investigação.

Já o engenheiro que autorizou o funcionamento do parque e cinco organizadores do evento foram indiciados por falsidade ideológica.

Na hora do acidente morreu Alessandra Aguilar , de 17 anos, e, dois dias depois, morreu Vitor Alcântara de Oliveira. Dez pessoas ficaram feridas, segundo Adriana Belém.

"Ingressos para a morte", diz delegada

Na conclusão de seu relatório, a delegada não esconde sua indignação:

"Alessandra estava na fila para pagar o ingresso e se divertir em brinquedos que acabaram tirando-lhe a vida. E pagou. Pagou com sua vida face ao desprezo e a indiferença de pessoas que ali estavam para vender ingressos. Ingressos para a morte. Ingressos que eram vendidos até por pacote: 1 por R$ 4 e três por R$ 10. Como se os valores atribuídos aos ingressos fosse capazes de compensar a aceitação do risco de produzir a morte de jovens que queriam apenas se divertir, como Alessandra e Vitor".

No texto, a delegada lembra que peritos não exitaram em afirmar que "se observou que ocorria vibração em sua estrutura, a qual poderia acarretar, com o uso, sem as devidas intervenções de manutenção, danos às estruturas do brinquedo até uma catástrofe grave".

Adriana Belém fez referência especial ao estado dos cavalinhos do carrossel, "destinado às crianças cuja pureza e inocência as fazem incapazes de enxergar o perigo que dali advém, já que são fixados por enormes parafusos e pregos enferrujados".

Ela ressalta que os peritos garantiram que o brinquedo Tufão, que casou o acidente, só poderia levar quatro pessoas , mas testemunhas disseram que ele funcionava acima de seu limite.

Segundo a delegada, um ex-companheiro da dona do parque e que trabalhava lá como barraqueiro contou que "alguns brinquedos estão em estado crítico e que nunca deixaria seus filhos andarem naqueles brinquedos".

"Arrecadar o dinheiro"

Outro ponto que chamou a atenção da delegada foi quando uma das vítimas, a bilheteira, que é irmã da dona do parque e também se feriu, contou que, ao ser retirada da cabine por seu sobrinho, este primeiro pegou a caixa do dinheiro para então a acompanhar à cozinha, onde lavou o ferimento, e só depois a levou para um hospital.

"Note-se a demonstração inequívoca do valor que se atribuíu a uma vida quando se estabelece prioritariamente a ação de arrecadar o dinheiro que encontrava-se na bilheteria em face de prestar socorro àquela vítima que vem a ser sua tia, inclusive", diz a delegada em seu relatório.

Nesta sexta-feira (26), a Secretaria municipal de Saúde informou que a jovem Daiane Mesquita, de 17 anos, permanece em estado grave na UTI do Hospital Miguel Couto, no Leblon, na Zona Sul. Ela é a única vítima do acidente ainda internada.          

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