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Pista sul da Imigrantes é a única segura do litoral

Pista sul da Imigrantes é a única segura do litoral

Atualizado: Terça-feira, 12 Janeiro de 2010 as 12

Economia desnecessária, excesso de chuvas e falta de conhecimento técnico e vontade política minam as encostas próximas ao litoral de São Paulo e Rio e pavimentam o caminho dos deslizamentos sobre as estradas da região. A tal ponto que, segundo o geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, apenas uma via está livre de ocorrências como as que levaram à interdição da Rodovia dos Tamoios (SP), em dezembro, transtornando a vida de milhares de pessoas. "A única estrada brasileira construída em terreno acidentado que garante total segurança é a pista sul da Rodovia dos Imigrantes, construída em 2002", diz. As demais permanecem vulneráveis a deslizamentos, rompimentos de aterros e barragens ou quedas de barreiras."As estradas abertas na Serra do Mar, incluindo a Anchieta (implantada no final da década de 1940 e início dos anos 1950), assim como as rodovias Rio-Santos (1985), Dutra (1951), Tamoios (1957) e Mogi-Bertioga (1982), seguem o modelo de cortes nas encostas", explica Santos. "Não há nenhuma vantagem nisso: especialmente para regiões serranas tropicais úmidas".

O modelo de "cortes" das encostas consiste em construir a estrada a partir da interferência drástica na topografia, literalmente cortando a montanha ou a rocha para encaixar a rodovia. "Mesmo quando os cortes são feitos em rochas de boa qualidade, essa estrada não é totalmente segura. As encostas podem permanecer estáveis por séculos, mas vão ceder um dia", explica Willy Lacerda, professor de geotecnia do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe-UFRJ).

A principal diferença entre esse modelo e o que foi usado na construção da Imigrantes está na opção desta por túneis e viadutos. Os túneis escavam, mas continuam dando sustentação à montanha ou à rocha, e os viadutos são uma opção bem mais segura do que os aterros, que costumam acumular água. Embora consumam mais recursos na construção, as estradas que seguem esse padrão possibilitam uma manutenção mais barata. "Esse modelo agride o mínimo possível o meio ambiente", acrescenta Lacerda.

A falta de conhecimentos técnicos foi a grande responsável pela implantação do sistema de "cortes", feito numa época em que os equipamentos disponíveis eram bem mais rudimentares em relação aos de hoje. Mesmo assim, há o temor de que as duplicações da Dutra e da Rio-Santos sigam o padrão antigo: "Nossos órgãos de gestão viária ainda não incorporaram definitivamente o novo patamar tecnológico estabelecido pela Imigrantes", observa Santos. "Ainda é comum a opinião segundo a qual a concepção por túneis e viadutos implicaria custos de implantação muito altos."

Sob água e terra - Desde os últimos dias de 2009, houve deslizamentos de encostas em 41 pontos da Rio-Santos, todos entre os quilômetros 454 e 594. Em 18 deles, houve interdição da pista. Também ocorreu queda de barreiras entre Santos e Guarujá nos quilômetros 4 e 7. No quilômetro 477, a pista foi totalmente bloqueada no dia 2, devido a um desmoronamento. Nesse trecho, meia pista permanece fechada e não há previsão para a liberação. No 479, uma pedra deslizou do morro e bloqueou o acostamento.

Segundo Lacerda, toda a extenção da Rio-Santos está sujeita a deslizamentos. O professor ainda destaca os trechos próximos a Mangaratiba, Itaguaí e Angra dos Reis, todos no estado do Rio, como os mais vulneráveis.

Apesar da concepção equivocada, as estradas e rodovias brasileiras ficariam livres de desabamentos com ações simples que poderiam ser implantadas ainda neste verão. "A retomada dos serviços de conservação e monitoramento técnico é o primeiro passo para identificar os problemas ainda no início e impedir sua evolução", alerta o geólogo. "Esses desmoronamentos costumam dar sinais de sua futura ocorrência, como trincas nos terrenos, rachaduras nos sistemas de drenagem, abatimentos na pista e alagamentos de aterros."

É melhor começar a agir logo. As previsões do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) avisam que o próximo trimestre terá chuvas acima da média, particularmente nas regiões Sul e Sudeste - onde está localizada a Serra do Mar. Mas não adianta culpar o meio ambiente. "A natureza não erra nem acerta, ela é o que é, e permite ser conhecida. Quem erra ou acerta é o homem em suas relações com a natureza."

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