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Polícia monitora Nem da Rocinha e diz que vai agir no momento certo

Polícia monitora Nem da Rocinha e diz que vai agir no momento certo

Atualizado: Quinta-feira, 21 Outubro de 2010 as 9:10

Considerado um dos maiores vilões do governo fluminense no projeto de pacificação da Rocinha, situada em São Conrado, bairro de classe média alta da Zona Sul do Rio, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, 34 anos, apontado pela polícia como chefe do tráfico da favela que possui cerca de 120 mil habitantes, está sendo monitorado por cinco delegacias especializadas, além de investigações das unidades distritais.

Entre as informações, a polícia apura a denúncia de que a quadrilha teria sido reforçada com outros homens armados desde que Nem passou a abrigar traficantes aliados de favelas ocupadas pelas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), inclusive a do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, na zona norte, ocupada pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope) desde a última quinta-feira (14).

Os “hóspedes”, que receberam abrigo de Nem, estariam ocupando algumas casas que ainda não foram demolidas, desapropriadas para obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), na localidade conhecida como Valão, um dos acessos da favela.

A movimentação de “gente de fora”, como os moradores costumam se referir aos “estranhos”, também é intensa na Vila Verde, Via Ápia, Rua 1, 2 e 3, Largo do Boiadeiro, Roupa Suja, Cachopa, Vila Verde, Dioneia e Laboriaux.

Eles estariam, ainda, ocupando um prédio de quatro andares, situado na rua onde o ex-chefe do tráfico na favela, Erismar Moreira Rodigues, o Bem-Te-Vi, foi morto pela polícia, em 2005. O local estaria servindo de trincheira para traficantes armados.

Quadrilha aterrorizou São Conrado

De acordo com agentes que fazem parte das investigações, um grande planejamento está sendo traçado para agir no momento certo e derrubar o domínio do tráfico de drogas do criminoso. Não é à toa que o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, afirmou recentemente que sabe tudo sobre a movimentação do traficante.

“Sei onde está o Nem, e sei até o que tem dentro da casa dele. Mas não posso arriscar a vida dos moradores. Esses caras (traficantes) não têm nenhum apego à vida deles ou dos outros. Quando decidir entrar lá vou fazer de uma vez só”, disse o secretário.

Mesmo com as imagens do confronto da quadrilha do traficante com a polícia, feitas por moradores de São Conrado, em agosto, quando dez criminosos invadiram o Hotel Intercontinental e fizeram 35 reféns por três horas, nenhuma ação policial foi autorizada para não revidar de forma precipitada a ousadia dos traficantes. As cenas de violência foram divulgadas até no exterior.

O manancial de informações sobre o criminoso e a quadrilha da Rocinha é abastecido também pelo Disque–Denúncia (2253 1177). Cerca de 600 informes já foram repassados para investigação pelo serviço desde o início do ano. Mas são as escutas, autorizadas pela Justiça, que atualizam o monitoramento do traficante e seu bando.   O banco de dados da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança reúne informações sobre a entrada de drogas na comunidade, localização de paiol de armas, casas usadas para refino de cocaína, por onde os criminosos circulam e até os dias em que são promovidos os bailes na favela para aumentar a venda de entorpecentes.

A prudência da polícia em promover um confronto na favela, temendo consequências para os moradores, revela o conhecimento sobre o arsenal da quadrilha. Embora as autoridades esquivem-se em dimensionar o tamanho da quadrilha – já foi estimado que Nem, também chamado de Mestre pelos comparsas, contaria com pelo menos 300 homens armados, além de uma rede de proteção de policiais corruptos, que o alertam sobre as operações -, sabem que o poder de fogo do traficante conta com muitos fuzis e outras armas de grosso calibre como metralhadoras ponto 30.

Hierarquia do tráfico no mapa da polícia

No mapeamento da polícia, os principais integrantes da quadrilha estão identificados por nomes, apelidos e hierarquia no grupo (como os gerentes Perninha, Juca, Pateta ou Leão, Rodrigão, Pará, Neto e Feijão). Mulheres, que atuam como olheiras e transportam drogas para outras favelas, também já estão no dossiê da polícia.

Por determinação do chefe de Polícia Civil, Allan Turnowski, estão centralizando as investigações sobre o tráfico na Rocinha as seguintes especializadas: Divisão de Capturas da Polinter, delegacias de Repressão a Armas e Explosivos (Drae), Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA), Roubos e Furtos e de Combate às Drogas (Dcod).

Com base na investigação feita pela Polinter, que durou mais de quatro meses, inclusive com a identificação de empresas e pessoas usadas como “laranjas” para lavar dinheiro do traficante, que a Justiça aceitou denúncia do Ministério Público, em março, e decretou a prisão de Nem e mais 18 integrantes da quadrilha.

Na denúncia, a promotora Ana Lúcia Melo, da 25ª Promotoria de Investigação Penal, ressalta a alta movimentação financeira das empresas. “Os valores são incompatíveis com a atividade dos negócios, comércios localizados em áreas extremamente pobres”, argumentou.

Enquanto não são presos, homens armados continuam garantindo o movimento do tráfico na favela e em áreas nobres da Zona Sul, como São Conrado, Ipanema, Leblon, Copacabana, Botafogo, Humaitá e Lagoa. Segundo denúncias de moradores, mesmo durante o dia os pontos de venda de drogas estão em pleno funcionamento.    

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