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Polícia trata melhor moradores do asfalto do que do Alemão, diz estudo

Polícia trata melhor moradores do asfalto do que do Alemão, diz estudo

Atualizado: Quinta-feira, 24 Fevereiro de 2011 as 2:33

Apesar da maioria dos moradores do Conjunto de Favelas do Alemão, na Zona Norte do Rio, terem aprovado a ocupação policial da região, eles (51% dos entrevistados) ainda avaliam mal o tratamento dado pela polícia. Já no “asfalto”, cerca de 70% acreditam que a polícia trata bem os moradores. Esses são alguns dos números divulgados nesta quinta-feira (24), pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

“Os moradores do Alemão não se sentem bem tratados pela polícia, como acontece no asfalto”, afirmou o pesquisador Fernando Holanda Barbosa Filho, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV). O estudo, entretando, revelou que a avaliação do tratamento dado pela polícia melhorou, segundo a opinião dos moradores da favela. Em 2010, somente 26% dos entrevistados aprovavam o tratamento da polícia. Em 2011, esse número subiu para 49%. Mas ainda continua muito inferior ao índice da população do asfalto.

O levantamento, denominado Índice de Percepção da Presença do Estado (IPPE), tem como objetivo servir como um instrumento de gestão para o estado medir o impacto de suas políticas públicas. A pesquisa resulta de 1.200 entrevistas, realizadas em duas etapas: a primeira, entre setembro e outubro de 2010, ou seja, antes da ocupação do Alemão; e a segunda, entre os dias 4 e 28 de janeiro. As forças de segurança ocuparam as comunidades em novembro de 2010.

No Alemão, foram entrevistadas 400 pessoas. No “asfalto”, o trabalho de campo foi feito nas zonas Norte, Oeste, Sul e Norte da cidade. O estudo revelou a avaliação do carioca em relação aos seguintes temas: inclusão, segurança pública, universalismo e igualdade, assim como o impacto dos serviços como educação, saúde, infraestrutura básica, transporte, ambiente de convivência e cultura.

UPP são bem avaliadas

De acordo com a pesquisa, o sentimento de maior segurança da sociedade é resultado da instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no Rio. Cerca de 95% da população do asfalto é a favor, enquanto que no Alemão 72% aprovam o projeto de pacificação do estado.

Entretanto, o estudo revela que faltou investimento do estado em serviços públicos como saúde, educação e infraestrutura. Fernando Holanda Barbosa Filho acredita que esse deva ser o próximo passo do estado no Alemão. “O cidadão não percebeu atenção do estado em serviços básicos. Espera-se que o estado possa fazer isso agora, já que está mais livre para entrar lá”, disse.

De acordo com os pesquisadores, a escolha do Alemão foi uma coincidência, pois eles não imaginavam, quando iniciaram o trabalho em setembro de 2010, que a polícia iria ocupar a região. A escolha por aquela comunidade foi devido a uma parceria do grupo AfroReggae com a fundação. A próxima coleta de dados será feita em julho. Ainda não há informação se alguma comunidade entrará no estudo, mas eles esperam incluir favelas como a da Maré, no subúrbio, ou a da Rocinha, na Zona Sul.

“Mas isso depende de recursos técnicos e financeiros”, disse Fernando. Em junho de 2010, cinco meses antes da ocupação, a pesquisa revelou que o morador do Alemão se sentia mais livre do que quem vivia no asfalto. A pesquisa divulgada nesta quinta revela que esse índice continua a crescer. Cerca de 80% dos entrevistados no Alemão se sentem seguros para ir e vir. No asfalto, o número continuou inalterado. Menos da metade dos entrevistados afirmam que se sentem livres.

Porém, quando perguntados sobre a probailidade de sofrer algum ato de violência, cerca de 70% dos entrevistados, tanto do asfalto quanto do Alemão, afirmaram que têm receios. "Embora os moradores do Alemão se sintam à vontade, eles acham possível sofrer algum tipo de agressão", reaaltou Fernando.

Saúde apresenta piores índices

Segundo ele, a saúde no Rio apresentou os piores indicadores da pesquisa. Tanto os moradores do asfalto quanto os moradores do Alemão consideram que esse serviço ficou pior no Rio de Janeiro. A coleta de lixo, em ambos os espaço, foi um dos quesitos mais bem avaliados. A distribuição de água apresentou uma leve melhora nos bairros do asfalto, porém não sofreu nenhuma alteração para os moradores do Alemão. A distribuição de energia foi mal avaliada pelos entrevistados do conjunto de favelas e apresentou leve melhora na avaliação dos moradores do asfalto.

Já o serviço de transporte foi melhor avaliados por ambas as populações. “É difícil avaliar o motivo, porque não houve uma política pública de impacto, mas talvez a implantação do Bilhete Único e o fato de o metrô estar indo a locais mais distantes”, revelou o pesquisador.

Em relação à Justiça do Rio, os moradores do Alemão se sentem tão incluídos quanto os moradores do asfalto. Mas o pesquisador ressaltou que a melhora da avaliação da população carente pode ser devido à presença da Justiça itinerante durante a ocupação do conjunto de favelas. “Como agora a Justiça itinerante saiu, vamos ver se esse impacto ficará permanente na próxima pesquisa”, ele ponderou.

Os moradores do Alemão afirmam ainda que o estado está mais presente em relação aos espaços de lazer. Numa escala de 0 a 100, eles atribuíram a nota 55. Na pesquisa anterior, em junho de 2009, quando o local ainda era território de criminosos, a nota dada foi 38. Pesquisadores da FGV afirmam que a boa avaliação está diretamente ligada às obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), quando diversas quadras esportivas foram construídas na região.

Cultura

Um dado curioso foi o indicador de cultura. Cerca de 59% dos entrevistados da Zona Sul e da Barra da Tijuca - locais onde se concentra o maior número de espaços culturais no Rio – aprova esse serviço público, sendo que esse índice era maior em 2010, ou seja, para eles houve uma piora.

No Alemão, também quase 60% dos entrevistados avaliam bem o investimento em cultura. Esse índice, em outubro de 2010, estava em 45%. O salto no número, de acordo com os pesquisadores se deve ao fato da inauguração da sala de cinema no local, em dezembro, pela prefeitura. “A introdução dessa sala na comunidade foi o que causou esse grande impacto na pesquisa. Quem não tem acesso, não tinha nenhuma sala, valoriza mais o serviço”, disse o Fernando.    

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