Presa aprovada em vestibular no Ceará espera sofrer preconceito de colegas

Presa aprovada em vestibular no Ceará espera sofrer preconceito de colegas

Atualizado: Domingo, 5 Fevereiro de 2012 as 9:33

Daniel Aderaldo, iG Ceará

Cynthya Corvello, condenada por homicídio, teve pontuação suficiente para cursar história na Federal do Ceará e agora aguarda decisão da Justiça

 

 

Cynthia Corvello na biblioteca do presídio

Foto: Daniel Aderaldo / iG Ceará

A divulgação dos aprovados em um vestibular é um alívio para os convocados. Não para todos. Cynthya Corvello, 40, aprovada no curso de História da Universidade Federal do Ceará (UFC), terá que esperar mais uma decisão para comemorar.

 

Cynthya foi condenada a 25 anos e quatro meses pela co-autoria de um duplo homicídio praticado em Fortaleza, no ano 1993. Hoje, ela está presa em regime fechado no Instituto Penal Feminino, em Itatinga (CE), e aguarda uma autorização da Justiça para frequentar as aulas.

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A Defensoria Pública do Estado do Ceará entrou com um pedidona Justiça para que Cynthia seja autorizada a deixar a carceragem cinco vezes por semana e percorrer 30 quilômetros até Fortaleza para assistir às aulas do curso de História do Centro de Humanidades da UFC, no bairro Benfica, região central da capital.

“Eu tento trabalhar a minha mente para, caso haja uma negativa, eu não me sinta frustrada, e não desista desse sonho que é voltar a estudar, mesmo em cárcere”, conta.

Se conseguir o feito, a partir do dia 23, quando o semestre letivo começa, irá para as aulas com monitoramento eletrônico ou sob escolta policial.

Cynthya diz que deve enfrentar o preconceito de seus futuros colegas.

“Se eu tiver vergonha da minha situação de apenada, e estar buscando crescimento mesmo em situação de cárcere, o preconceito vai me doer. Se eu tiver orgulho da minha situação de apenada, que mesmo em cárcere está buscando crescimento, eu acho que, pouco a pouco, as pessoas vão se aproximar, vão me conhecer, e, de repente, podem achar até positivo essa integração entre a sociedade reclusa e a sociedade liberta”, reflete.

Cynthya tirou 900 na Redação – a nota máxima é 1000. Nas provas objetivas, sua média foi 612. A excelente pontuação, contudo, não foi suficiente para uma vaga no curso de Psicologia, sua primeira opção. Como as aulas do curso de Filosofia da UFC são à noite, a logística para que ela assista às aulas seria ainda mais complicada. Restou História.

 

Presidiária Cynthya Corvello aprovada em vestibular

 

A paulista Cynthya Corvello foi aprovada para o curso de História da Universidade Federal do Ceará (UFC)

Foto: Daniel Aderaldo / iG Ceará

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Cynthya tirou 900 na Redação do Enem, sendo que a nota máxima é 1.000

Foto: Daniel Aderaldo / iG Ceará

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Lista das presas que tiveram boa pontuação no Enem em 2011

Foto: Daniel Aderaldo / iG Ceará

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Heloisa Xavier considera a colega Cynthya um exemplo

Foto: Daniel Aderaldo / iG Ceará

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Os livros favoritos de Cynthya Corvello são os de Filosofia

Foto: Daniel Aderaldo / iG Ceará

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Cynthya passou mais de 20 anos afastada da sala de aula

Foto: Daniel Aderaldo / iG Ceará

 

20 anos depois

Cynthya não estudava desde que concluiu o Ensino Médio, no final da década de 1980, no Colégio Anchieta, uma escola particular de São Bernardo do Campo, em São Paulo. Lá, ela se formou também técnica em administração e logo começou a trabalhar.
Após passar mais de 20 anos afastada das salas de aulas, foi no presídio que Cynthya decidiu tentar concretizar o sonho antigo de cursar uma universidade. “Antes era mais difícil entrar em uma universidade. Isso ficou no sonho e pronto”, relembra no início da conversa com a reportagem do iG, na pequena biblioteca onde trabalha em troca da remissão da pena.

A rotina diária começa às 8 horas da manhã e só termina às 16 horas. Sua tarefa é passar por todas as alas da penitenciária com um carrinho carregado de livros para que as presas escolham o que querem ler. Quando não está ocupada com esse serviço, dedica seu tempo livre ao coral e lê. Lê muito. Em média, oito livros por mês, segundo ela.

"Foi essa leitura e a boa base que eu tive no Ensino Médio que me ajudaram na aprovação. Eu percebi que a prova do Enem é muito dá compreensão do que você está lendo. Você tem que entender a questão”, analisa.

Exemplo

O sucesso da colega de carceragem no vestibular inspirou outras detentas. Em 2011, 15 presas fizeram a prova do Enem. Cinco delas conseguiram uma pontuação considerável, mas não foram aprovadas. “Elas se sentiram mais motivadas a vir à escola, frequentar o Médio (Ensino) para que neste ano, quando tiver o Enem de novo, elas tentarem e serem bem sucedidas”.

A direção do Instituto Penal incentiva os estudos. Além da biblioteca, há duas salas dedicadas a aulas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) nas instalações do presídio. Das 468 presas atualmente, 165 estão matriculadas tentando um diploma.

Heloisa da Guia Xavier, de 37 anos, acredita que possa ser a próxima a conseguir ingressar no Ensino Superior. Ela quer ser pedagoga. O resultado de Cynthya foi um estímulo para ela.

Heloisa diz que fez o Enem 2011 sem se preparar. “Fiz mais para testar meus conhecimentos, mas agora, vendo o que a Cynthya, com certeza vou me dedicar muito mais este ano.

Condenada a 47 anos de prisão, depois de quatro anos, ainda precisa cumprir mais três antes de ganhar o benefício do regime semi-aberto. “Talvez eu tenha que tentar o direito de ir para a universidade na Justiça, como ela”.


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