Presídio desativado em AL vira refúgio para desabrigados pelas enchentes

Presídio desativado em AL vira refúgio para desabrigados pelas enchentes

Atualizado: Sexta-feira, 3 Setembro de 2010 as 2:01

Expulsas de casa pelas enxurradas que castigaram Alagoas ao longo dos últimos 30 anos, cerca de 500 famílias encontraram nas celas de uma antiga colônia prisional em União dos Palmares, a 77 quilômetros da capital Maceió, um novo lugar para morar.

Encravada no meio de canaviais, a Colônia de Santa Fé foi desativada no começo da década de 1980 e acabou virando uma espécie de favela atrás das grades. Pelos 16 pavilhões, amontoam-se homens, mulheres, crianças, jovens e idosos. Os moradores mais antigos chegaram ao lugar pouco depois da enxurrada de 1989. São famílias que criaram filhos nas celas, que, uma vez crescidos, casados e sem moradia, mudaram-se para a cela ao lado com os filhos. Esse é o caso da dona de casa Maria Simone, 24 anos, que nasceu no lugar, casou, teve filhos e não pretende mais deixar o antigo presídio. “Fui criada aqui e não vou sair daqui nunca. Tem tudo aqui, tem água, luz. É muito bom. Virou conjunto habitacional”, afirma Maria.

A enchente que destruiu centenas de casas em junho deste ano também contribuiu para que novos moradores chegassem. Dona Getúlia da Silva Nunes, 47 anos, ficou apenas com a roupa do corpo depois que o Rio Mundaú destruiu tudo em Murici (AL) e não teve outra opção a não ser se instalar no presídio. “Perdi tudo. Colchão, cama, mesa, armário, tudo. Aí tive que vir pra cá.” Instalada no lugar há dez anos, foi a filha de dona Getúlia, Marinalva da Silva Nunes, 32 anos, que conseguiu um “cantinho” no presídio para a mãe. “Eu gosto de morar aqui. Sou mais aqui do que em uma casa. Só não tem banheiro, mas o resto tem tudo: luz, água. Quando precisa fazer as coisas [ir ao banheiro] é só pegar um saco e fazer dentro. Aí joga no lixo”, relata Marinalva.

Na colônia Santa Fé, as celas não têm banheiro e o esgoto corre a céu aberto na frente das portas. Crianças vão e vêm descalças e demonstram a intimidade de quem nasceu no lugar e dali jamais saiu. A cadeia que virou conjunto habitacional é conhecida entre os moradores de União dos Palmares simplesmente por “pavilhão”. Uma estrada quase intransitável nos dias de chuva faz a ligação do lugar com a BR-104, que corta a região, e o percurso até o centro da cidade pode ser feito em menos de 20 minutos. As inscrições que identificam o número de cada ala carcerária ainda estão nas paredes sujas e o lugar todo fede a lixo. A antiga ala de panificação, que servia de ocupação e treinamento para os detentos, virou dormitório. Relatos dos moradores mais antigos dizem que quando as famílias chegaram, presos ainda ocupavam algumas alas do complexo. Hoje, até a guarita já virou residência.

Dona Maria do Carmo, 61 anos, chegou ao presídio em 1989, depois da enxurrada em União dos Palmares. “Vivo aqui com Deus. Com a fé que tenho em Deus. Mas eu quero uma casa e ainda luto para ter uma casa fora daqui.”

Postado por: Thatiane de Souza

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