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Preso alega tortura policial para confessar crime da FGV, diz advogado

Preso alega tortura policial para confessar crime da FGV, diz advogado

Atualizado: Quinta-feira, 3 Março de 2011 as 4:37

Preso por suspeita de participar do atentado que matou a tiros um universitário da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e feriu outro aluno num bar no mês passado em São Paulo, o camelô Francisco Macedo da Silva, de 24 anos, afirmou que foi torturado por policiais civis para gravar o vídeo no qual aparece confessando o crime, disse o advogado do suspeito, Getúlio Serpa.

“Em relação à confissão do vídeo, Francisco me contou na quarta-feira [dia 2] que foi torturado para confessar que ele e o seu irmão [Valmir Ventino da Silva, de 19 anos] atiraram nos dois jovens. Ele disse que foi pressionado psicologicamente pelos policiais, levou tapa no rosto, soco no peito na mesa de cirurgia [na perna]. Falou que eram dois ou três policiais que estavam na sala e bateram no local da sua cirurgia. São as informações que ele passou para mim. Ele afirma que o obrigaram a falar alguma coisa e ele falou aquilo porque tinha de se livrar daquela pressão naquele momento”, disse Serpa nesta quinta-feira (3) ao G1 .

De acordo com o advogado, que também defende Francisco, seus clientes disseram a ele que são inocentes das acusações. Valmir também é suspeito do atentado. Ele teve a prisão temporária decretada pela Justiça e como não foi localizado nem se apresentou à Polícia Civil passou a ser considerado foragido e é procurado.

A assessoria de imprensa da Secretaria da Segurança Pública foi procurada na tarde desta quinta para comentar a informação do advogado de que Francisco alegou que foi torturado, mas não respondeu à solicitação.     Imagens da confissão

Trechos das imagens com a confissão do camelô foram divulgadas pela polícia na quarta. Nelas, Francisco disse que ele e seu irmão, Valmir, atiraram nos estudantes em 23 de fevereiro porque as vítimas paqueraram a namorada do ambulante, identificada como Jéssica. O G1 não conseguiu localizar a mulher para comentar o assunto.

No ataque, o aluno de administração Júlio César Grimm Bakri, de 22 anos, morreu. Seu amigo, Christopher Akiocha Tominaga, de 23 anos, foi ferido e segue internado no Hospital das Clínicas.

No vídeo da confissão, os policiais perguntaram qual a intenção de Francisco no momento em que fez os disparos, o suspeito respondeu: “Foi matar, né?”. Em seguida, disse que “estava sem noção” quando decidiu cometer o crime.

A gravação da confissão mostra Francisco com o punho esquerdo algemado à cama de um hospital na Zona Leste, onde se recuperava de um ferimento à bala na perna direita. Segundo a polícia, ele foi ferido acidentalmente depois de atirar nas vítimas e foi para o Hospital Vila Alpina, ainda na quarta.

Imagens gravadas pelo hospital mostram Valmir levando o irmão ao Pronto Socorro. Francisco foi preso no mesmo dia por porte ilegal de arma. Foram encontrados cartuchos de balas nos seus bolsos.

Imagens do atentado

Para ligar Francisco ao crime da FGV, a polícia analisou câmeras de segurança que gravaram parte do atentado aos jovens no bar. As imagens mostram dois homens chegando ao local numa moto. Eles descem, mas continuam com capacetes. Em seguida entram no bar e atiram. Na fuga, um dos criminosos sai mancando a perna direita _a mesma que Francisco teve ferida.

Para o delegado Paulo Afonso Tucci, titular do 4º Distrito Policial, na Consolação, onde o caso é apurado, o crime contra os jovens foi motivado por vingança e ciúmes.

Inocentes

O defensor de Francisco e Valmir discorda da versão levantada pela polícia. De acordo com o advogado Serpa, seus clientes negam qualquer envolvimento no crime. “Falei rapidamente com o Francisco no hospital e ele me disse que não atirou em ninguém. Ele confirma que Valmir esteve no bar no dia do crime com a namorada, mas que após o casal ter sido hostilizado pelos alunos, de ‘otário’ e que colocaria a moça no ‘colo’, os dois saíram de lá e foram embora. Com o Valmir, vi de passagem, e ele estava muito abalado com as acusações”, afirmou Serpa. “Os irmãos acham que outras pessoas cometeram o crime."

De acordo com o advogado dos suspeitos, seus clientes conheciam os alunos da FGV que foram baleados. “Valmir e Francisco nasceram no Ceará e estavam sendo xingados nesse bar que frequentavam, há pelo menos dois meses, pelos alunos da FGV de ‘comedores de farinha’ pelo fato de serem nordestinos, além de os chamarem de ‘otários’ e mexerem com a namorada de Valmir, dizendo que a colocariam no colo”, disse Serpa, que é baiano.

Amigos e familiares de Júlio César e Christopher negam que os alunos da FGV tenham hostilizado os irmãos ou a namorada de um deles no bar.

O advogado não explicou, na versão de Francisco, como seu cliente foi baleado. “Não falamos disso ainda”, disse Serpa. “Estou mais preocupado em entrar com um pedido de habeas corpus no Tribunal de Justiça para anular a decretação da prisão temporária contra meus clientes. Farei isso após o carnaval”.

Francisco deverá ser transferido nesta quinta-feira (3) para um centro de detenção provisória no bairro do Belém, na Zona Leste de São Paulo.

Durante a investigação, um homem chegou a ser detido e ficou três dias preso por suspeita do crime. Depois foi liberado por falta de provas. Até às 16h desta quinta, a foto de Valmir não havia sido disponibilizada na seção de procurados do site da Polícia Civil.    

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