Projetos da cidade previam prédios de 50 andares e bairros geométricos

Projetos da cidade previam prédios de 50 andares e bairros geométricos

Atualizado: Terça-feira, 20 Abril de 2010 as 12

O urbanista Lúcio Costa idealizou Brasília com a forma do sinal da cruz, mas outras propostas que disputaram o concurso para definir o projeto da cidade previam formas ainda mais estranhas para a capital. Entre os projetos que disputaram o concurso, havia propostas de construção de prédios de até 50 andares e condomínios isolados de formas geométricas onde viveriam até 72 mil pessoas.

O projeto que ficou em segundo lugar, apresentado por Boruch Milman, João Henrique Rocha e Ney Fontes Gonçalves, previa uma cidade estritamente governamental, mais setorizada do que se tornou Brasília, e habitada por no máximo 768 mil habitantes.

O arquiteto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) José Galvão explica que, no início da década de 60, era inimaginável o crescimento populacional da região. "A proposta de ocupação do solo era rarefeita, a cidade era espalhada. Na verdade, os outros projetos não eram compactos o suficiente".

O concurso para escolher o formato urbanístico da nova capital do país foi aberto no dia 30 de setembro de 1956 e 120 dias depois haviam 41 projetos inscritos, que deveriam apresentar o traçado básico da cidade, indicando a disposição dos principais elementos da estrutura urbana e a interligação entre eles. O valor de Cr$ 1 milhão (um milhão de cruzeiros), oferecido como prêmio, nem se aproximava da importância reservada ao vencedor na história do país.

As ideias que mais se distanciavam do que realmente se tornou Brasília ficaram empatadas em terceiro lugar. Criado por Rino Levi e Carvalho Franco, o projeto de número 17 imaginava o Plano Piloto recheado de "superblocos" residenciais e sem as cidades-satélites, que hoje cercam a capital federal.

Os desenhos mostram que do terreno plano emergeriam 18 arranha-céus de 50 andares, onde viveriam 288 mil pessoas. Comparando com o Plano Piloto de hoje é como se os prédios de seis pavimentos fossem colocados uns em cima dos outros. "A intenção era evitar a ocupação espúria do solo, mas não havia condição tecnológica para colocar em prática uma proposta tão complexa e o custo seria proibitivo. Eles previam até vãos no meio do prédio por causa do vento", explica o arquiteto do Iphan. O projeto chegou a ganhar um prêmio secundário e informal pela ousadia.

No outro terceiro colocado, Maurício Roberto e um grupo de arquitetos imaginaram a capital dividida em sete círculos de 2,4 mil metros de diâmetro. As unidades, que poderiam chegar a 14 caso fosse necessário, abrigariam 72 mil pessoas cada. Além dos bairros circulares isolados, Brasília teria um parque federal.

O arquiteto e professor aposentado da Universidade de Brasília José Carlos Coutinho avalia que o projeto tinha como virtude o fato de aproximar o centro da capital do Lago Paranoá, mas fugia à proposta de uma cidade integrada. "O de Maurício Roberto fragmentava a cidade em sete módulos redondos e cada um deles tinha uma vida própria, era como se fosse uma cidade independente. O projeto tinha virtudes, colocava o centro da cidade junto ao lago, mas se perdia a visão do conjunto", disse.

Cláudio Queiroz, que trabalhou com Lúcio Costa, conta ainda que em princípio o urbanista não se interessou pelo desafio. O esboço da nova capital foi entregue às 18h do último dia do prazo, no guichê do antigo prédio do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro. Desenhos feitos em caneta e à mão livre acompanharam um texto que se tornou um clássico do urbanismo brasileiro.

No documento em que define o projeto, Costa se desculpa pela apresentação sumária, afirma que, apesar de simples, a ideia foi "pensada e resolvida" e descreve com precisão o surgimento da ideia: "Nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz".

Foi justamente a simplicidade do projeto de Lúcio Costa que acabou impressionando, diz Queiroz. "O fundamental é que ele não fez uma tese ou manifesto, como outros. O [projeto] dele era para ser realizado. Foi escolhido porque era de extrema sutileza e elegância, refinamento de quem já tinha vivido muito e tinha vontade de fazer uma coisa sem pirotecnia. Algo justo em medidas e de proporções exatas", disse.

Para ele, a maturidade da comissão julgadora, composta por arquitetos e urbanistas experientes da época, como Sir William Holford, André Sive e Stamo Papadaki, ajudou na escolha do formato para a nova cidade.

'Melhor que o sonho'

Certa vez, ao ser questionado por um jornalista sobre se as mudanças que transformaram a capital o entristeciam, Lúcio Costa respondeu que "a realidade foi melhor que o sonho". "Ele dizia que a construção de Brasília foi um tempo de utopia e se preocupava que todos os cidadão tivessem consciência de que a construção de uma cidade pode ser a expressão de uma civilização", recorda o colega de Costa.

Por: Débora Santos e Nathalia Passarinho

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