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'Quero meu filho de volta nem que seja morto', diz mãe de jovem sumido

'Quero meu filho de volta nem que seja morto', diz mãe de jovem sumido

Atualizado: Quarta-feira, 30 Março de 2011 as 12:17

“Quero meu filho de volta nem que seja morto." O desabafo é da vendedora Jaqueline Rose Lago Soares, de 33 anos, mãe do adolescente Alan Patrick Soares. Suspeito de roubar uma moto, o estudante de 17 anos desapareceu em 11 de março após ter sido abordado por policiais militares em Suzano, na Grande São Paulo.

Quatro desses policiais estão presos temporariamente na capital paulista por suspeita de envolvimento com o sumiço do jovem. Em depoimento à Corregedoria da Polícia Militar eles negaram o crime e alegaram inocência.

Testemunhas ouvidas pela Polícia Civil discordaram da versão. Elas disseram ter visto Alan pilotar uma motocicleta em fuga, enquanto era perseguido por pelo menos um carro Blazer da Força Tática da PM. Há relatos de que tiros foram ouvidos quando os policiais militares entraram num túnel à procura do rapaz. De acordo com o boletim de ocorrência, Alan estava com um revólver. Nem a arma nem a moto foram encontradas ainda.

“Eu só queria que esses policiais falassem onde está meu menino, se está morto ou vivo. Nem que encontre o corpo dele para acabar essa angústia, meu Deus. Não importa o jeito”, afirmou Jaqueline ao G1 nesta quarta-feira (30).

“Tenho fé em Deus em encontrá-lo com vida. Mas se não der, quero encontrar meu menino nem que seja morto. Meu coração de mãe está desesperado. Estou desesperada, estou perdida”, disse a mulher, que, sem respostas oficiais sobre o paradeiro de seu filho, encontra no marido, Sérgio Antonio Soares, de 34 anos, e nos amigos força para seguir a vida.

“Preciso sair agora para trabalhar, moço. O senhor me liga depois?”, perguntou Jaqueline ao G1 num dos momentos da entrevista feita por telefone. Ela trabalha numa loja que vende sacolas plásticas em Suzano, onde mora com Sérgio e quatro filhos, incluindo Alan.   Fã de Neymar

O estudante desaparecido é o mais velho dos irmãos. Segundo a mãe dele, ele nunca se envolveu com crimes ou teve passagens pela Fundação Casa (extinta Febem). “Ele é um filho muito bom. Nunca me deu trabalho, gosta de futebol, é santista, fã do Neymar, e sempre foi estudioso. Tirou primeiro lugar num concurso da escola técnica dele e ganhou a vaga para trabalhar como eletricista estagiário numa empresa. Tira algo em torno de R$ 800 por mês.”

“Não sei porque ele inventou de sair naquele dia [11 de março] com aquele rapaz que se dizia amigo dele”, lamentou Jaqueline, ao se referir ao auxiliar de produção de 19 anos que saiu com Alan naquela sexta-feira à noite. “Eram 22h e esse rapaz buzinou da moto para ir com meu filho a um banco. Eu falei para meu filho voltar logo e meu marido nem queria que ele saísse.”

Investigação

O G1 não conseguiu localizar o amigo de Alan para comentar o assunto. O auxiliar aparece como testemunha e indiciado na investigação da polícia sobre o desaparecimento do adolescente. De acordo com a versão policial, o amigo do estudante declarou ter saído com o filho de Jaqueline para roubar uma moto em Mogi das Cruzes, também na Grande São Paulo.

Ainda segundo a investigação, a dupla de amigos se separou depois do crime. O auxiliar ficou com a moto roubada e Alan com a moto do amigo. Após isso, uma denúncia acionou os policiais da Força Tática, que passaram a perseguir o estudante.

“Ele estava com blusa bege e camiseta vermelha, calça jeans e tênis da Oakley. Meu filho faz aniversário dia 2 de novembro, no Dia de Finados. Saiu com celular e só cai na caixa postal. Ele não tem costume de sumir. Os policiais devem ter feito algo com ele”, disse Jaqueline.

O G1 não conseguiu localizar os policiais presos ou seus advogados para comentar o assunto.

Para o delegado Jorge Luiz Neves Esteves, do Distrito Central de Suzano, há indícios da participação dos policiais militares no sumiço de Alan. “Temos elementos fortes”, disse.

Uma testemunha preservada afirmou à polícia ter visto os policiais jogando algo num rio da região. Por esse motivo, bombeiros realizam buscas no local, perto da estrada que liga Mogi das Cruzes à cidade litorânea de Bertioga.

Laudos periciais

A Corregedoria da PM, que instaurou um inquérito administrativo, e a Polícia Civil, que apura um eventual crime, aguardam agora o resultado de exames que estão sendo realizados por peritos do Instituto de Criminalística (IC) da Polícia Técnico Científica. Dependendo do que os testes apontem, a Corregedoria poderá pedir a prisão preventiva dos suspeitos.

Pelo menos cinco exames estão sendo feitos pela perícia do IC:

1) Análise das imagens de uma fita do circuito de segurança de uma empresa da estrada do Areião, onde o adolescente foi abordado. Cenas mostram uma Blazer da PM perseguindo uma pessoa numa moto;

2) Exame para saber se há sangue no carro dos quatro PMs e se o veículo foi lavado pelos suspeitos;

3) Teste de DNA para saber se sangue achado no local da abordagem é compatível com o material gentético colhido da mãe do adolescente;

4) Laudo de balística para dizer se projéteis apreendidos no local da abordagem partiram das armas dos PMs;

5) Analisar blusa e camiseta do adolescente, que tinham marcas de tiros e foram encontradas dois dias depois do desaparecimento na Rodovia Mogi-Bertioga. No mesmo local, testemunha viu policiais jogando algo no rio.

Fotos e passeata

Enquanto não tem informações precisas sobre seu filho, Jaqueline distribui fotos dele em cartazes que possam indicar seu paradeiro. Uma passeata também está sendo programada para ocorrer na sexta-feira (1º de abril), a partir das 17h30, na Praça do Soldado, em Suzano.

“Só quero que digam onde está o meu filho”, disse a mãe de Alan. Quem tiver informações sobre Alan pode ligar para os telefones 181 (Disque-Denúncia) ou 190 (da PM).      

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