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Refugiado de guerra mostra segredo para festa de casamento dos sonhos

Refugiado de guerra mostra segredo para festa de casamento dos sonhos

Atualizado: Sexta-feira, 29 Abril de 2011 as 7:17

Nascido durante a 2ª Guerra Mundial, na Tunísia, o que lhe rendeu cidadania italiana, o empresário Luigi Modesto, 67 anos, veio para o Brasil com 5 anos, trazido pelos pais, que fugiram dos conflitos e represálias aos italianos nos primeiros anos do pós-guerra. Há 31 anos, ele deixou as lembranças da tristeza bélica para organizar festas de casamento na capital paulista, realizando o sonhos de muitos namorados.

Com vasta experiência em bodas, onde atuou de negociador do evento até cerimonialista, época em que acendia a luz do salão e fechava as portas após o último convidado sair da festa, Modesto faz um paralelo sobre as características dos casamentos de antigamente dos mais atuais. "Festa não é nossa, é do casal. Quem faz o evento são eles, o casamento precisar ter a cara dos noivos", lembrou o italiano.

“As pessoas se casavam mais novas. Hoje, se casam mais tarde e mais vezes”, brincou o empresário, que comanda o Buffet Baiuca, com três mansões destinadas quase que exclusivamente para a realização de festas de casamento. "Já perdi as contas da quantidade de casamentos que fiz. Só sei que conquistei alguns amigos", disse Modesto.

“Antigamente, as pessoas vinham para as festas de carro de aluguel. Os motoristas deixavam os convidados na porta do salão e depois vinham buscá-los. Hoje, vêm de táxi ou com os próprios, por isso os serviços de valet”, lembrou.

Entre outros detalhes de um casamento das antigas, ele disse que não existiam listas de presente, as filmagens eram feitas em Super-8 e gravação era passada para vinil, as mulheres terminavam as festas em cima do salto, a música era acústica e os casais dançavam valsa nupcial.

“Hoje, todo casamento tem lista de presentes, as filmagens são feitas até por celular e com equipamentos cada vez menore, as mulheres saem da festa calçando Havaianas e os casais trocam a valsa por uma coreografia. É impossível, nos dias de hoje, fazer um casamento sem gerador. Antigamente, se acabasse a energia durante a festa, o evento terminava na vela mesmo. Naquela a música não seria prejudicada, pois a banda não usava amplificador”, afirmou o italiano.

Noivo de última hora Modesto disse que já fez festa de casamento até para noiva que arrumou noivo em cima da hora. "Já fizemos festa em que o noivo fez o primeiro casamento, o segundo e assim por diante. Em outro caso, uma noiva me ligou dizendo que precisava fazer uma troca urgente. Fiquei preocupado com o cardápio, com a decoração, mas ela me disse que ia trocar o noivo", disse.

Outra tradição que perdeu força com o tempo foi a preocupação com o comprimento da cauda do vestido, que era muito importante décadas atrás, mas hoje nem tanto. "Antes, tinha lista de convidados para a cerimônia religiosa e outra para a festa. Isso acabava trazendo tanto problema que deixou de ser usado, pois muita gente acabava se sentindo como convidado de segunda linha", afirmou o casamenteiro.

"Era ponto de honra que o noivo pagasse o vestido da noiva. Até hoje isso permanece assim e ele faz isso de olhos fechados, pois é o último a ver o que comprou. Pura superstição", lembrou Modesto.

Casamento real Modesto disse que a composição da mesa que costuma montar para os casais em seu buffet é semelhante aos padrões usados em casamentos reais e que devem ser os mesmos na cerimônia do   Príncipe Willian e Kate Middleton . "O conceito é o mesmo. O arranjo de mesa tem suporte estreito e a uma altura de 75 centímetros da mesa, o que permite que as pessoas acomodadas consigam conversar olhando entre si, sem precisar balançar a cabeça para os lados."

Um detalhe que diferencia o casamento de uma pessoa do povo com o de uma pessoa da realeza pode estar no talher usado. "A disposição ao lado do prato é mesma. O que difere é que, quando se trata de um casamento real e que a família tem brasão, o talher é colocado de maneira que a base haste fique virada com as costas para cima, pois é neste local que vai estar o brasão da família", disse Modesto.

Empadinha, coxinha e croquete O italiano disse que faz casamentos com a mesma inspiração que o pai construída pianos no Brasil, nas décadas de 1950 e 1960. "Ele não usava máquina para fazer os pianos em um porão na frente de casa. Se faltasse uma peça, por menor que fosse, e ele já estivesse em casa, ele se vestia novamente, até com chapéu e voltava para a fábrica. Comigo também é assim, se for para vender empadinha, coxinha e croquete eu não aguentaria ficar nesse ramo muito tempo. Eu vivo o sonho juto com meus clientes. É uma atividade muito particular."

Modesto lembrou de uma ocasião que a profissão de fazer festas de casamento provocou a ira em seu único irmão, médico. "Ele estava conversando comigo em uma sala no buffet. A telefonista me passou uma ligação de um cliente, que queria falar comigo. Eu atendi aquele senhor em uma sala íntima, ao lado de onde estava com meu irmão. O sujeito disse que a festa da filha tinha sido maravilhosa. Disse que tinha gasto um dinheiro com prazer, que não era como dinheiro gasto com médico. Meu irmão ouviu aquilo e  ficou indignado, subindo pelas paredes. O ramo de casamento é bárbaro, fantástico".

O preço de fazer a alegria de muitas pessoas tem um preço alto. "Já cheguei a minha casa e dei de cara com um bilhete na porta do meu quarto, preso com uma fita adesiva e com a seguinte mensagem: pai, posso te acordar quando for sair para a escola? Não te vejo acordado desde domingo e hoje é quinta-feira. Nessa hora a gente balança", disse Modesto.

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