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Relação do Brasil com regimes autoritários divide especialistas em debate

Relação do Brasil com regimes autoritários divide especialistas em debate

Atualizado: Quarta-feira, 29 Setembro de 2010 as 10:22

A aproximação diplomática do Brasil com nações associadas à violação de direitos humanos dividiu participantes do debate “O Brasil no mundo – política externa e a defesa do meio ambiente”, último da série "O Futuro do Brasil", organizado pela BBC Brasil e a rádio CBN. O professor de economia da PUC do Rio de Janeiro, Sérgio Besserman, criticou a aproximação do Brasil da Guiné Equatorial, país liderado por Teodoro Obiang Nguema - que tomou o poder no país há 31 anos em um golpe de Estado. O governo de Nguema é acusado de violar sistematicamente os direitos humanos de seus cidadãos.

Besserman comentou a declaração do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que, reagindo a críticas à visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país, em julho, afirmou que “negócios são negócios”.

“Negócios são negócios, mas temos ativos intangíveis que são mais valiosos”, disse ele, referindo-se ao que julga ser a boa imagem que o Brasil vem conquistando no exterior. “É bobagem pensar que negócios com Guiné e Irã tenham valor minimamente comparável a esse valor intangível que está sendo dilapidado. Perdemos mais do que ganhamos.”

Já Ricardo Seitenfus, representante da OEA (Organização dos Estados Americanos) no Haiti e professor de Relações Internacionais da Universidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, defendeu a importância de se manter o diálogo aberto com tais países.

Ele citou o caso da americana Sarah Shourd, libertada na última semana pelo regime do Irã, após ser acusada de espionagem. Ela agradeceu em público a intermediação do Brasil pela sua libertação. “Prefiro ficar com a palavra da vítima (Shourd). Diálogo nunca é demais”, disse Seitenfus.

O ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia, que ocupou o cargo no governo Fernando Henrique Cardoso, admitiu que é preciso ser pragmático na avaliação das parcerias do Brasil, mas que há limites para as relações externas do país.

“Não podemos ser cínicos ou evangelistas e nos metermos a julgar a moralidade dos outros. Mas não faz sentido ter proximidade com países condenados e flagrantemente desrespeitosos dos direitos humanos”, disse Lampreia, citando Guiné Equatorial e Coreia do Norte, onde o Brasil abriu uma embaixada.

Para José Eli da Veiga, professor da Faculdade de Economia da USP, as relações desenvolvidas entre Brasil e Irã também devem ser postas em xeque.

“Uma coisa é negociar, outra é o ato político de o presidente da República fazer visita (a países sob crítica), abraçar o presidente do Irã ou afagar ditador”, afirmou. “E (a aproximação com o Irã) já prejudicou as ambições do Brasil em obter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.

A questão das relações brasileiras com países sob crítica internacional se inseriu em um debate ainda mais amplo, sobre quais devem ser o alcance e as metas da diplomacia brasileira.

O evento abordou também o papel-chave que o Brasil pode ter na questão ambiental e como isso pode aumentar a relevância internacional do Brasil.

O debate foi a última parte de um ciclo intitulado “O Futuro do Brasil”, realizado pela BBC Brasil e pela CBN. No primeiro encontro, o tema foi a política econômica. O segundo abordou o papel da educação no desenvolvimento do país.

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