MENU

Réveillon vira pesadelo para grupos de veranistas em Ilhabela

Réveillon vira pesadelo para grupos de veranistas em Ilhabela

Atualizado: Quinta-feira, 6 Janeiro de 2011 as 9:08

Réveillon é sinônimo de festa. Mas em 2011 se transformou em pesadelo para grupos de veranistas em Ilhabela. A cidade é considerada uma espécie de refúgio no litoral norte de São Paulo para quem prefere tranquilidade, praias paradisíacas e proximidade com a natureza. Turistas que optaram por passar o fim de ano na ilha acompanhados de familiares e amigos relataram ao G1, no entanto, o drama que viveram, antes ou depois da virada de ano.

O médico Igor Martins de Góes Pereira, de 23 anos, por exemplo, contou que a casa onde estava hospedado com outros cinco amigos, na Praia do Perequê, próxima ao Centro de Ilhabela, foi invadida por três homens, sendo que dois portavam revólveres e o terceiro uma faca, quando faltava apenas meia hora para o ano novo. A virada do ano foi sob a mira das armas.

A dona de casa Célia Zebelin, de 54 anos, relatou a decepção que teve, junto do marido, filho, sobrinho e amigos, ao encontrar todos os pertences revirados ao chegar na casa alugada no bairro Reino, próximo à Praia do Perequê. Ladrões invadiram a residência por um alçapão no teto e furtaram objetos de valor. “Parecia que tinha acontecido uma guerra na casa”, disse a dona de casa, que entrou em contato com o G1 para mostrar seu inconformismo com o ocorrido.

Não bastasse a frustração por terem tido a festa de ano novo estragada, os veranistas relataram ainda a dificuldade em obter ajuda policial momentos após as ações criminosas. E, ao se dirigirem ao distrito policial da ilha para prestar queixa, se depararam com relatos de dezenas de outras vítimas de outros crimes parecidos, sendo que a grande maioria ocorrida justamente momentos antes ou depois à virada do ano, o que demonstra o senso de oportunismo dos criminosos.

O G1 solicitou à assessoria de imprensa da Secretaria da Segurança Pública (SSP) de São Paulo o total de ocorrências de furtos e roubos a casas e condomínios em Ilhabela nos dias 1º e 2 de janeiro de 2011. A secretaria limitou-se a informar que, “de acordo com os delegados titulares (de Ilhabela), há sim um levantamento dos registros ocorridos no período de ano novo, mas tais dados não estão disponíveis à divulgação, pois embasam o planejamento do trabalho de inteligência policial”.

Na página de estatísticas da SSP, constam apenas dados até o mês de setembro de 2010. Em nove meses do ano passado, houve 536 furtos e 31 roubos em Ilhabela. Apenas um homicídio foi registrado, no mês de abril, quando ocorreu o pico de 76 furtos, a exemplo do que já tinha acontecido em fevereiro.

'Apareceu do nada'

O médico Igor Martins chegou a Ilhabela com mais dois amigos e três amigas na noite de quinta-feira (30), antevéspera de ano novo. A casa, na Praia do Perequê, é propriedade da família. Às 23h30 da sexta-feira (31), quando o grupo se preparava para ir à praia acompanhar a queima de fogos, começou o pesadelo.

“Estava fechando a casa, quando apareceu do nada, pelo quintal, o cara armado. Ele disse: ‘Boa noite! Feliz ano novo! Isso é um assalto!' Ele mandou a gente entrar, sentar no chão e ficar de cabeça baixa. Em seguida, mais dois entraram na casa. Fizeram ameaças e disseram para não olharmos para os rostos deles”, contou Martins.

A lista de produtos roubados foi grande: relógios caros, óculos escuros, celulares, máquinas fotográficas, tênis, mochilas, roupas, iPods, perfumes, joias de pequeno valor e, claro, dinheiro. “Eles perguntaram se tínhamos notebooks, mas não levamos”, lembrou o médico. Todo esse material foi colocado em um PT Cruiser, um dos dois carros com os quais o grupo viajou até a ilha.

Em seguida, eles foram trancados em um quarto com uma garrafa pet de refrigerante e uma caixa de pães. “Eles pediram pelo menos meia hora para ligar para a polícia para terem tempo de fugir. Arrombamos a porta pouco depois que eles saíram”, disse Martins.

Depois de se livrarem do cárcere privado, o mais difícil foi conseguir ajuda policial. “Fui até o vizinho e liguei para a polícia, mas demorou muito para aparecer alguém. Corri até a avenida e andei até achar policiais, mas o carro estava quebrado. Avisaram outra equipe, mas eles pareciam ser de outra região do estado e não conheciam a ilha direito. Não fizeram buscas pelas redondezas”, reclamou.

O PT Cruiser roubado pelos criminosos foi encontrado abandonado por volta de 0h30 do dia 1º. Na delegacia, Martins tomou conhecimento de vários casos semelhantes por parte de outras vítimas de furto ou roubo. Depois do susto e do tratamento recebido, o médico decidiu riscar Ilhabela do mapa.

“Não pretendemos mais voltar. A cidade não tem aparato para o turista. Minha família tem outras propriedades lá, mas, por mim, pode vender tudo, pois parecia um pesadelo, algo que eu nuca passei na vida”, afirmou.

'Falta de respeito'

Se o susto não foi tão grande para os familiares e amigos da dona de casa Célia Zebelin, a decepção foi a mesma sentida pelo médico. A casa no bairro Reino, com um grande quintal à disposição para armar barracas, havia sido alugada meses antes pelo sobrinho e um grupo de amigos, que fazem curso de mergulho na ilha.

Por volta das 22h de sexta-feira, o grupo de cerca de 15 pessoas se dirigiu à praia. Pouco depois da virada do ano, Zebelin decidiu retornar para casa com o marido. Ao chegar ao local, encontrou tudo revirado. Nem a pequena bolsa do neto dela escapou. “Eu entrei e vi tudo espalhado, tudo revirado. Parecia que tinha acontecido uma guerra. Levaram tudo o que tinha de valor: celulares, laptops, relógios, roupas de marca, tênis e até documentos. Tudo”, disse.

Segundo ela, mesmo avisada, a polícia não foi até o local. “Meu filho que pegou a moto junto com meu sobrinho e foi atrás da polícia. Isso é uma falta de respeito”, declarou. Além disso, os policiais também não fizeram buscas pela região para tentar localizar os assaltantes, de acordo com a dona de casa.

Ao marido dela, que se dirigiu à delegacia no dia seguinte para registrar o boletim de ocorrência, um policial militar revelou que vários casos semelhantes tinham ocorrido na noite e madrugada anteriores. “Falaram em mais de 30 roubos e furtos”, disse.

Como consequência, o sobrinho rescindiu imediatamente o contrato de aluguel da casa. “Perderam a confiança. Vão procurar um lugar mais seguro.” E, para ela, Ilhabela se tornou apenas uma triste lembrança. “Não volto mais. Moro na periferia de Guarulhos (Grande São Paulo) e nunca fui assaltada. É uma pena, pois fica uma tristeza no coração. Vai demorar muito para esquecer”, declarou.

veja também