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Se Dilma não ceder ao PMDB, Planalto entrará em crise

Se Dilma não ceder ao PMDB, Planalto entrará em crise

Atualizado: Quarta-feira, 14 Março de 2012 as 10:02

A derrota sofrida por Dilma Rousseff (PT) no Senado na última semana, quando o nome de Bernardo Figueiredo foi rejeitado para ser reconduzido à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), exigirá jogo de cintura da presidente para evitar que a insatisfação da base aliada se torne uma rebelião. De acordo com analistas ouvidos pelo Terra, os peemedebistas estão preocupados com o crescimento do PT nos municípios, não se conformam com o seu espaço dentro do Planalto e querem ter voz ativa nas decisões. Por isso, se Dilma não ceder agora, o governo entrará em crise.

"O PMDB quer ser consultado para os grandes atos, mas Dilma pensa o contrário. Só que ela precisará sempre dos votos aliados e o conflito pode virar uma crise geral se Dilma não ceder aos peemedebistas. O ex-presidente Lula, por exemplo, teve muitos problemas no primeiro mandato. Já o segundo, articulado com o PMDB, foi uma maravilha", afirmou o cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB) Ricardo Caldas.

O cientista político Paulo Kramer entende que a legenda se sente menosprezada desde o começo do governo, mesmo tendo Michel Temer na vice-Presidência. "A base do conflito são recursos orçamentários e cargos públicos, e o pano de fundo é o desconforto do PMDB, que acha que Dilma estaria disposta a trabalhar para o PT ter o maior número de prefeituras do Brasil. Essa disputa está longe do fim e se arrasta desde que começou o governo Dilma, pois o PMDB acabou não sendo contemplado com o que achava justo na distribuição das pastas ministeriais".

"Havia uma expectativa de que o PMDB ia dar as cartas, mas isso acabou não se materializando. Eles ficaram com um tamanho menor que surpreendeu até a nós, analistas", completou Kramer. O ponto alto da crise ocorreu no último dia 7 de março, quando os senadores negaram a recondução de Figueiredo - indicado por Dilma - à diretoria-geral da ANTT, mesmo com o governo tendo maioria folgada na Casa.

O PMDB encabeçou a insatisfação, fazendo da indicação uma reclamação política. Antes disso, um grupo de deputados do partido assinou manifesto dizendo que a relação entre eles e o PT com o governo é "desigual" e que a sigla vive numa "encruzilhada, onde o PT se prepara, com ampla estrutura governamental, para tirar do PMDB o protagonismo municipalista no País".

"Dilma está casada tecnicamente com os peemedebistas, com todas as consequências disso. Entre a opção de acabar bem o governo ou criar uma crise política desnecessária, eu entendo que optará pela primeira, se tiver sabedoria. O PMDB hoje virou a garantia de estabilidade do governo federal", salientou Ricardo Caldas.

Mentor do trem-bala

Em 2008, durante o governo Lula, Figueiredo, que ocupava a sub-chefia de articulação e monitoramento da Casa Civil, foi indicado por Dilma, então ministra-chefe da pasta, à diretoria da ANTT. Ele era o mentor do projeto de infraestrutura mais ambicioso do governo federal: o trem-bala.

Figueiredo sempre defendeu o projeto, mesmo após três fracassadas tentativas de licitação, e tentou viabilizá-lo na Câmara e no Senado, liderando a reformulação total do edital. Havia a previsão de que a proposta do Trem de Alta Velocidade (TAV), que vai ligar São Paulo ao Rio de Janeiro, estivesse nas mãos de Dilma ainda em 2012.

Porém, em votação secreta, o nome de Figueiredo na ANTT foi rejeitado pelos senadores por 36 votos contrários à sua indicação, 31 favoráveis e uma abstenção. Ele foi acusado de uma série de irregularidades, como a suspeita de ter ações de empresas privatizadas na época em que presidiu a Associação de Empresas Ferroviárias do Brasil.

Trocas nas lideranças

Insatisfeita com a atitude do PMDB, Dilma Rousseff tirou nesta terça-feira do senador Romero Jucá (PMDB-RR) o posto de líder do governo no Senado. Para substituí-lo, a presidente escolheu o senador Eduardo Braga (PMDB-AM). Jucá ocupava o posto desde o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e se manteve nos dois mandatos do ex-presidente Lula.

Destituído da função, o senador foi prontamente indicado pelo PMDB para assumir a relatoria do Orçamento de 2013. O peemedebista disse que não guarda mágoas da e que sua saída se dá por conta de um suposto rodízio de líderes acertado pelo governo: "Não saio magoado não. O momento (da minha saída) se confundiu com a votação da ANTT", ressaltando que ouviu de Dilma que era necessário um nome para dialogar com a base.

"Se ela entender que age como quer e que mudando o líder do governo no Senado resolve todos os problemas, está pedindo a crise", ponderou o professor Ricardo Caldas. Também na terça-feira, o nome do deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) foi anunciado como novo líder do governo na Câmara. Cândido Vaccarezza (PT-SP) foi dispensado do cargo, mas negou atritos na base aliada na Câmara e salientou que a crise que não vai comprometer o ritmo de votações.

"Minha saída não significa marola grande nem marola pequena", disse ele.

Vacarrezza afirmou estar convencido de que sua saída foi decisão política, e que o descontentamento dos aliados no Senado não se repetirá na Câmara. "O governo vai bem, a Câmara vai bem, e não há risco do governo perder votação por aqui."

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