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Sítio onde Tom Jobim criou 'Águas de março' é destruído pela chuva

Sítio onde Tom Jobim criou 'Águas de março' é destruído pela chuva

Atualizado: Segunda-feira, 17 Janeiro de 2011 as 8:53

O canto dos passarinhos, a montanha coberta de verde, o silêncio e a conversa amistosa dos moradores de São José do Vale do Rio Preto, na Região Serrana do Rio, onde Tom Jobim costumava passar férias, serviram de inspiração para a letra “Águas de março” e tantos outros sucessos no fim dos anos 50. Mas as chuvas dos últimos dias destruíram duas casas do sítio Beira Rio, na localidade de Poço Fundo, a 40 minutos de Petrópolis, mudando o cenário do refúgio do compositor.

Em meio a tristeza, ao constatar que a casa de um de seus filhos também foi destruída pela correnteza do rio, Olívia da Silva Porfílio, 86 anos, que acompanhou a infância do garoto que andava de suspensórios e um estilingue pendurado no pescoço, relembra com emoção o respeito que o maestro passou a ter pela natureza e canta alguns versos de sua música preferida simulando tocar violão.

“Eu me sinto como se tivesse criado o Tom. Trabalhei a vida inteira para a família dele. Quando ele ainda era um menino, com 12 anos, saía para caçar passarinhos. Muito curioso, pedia para eu ajudá-lo a identificar os cantos dos pássaros, como tico-tico, saracura e trinca-ferro antes de atirar pedra com seu bodoque. A gente conversava muito e, depois, se apaixonou pela natureza e passou a respeitar a mata e os animais”, diz ela.

Olívia lembra dos visitantes ilustres ao recanto do compositor, entre eles Vinicius de Moraes e João Gilberto, que teria ficado com o carro na lama, numa das referências que Tom faz na letra de “Águas de março”.

Construção às margens do rio

A pedido de Elizabeth, filha de Tom, as casas construídas às margens do rio, inclusive a do caseiro, estavam sendo reformadas. Mas a força da água destruiu as paredes, teto e ainda levou todos os móveis da residência.

Para o amigo de infância, o comerciante Joel Rosa Soares, 63, não só pela casa da família, mas pelo estrago que a chuvas fizeram na região, com centenas de desabrigados, deixaria o compositor muito triste.

“Ele gostava tanto desse lugar, pela beleza natural e sossego, que adotou Poço Fundo como seu recanto preferido. Não suportaria ver esse cenário de destruição”, acredita. Fã de Tom, Joel gosta de cultivar o estilo de se vestir – inclusive o chapéu – parecido com o do compositor.

Dos bons tempos, lembra as visitas ao seu bar nos fins de semana e mostra livros e fotos com dedicatórias. Uma delas, Tom faz referências às águas de fevereiro e março.

Outro colega de infância, Tito Porfílio, 59, que também perdeu sua casa com a chuva e está com a mulher na casa de parentes, diz que chegou a trabalhar para a família de Tom.

“Ele gostava de tocar violão, deitado em uma rede, quando ficava na casa na beira do rio”, lembra. A área do sítio se estende para o morro, depois da estrada que liga São José do Rio Preto a Teresópolis.

Lugar não foi abandonado, afirma caseiro

Caseiro da propriedade há 14 anos, João Batista Henrique, 47, conhecido como Biro Biro, afirma que a família não abandonou o lugar.

“Eles estão sempre aqui, acompanhando tudo e sempre vêm para descansar”, conta. Paulo Jobim, filho de Tom, esteve na região logo após os estragos das chuvas. Daniel, o neto, estava com a família ali perto, quando aconteceu a tragédia, e chegou a filmar a invasão do rio. Ninguém se feriu.

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