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Só cinco cidades históricas de Minas têm bombeiros

Só cinco cidades históricas de Minas têm bombeiros

Atualizado: Terça-feira, 17 Agosto de 2010 as 8:48

O incêndio, na madrugada de sábado, de dois imóveis do século 18 no Centro Histórico de Congonhas, na Região Central de Minas, expôs, mais uma vez, a fragilidade do patrimônio cultural e deu sinais da necessidade de medidas maiores de proteção do conjunto arquitetônico do estado. Os principais gargalos, segundo especialistas, estão na falta de prevenção, por parte dos proprietários, e no restrito número de unidades do Corpo de Bombeiros nas cidades históricas. Dos 32 municípios do interior destacados pela relevância cultural na Constituição Mineira de 1989 apenas cinco têm unidades de combate ao fogo: Itabira e Ouro Preto, na Região Central; Diamantina, no Vale do Jequitinhonha; São João del-Rei, no Campo das Vertentes; e Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Os demais, 85%, ficam na dependência de outros centros urbanos.

Projetos conduzidos pelo Corpo de Bombeiros demandam parceria com as prefeituras para surtir efeito. O mais importante, segundo o assessor de comunicação da corporação, capitão Frederico Pascoal, é o Minas Presente, que pretende dotar todas as cidades mineiras com população superior a 50 mil habitantes de frações reduzidas dos bombeiros ou grupos de 15 a 21 militares . “Minas tem 853 municípios e há áreas com grandes demandas, caso das cidades históricas, onde os riscos de incêndio para o casario e monumentos são maiores”, afirma o capitão Frederico.

O Minas Presente atua dentro de um novo conceito de segurança e está em implantação em algumas cidades da Zona da Mata e do Sul de Minas. “Com essas frações reduzidas, teremos condições de diminuir o tempo de atendimento, de forma que a guarnição de uma cidade chegue outra com rapidez. Mas é fundamental a parceria com as prefeituras, que vão fornecer a estrutura física, enquanto o Corpo de Bombeiros entra com os carros e os militares. Estávamos em entendimento com a Prefeitura de Congonhas, mas o processo não andou”, disse o capitão. A ocorrência de sábado foi atendida pela unidade sediada no município vizinho de Conselheiro Lafaiete, a 20 quilômetros de Congonhas, mas essa ajuda teria demorado 45 minutos para chegar.

Outra novidade está na aposta de aquisição de um veículo de emprego múltiplo, mais curto e mais ágil, para socorrer as cidades históricas em qualquer emergência. “Por ter uma vazão menor de água, ele não vai causar danos à estrutura dos prédios centenários, geralmente construídos em pau-a-pique, adobe e outros materiais mais frágeis”, disse o capitão. A expectativa é de que o veículo entre em operação em março. A gerente de Ação Preventiva do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha/MG), Daniele Rossato, considera fundamental o investimento em prevenção. “Edificações dos séculos 17, 18 e 19 têm material de fácil combustão, com muita madeira no piso, nas paredes e outras partes. Então, é preciso muito cuidado para evitar o fogo”, diz.

Cartilha

O superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Leonardo Barreto de Oliveira, ressalta a vulnerabilidade do patrimônio cultural, situação agravada, segundo ele, por muitas casas geminadas, fator que facilita a propagação do fogo, além de atos de vandalismo, estocagem de muito papel nos subsolos, queima de velas e até ataques a igrejas, como ocorreu há sete anos em Sabará, na Grande BH.

Ele destacou, no entanto, um ponto positivo no episódio na madrugada de sábado em Congonhas, que tem o conjunto histórico reconhecido como patrimônio da humanidade pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco). “O incêndio começou antes das 4h, um vigia deu o sinal de alerta e os bombeiros chegaram a tempo”, disse Leonardo, certo de que, se houvesse uma unidade da corporação na cidade, os efeitos seriam praticamente nulos.

O superintendente do Iphan adiantou que uma cartilha de prevenção de incêndios, feita em parceria com o Corpo de Bombeiros, voltará a ser distribuída nas cidades históricas, como forma de conscientizar a população e garantir a integridade do acervo. Em Minas, há 45 cidades com monumentos tombados pelo Iphan, das quais 10, incluindo Paracatu, no Noroeste, com conjunto arquitetônico sob proteção.

O prefeito de Congonhas, Anderson Cabido (PT), também presidente da Associação das Cidades Históricas de Minas, informou que o laudo dos peritos do Instituto de Criminalística sobre o incêndio de sábado deverá ficar pronto em 30 dias. Ele se mostra preocupado com o pequeno número de unidades de combate ao fogo no interior e explica o que ocorreu na negociação entre os bombeiros e a cidade que administra. “Os entendimentos foram feitos no fim do ano passado. Fomos procurados pela corporação e, como parte no convênio, teríamos que construir um quartel, que custaria R$ 2 milhões ao município. Agora, já identificamos uma área e vamos retomar o entendimento para firmar a parceria.”

Poucos dias antes do incêndio, o Centro Histórico já havia sido ameaçado pelo fogo – na sede da Rádio Cultura, também perto da Basílica do Senhor Bom Jesus do Matosinhos e das capelas com esculturas de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1730-1814). Felizmente, as chamas, que começaram em um terreno coberto de capim seco, foram debeladas antes de causar danos.

Em nota, o governo de Minas informa que tem feito investimentos para melhorar o atendimento dos Bombeiros à população. Em 2002, a corporação tinha 355 carros e, hoje, tem 1.067. São 6,4 mil homens, sendo 1,5 mil formados na semana passada. Em todo o estado, há 47 unidades (frações). As próximas serão inauguradas em Januária, no Vale do São Francisco, e em Formiga, na Região Centro-Oeste.

Monumentos importantes de Minas já foram vítimas do fogo. Em1999, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, do século 18, no Centro Histórico de Mariana, foi parcialmente destruída, sendo necessária uma campanha para restaurá-la. Em 2003, foi a vez do Hotel Pilão, instalado em um prédio do século 19, na Praça Tiradentes, em Ouro Preto, arder completamente. A solução foi reconstituí-lo para fins culturais.  

Postado por: Thatiane de Souza

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