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'Só saio morto', diz dono de casa que pode ser desapropriada em SP

'Só saio morto', diz dono de casa que pode ser desapropriada em SP

Atualizado: Terça-feira, 5 Julho de 2011 as 4:03

Casal vive há 46 anos em local em que projeto

prevê desapropriação

(Foto: Caroline Hasselmann/ G1)

  Moradores do Campo Belo, uma das áreas da Zona Sul de São Paulo que estão no projeto da Operação Urbana Água Espraiada, amanheceram indignados nesta terça-feira (5). Eles temem que suas casas sejam desapropriadas caso a lei aprovada na Câmara Municipal na segunda (4) e que prevê a contrução de um túnel para ligar a Avenida Jornalista Roberto Marinho à Rodovia dos Imigrantes seja sancionada pelo prefeito Gilberto Kassab. O projeto prevê a retirada de 8.500 famílias de 16 favelas. Mais de 1.300 imóveis deverão ser desapropriados.     “Se forem me tirar daqui, só saio morto”, disse Evaristo Tarelho, de 75 anos. Morador do local há 46 anos, ele e a mulher, a aposentada Ana Tarelho, de 73, disseram que criaram as três filhas no local, que fica na Rua Pedro Bueno. “Vejo tanta gente que batalhou aqui. Pago minhas contas em dia, impostos, fico triste agora se tiver se tiver que sair”, disse Ana, emocionada.

Uma das filhas do casal ainda mora no bairro. A compradora Jane Tarelho, de 51 anos, afirmou que há um ano e meio acompanha as audiências públicas na Câmara Municipal. “O que o secretário falou é que vai nos oferecer 250% a mais do valor venal, só que neste ano o valor venal foi reduzido”, disse.

Segundo ela, ainda não foi informado quanto será o valor total de desapropriação dos imóveis. ”O secretário disse que era de acordo com a degradação das casas e não sabia o valor. Temos amigos na Favela da Rocinha, e eles foram colocados contra nós porque a Secretaria de Habitação disse a eles que, se não saíssemos, eles não receberiam as casas", afirmou.

No local, segundo os moradores, que se reuniram para discutir a aprovação da Câmara, vai ser construído um parque que está no projeto. Durante a conversa, o que se via era revolta e tristeza. Nos muros das residências há faixas de protesto contra a desapropriação.

Catarina Honorato dos Santos Belo, de 66 anos, mora há mais de 40 anos no bairro. Ela é aposentada e trabalha como empacotadora de supermercado para pagar as despesas. ”Sou viúva e moro sozinha. Trabalho para me sustentar. Fiz essa casa com areia do rio. Não queremos dinheiro, só nossas casas”, afirmou.

Ottolia em frente de casa com faixa de protesto

(Foto: Caroline Hasselmann/ G1)

  Quem tem comércio também se preocupa. O comerciante Sílvio Ottolia, de 80 anos, criou os cinco filhos na casa onde mora hoje sozinho com a mulher. No local, funciona também uma lanchonete. “Já nem invisto mais”, disse.

O imóvel de 200 m² e três dormitórios, segundo ele, vale em torno dos R$ 600 mil. Pelo valor venal, que ele também disse ter baixado, a casa passa a custar R$ 180 mil.

“Não dá nem para comprar um apartamento de terceiro nível. Um apartamento de 70 m² com dois quartos custa 30% a mais do que o valor da desapropriação. Quem vai me dar essa diferença?”, questionou. “Saio daqui carregado se pagarem esse valor que disseram. Não vou sair andando daqui. Eles podem ter certeza disso”, afirmou.

Ao lado da casa de Ottolia, existe uma loja que revende materiais para laboratório há 27 anos. "Sou inquilino do local. Acabei de reformar aqui e gastar em torno de R$ 60 mil. O que seria investimento vai ser prejuízo. O terreno do lava-rápido aqui na outra rua é meu e até agora ninguém veio falar de indenização”, afirmou o sócio da empresa, Marco Antônio Zara.

‘Estamos apavorados’

José Henrique de Melo, aposentado de 75 anos, morador da favela Beira Rio, reclama do descaso da Prefeitura com os moradores. “Desde 2008 a gente se reúne com a Prefeitura para receber informações sobre nossa situação. Prometeram primeiro uma moradia para as pessoas do perímetro da obra. Começaram a cadastrar, mas não concluíram. São mais de 12 mil famílias que não se cadastraram. Depois ofereceram um aluguel de R$ 300. Não aceitamos. A Prefeitura parou a discussão. Estamos mais apavorados do que nunca”, afirmou.

Melo é um dos moradores da região que se reuniram na manhã desta terça-feira (5) para falar sobre o assunto no local. José Luiz Ribeiro, que faz parte do Conselho de Moradores do Jabaquara, afirmou que o que se questiona é a construção do túnel, já que ele não estava na lei de 2001, e o aumento do parque, que é o que vai fazer com que aumente o número de desapropriações.

“Nessa área vai ser construído um parque, o que aumentou de 300 mil m² para 600 mil m² (a área). Isso aumenta também a desapropriação: mais 50 mil pessoas. A operação urbana era para ressocialização do local e não para atender o sistema viário”, disse. A associação entrou com uma ação na Justiça há quatro meses e agora espera uma decisão.

Prefeitura

O prefeito Gilberto Kassab diz que se trata de uma obra importante para a cidade de São Paulo e “que tem no campo social uma dimensão bastante expressiva”. “Estamos falando em milhares de pessoas que moram em condições muito inadequadas, na maior parte favelados, que terão nesse projeto oportunidade de serem transferidos para moradias que serão construídas com essa operação”, afirmou.

“É um projeto de lei que vai permitir abrigar essas pessoas, para que elas possam morar com dignidade”, disse, nesta terça-feira. “Além de ter moradia para estas pessoas, abre espaço para a construção de um dos maiores parques da cidade de São Paulo, uma avenida e um túnel que chegará até a Rodovia dos Imigrantes”, afirmou.

Segundo ele, a operação irá desafogar o trânsito na região. “É um projeto importante para cidade de São Paulo que, felizmente, está saindo do papel, para que possamos o mais rápido possível ter a cidade de São Paulo com alternativas: vai desafogar a Avenida dos Bandeirantes, vai melhorar o acesso da Zona Sul para outras regiões da cidade e também para o litoral”, disse o prefeito.

Desapropriações

“Desde o início da gestão, em todas as oportunidades que tivemos que tratar de uma desapropriação, tivemos valores justos [de indenização] sendo estabelecidos. Não tivemos nenhum problema. Não será nessa obra que teremos”, afirmou Kassab.

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