Soberano enaltece hexa do São Paulo e vê hereditariedade na torcida

Soberano enaltece hexa do São Paulo e vê hereditariedade na torcida

Atualizado: Quinta-feira, 2 Setembro de 2010 as 11:24

Mais de 50 anos depois do surgimento do Canal 100, o lendário cinejornal que mostrava lances de partidas de futebol antes das sessões de cinema, o Brasil parece estar redescobrindo que a telona também tem quatro linhas.

Depois de documentários enfocando Pelé e alguns clubes – notadamente Grêmio (RS) e Corinthians (SP) -, surge agora um sobre o São Paulo, mais especificamente sobre os seis títulos nacionais do tricolor paulista. A estréia de “Soberano – Seis Vezes São Paulo” está marcada para o próximo dia 17, em circuito nacional.

Em seus 90 minutos (epa!) de duração, o filme segue à risca a proposta do título e praticamente ignora outras grandes conquistas do São Paulo ao longo dos 31 anos que vão de 1977, ano da primeira taça no Campeonato Brasileiro (na verdade, a final contra o Atlético Mineiro foi disputada no ano seguinte) a 2008, quando o time sagrou-se hexacampeão contra o Goiás. Por exemplo, os tricampeonatos da Libertadores e do Mundial Interclubes são mencionados somente en passant.

De acordo com a assessoria da G7 Cinema, todas as pessoas envolvidas na produção, inclusive Maurício Arruda e Carlos Nader (ambos diretores e roteiristas), são torcedores fanáticos do São Paulo. Como isso é óbvio do princípio ao fim do filme, cabe a ressalva de que, à parte seu grande valor documental, “Soberano” é para ser visto principalmente por são-paulinos. Fãs apaixonados de outros clubes podem sair irritados do cinema.

Personagens

As seis conquistas tricolores são recuperadas por meio de imagens e narrações da época e de entrevistas com alguns de seus personagens. De 1977, surgem o técnico Rubens Minelli, o então jogador Muricy Ramalho e o lendário goleiro Waldir Peres; para falar de 1986 há o centroavante Careca e o zagueiro Daryo Pereira; sobre 1991, ano do único título nacional do time com Telê Santana no comando, fala o meia Raí; e sobre 2006, 2007 e 2008 volta a falar Muricy, agora como técnico, e também o goleiro Rogério Ceni.   Tanto Muricy como Raí contam histórias hilariantes. O primeiro lembra como o atacante Serginho Chulapa foi levado ao Mineirão para pressionar o Galo, pouco antes da partida -- ele estava suspenso, assim como o rival Reinaldo (Minelli, numa gravação separada, dá mais detalhes do caso). Já o meia-galã dos anos 90 recorda passagens de Telê durante os treinos, nos quais o grau de exigência do técnico beirava o surreal.

São as imagens dos dois primeiros títulos do século 20 que pegam o espectador-torcedor pelas entranhas, talvez porque naquela época o Brasileirão era definido em jogos finais e não por pontos corridos, concentrando toda a tensão em uma ou duas partidas que ganhavam estatura quase sobrenatural.

Uma edição com lances pouco vistos do jogo contra o Atlético, por exemplo, antecede as cobranças de pênalti, nas quais Waldir teve papel decisivo para o título sem fazer uma defesa sequer (mas fez duas, inacreditáveis, durante o jogo). Já a segunda partida contra o então fortíssimo Guarani, em 1986, também decidida nos pênaltis, vira um filme de suspense a ser resolvido quase no último lance da prorrogação – com o protagonismo de Careca.

Outro aspecto interessante é o uso de narrações radiofônicas para acompanhar algumas das imagens. Quem tem ao menos 35 anos certamente vai gostar de ouvir as vozes de Fiori Gigliotti e Osmar Santos acopladas a lances memoráveis dos jogos mais antigos.

Hereditariedade

O fio condutor do roteiro, além da reportagem cronológica sobre os seis títulos, é a busca de uma identidade entre os torcedores do São Paulo, tarefa que seria muito mais fácil numa produção sobre Corinthians (“eu sou do povo, eu sou corintiano”) ou Palmeiras (clube identificado com a colônia italiana).

A solução surgiu na análise de dezenas de depoimentos pessoais recebidos pela produção, via internet, antes de começar as filmagens: muitos são-paulinos disseram que torcem para o clube porque seus pais ou avôs, ou mesmo pais e avôs, também eram fãs da equipe do Morumbi.

Essa espécie de “fator hereditário” contribui para que haja momentos de grande emoção nas entrevistas com torcedores, realizadas nas arquibancadas e cadeiras do Morumbi: vários deles vão às lágrimas ao lembrar de jogos decisivos assistidos ao lado da família.

O caso mais impressionante é o de um rapaz que sofria de câncer infantil em 1986, ano do bicampeonato contra o Guarani. Com a barriga cheia de pontos, proibido de se mexer, o torcedor lembra como o então menino explodiu de alegria no quarto do hospital – com o pai a seu lado. “Depois fiz quimioterapia, radioterapia, e meu cabelo não caiu”, conta o rapaz, como quem atribui tal “milagre” àquela recém-despertada paixão pelo São Paulo.

Outro exemplo de elo familiar é o de uma torcedora iniciada no futebol pelo avô, que a levava ao Morumbi desde menina. Quando ele morreu, na véspera de um clássico com o São Paulo, a moça deixou de ir ao velório e ao enterro para assistir ao jogo – como uma homenagem sentimental ao parente que se fora.

Também há espaço para anedotas quase inverossímeis, como a do casal de torcedores que saiu em lua-de-mel no dia da final de 1977 e teve de adiar sua primeira relação sexual até depois do jogo, já que o noivo (que também confessa ter virado são-paulino por causa do pai, que nem chegou a conhecer) descia a todo momento ao saguão do hotel para ver a partida na televisão.

Esgotados os 90 minutos regulamentares de “Soberano”, o torcedor do São Paulo terá todos os motivos para deixar a sala de cinema com um sorriso nos lábios, muito orgulho no peito e, provavelmente, lágrimas nos olhos. Foi, aliás, o que aconteceu comigo.

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