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"Sonhos Roubados" mostra o lado B do Brasil adolescente

"Sonhos Roubados" mostra o lado B do Brasil adolescente

Atualizado: Quinta-feira, 22 Abril de 2010 as 12

Uma semana depois de "As Melhores Coisas do Mundo", chega aos cinemas nesta sexta-feira (23) outro filme sobre o universo dos adolescentes – "Sonhos Roubados". Se fossem música, um viria no lado A e o outro no lado B de um LP intitulado "Brasil Adolescente" ou, mais provavelmente, "Brasil Teen".

Enquanto o filme de Laís Bodanzky apresenta os típicos problemas de um grupo de jovens da classe média paulistana, o de Sandra Werneck documenta as agruras de um trio de meninas dos subúrbios do Rio de Janeiro. Por suas próprias naturezas, são dramas de intensidade muito diferentes – e também a forma de registrá-los mostra opções nada parecidas.

O roteiro de "As Melhores Coisas do Mundo", a respeito do qual escrevi brevemente no blog, opta por uma abordagem polifônica, sem juízos morais, ao longo da qual os adolescentes protagonistas, os adultos com quem eles se relacionam – e também o público – vão desenvolvendo uma compreensão mais ampla dos acontecimentos. É como se todos participassem de um processo de amadurecimento, cujas conclusões ficam a cargo de cada um, individualmente.

"Sonhos Roubados" trata de uma temática muito mais delicada, relacionada à forma que as personagens encontram para sobreviver – a prostituição infantil. Sandra Werneck já havia tratado de assunto correlato no documentário "Meninas" (2006), no qual acompanha a trajetória de quatro jovens que engravidaram na adolescência.

Ainda que seja uma ficção, "Sonhos Roubados" adota um registro próximo ao do documentário. O roteiro é baseado no livro-reportagem "Meninas da Esquina", no qual a jornalista Eliane Trindade dá voz a seis adolescentes, de diferentes partes do país, que encontram na prostituição o caminho para suprir as suas necessidades e satisfazer os seus sonhos de consumo.

"Sonhos Roubados" conta três destas histórias, além de aproveitar detalhes das outras três, e coloca as personagens como amigas, morando numa mesma comunidade muito pobre, no Rio de Janeiro.

Jéssica (Nanda Costa), a mais velha, tem 17 anos, vive com o avô doente, é órfã (a mãe morreu de Aids), cuida da filha, Britney, e enfrenta a avó paterna, evangélica, que tenta conseguir a guarda da neta. Sabrina (Kika Farias), a do meio, larga o emprego ao começar a namorar um criminoso, engravida e se vê, de uma hora para outra, abandonada, com um bebê no colo. Daiane (Amanda Diniz), a mais jovem, tem 14 anos, mora com a tia e o tio, que abusa dela, e implora afeto do pai, que não se interessa por ela.

Com fotografia inspirada de Walter Carvalho, mas um roteiro previsível, Sandra Werneck propõe ao espectador acompanhar a trajetória destas três amigas. Entendemos que, para elas, a prostituição não é uma profissão, mas apenas um meio rápido de conseguir recursos para comprar uma cópia da calça de grife que elas vêem na novela. Muito mais que isso, o filme não oferece ou propõe.

Não há saídas nem final feliz para essas meninas. Quem entra no cinema com esta impressão, sai da projeção sem mudar de ideia. "Sonhos Roubados" produz pena e compaixão, mas não ajuda muito a pensar.

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