Traficantes "mercenários" ignoram facção e negociam com rivais no Rio

Traficantes "mercenários" ignoram facção e negociam com rivais no Rio

Atualizado: Terça-feira, 18 Maio de 2010 as 7:23

Ao descobrir um laboratório de refino de cocaína na semana passada em Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro, a PF (Polícia Federal) se surpreendeu ao verificar que dois traficantes de facções criminosas rivais usavam o local. Policiais civis já identificaram outros criminosos que trabalham para mais de uma organização.

De acordo com um agente da Dcod (Delegacia de Combate às Drogas), os chefões do tráfico no Rio permitem que os chamados ''matutos'' (fornecedores que trazem entorpecentes de países vizinhos como Paraguai ou Bolívia ) vinculados à sua facção comercializem drogas com outras organizações criminosas. Segundo ele, o que não é permitido é vender armas para os outros grupos. Quem desobedece essa ordem, pode pagar com a própria vida.

- Os chefões não deixam os matutos venderem armas para outras facções, porque as armas podem ser usadas contra eles próprios, ao contrário das drogas, que servem apenas para fazer dinheiro.

Entre os que venderiam drogas para mais de uma facção, está a quadrilha comandada pelo traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar. Além de abastecer o grupo ao qual é vinculado, o bando também enviaria cocaína para a favela da Rocinha, em São Conrado, na zona sul, que pertence a outro grupo criminoso.

Investigações indicam que outro criminoso que trabalha para outras facções é conhecido como Paulista. Baseado na favela Parada de Lucas, na zona norte, ele fornece drogas também para o morro de São Carlos, no Estácio, na região central da capital fluminense, cujos traficantes são rivais de Parada de Lucas.

Os policiais sabem também que o traficante conhecido pelo apelido de Serginho Careca, que é baseado no morro da Quitanda, em Costa Barros, na zona norte, e é vinculado à mesma facção que comanda o São Carlos e a própria Rocinha, vende entorpecentes para outras duas organizações criminosas.

Tráfico de armas

Em relação aos ''matutos'' de armas, a Drae (Delegacia de Repressão à Armas e Explosivos) informou que dois dos principais fornecedores da facção, conhecidos pelos apelidos de Toni e Tubarão, presos no ano passado, só vendiam armas dentro do próprio grupo. Segundo um agente, no entanto, se o ''matuto'' não tiver associado a um grupo, ele vende para os outros também.

- O Toni e o Tubarão eram donos de favelas da facção. Agora, se o matuto for independente, ele vende para todas. É a lei da oferta e da procura.

O policial da Drae citou também o exemplo do bandido conhecido como Saulo da Rocinha, atualmente preso, que era um dos matutos de armas da facção. Como também era morador da comunidade, não vendia armamento para as quadrilhas inimigas, mas negociava drogas com os rivais.

O Gaeco (Grupo de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público de São Paulo já havia identificado anos atrás, com base em escutas telefônicas, que a facção criminosa que age nos presídios paulistas negociava drogas e armas com as três organizações que atuam no Rio de Janeiro.

Por Mario Hugo Monken

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