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Venda ilegal de órgãos circula pela internet

Venda ilegal de órgãos circula pela internet

Atualizado: Terça-feira, 31 Maio de 2011 as 1:12

    Uma cicatriz de 40 centímetros, dinheiro no bolso e nada mais. Essa expectativa de ganho fácil, sem maiores consequências, leva centenas de pessoas a venderem seus próprios órgãos corporais num comércio ilegal e macabro, que é cada dia mais frequente na internet. O DIÁRIO pesquisou diversos sites e encontrou histórias desconcertantes, como a de uma paulistana de 32 anos, que anuncia seus órgãos como quem vende qualquer produto: “Vendo rim, medula óssea, fígado e pulmão. Urgente!” No anúncio, a moça, que diz ser uma pessoa “madura, equilibrada e sensata”, explica sua situação:

“Lamento tratar desse assunto tão delicado como uma barganha, mas minhas complicações financeiras ….enfim ….Tenho muita urgência. Estou realmente decidida ! Então, reitero: contatar somente pessoas interessadas e objetivas. Meu perfil: sangue A positivo, sou branca. Tenho 32 anos. Não fumo. Nunca fumei. Não bebo absolutamente nada (seja cerveja, licor, champanhe.. enfim: qualquer tipo de bebida com álcool: NÃO BEBO ! ) Alimentação saudável (fibra, legumes, frutas etc.).  Não como carne vermelha há pelo menos oito anos. Não tenho filhos. Não faço nem nunca fiz uso de drogas não lícitas. Não tomo nenhuma medicação, nem anticoncepcional. Meu ciclo menstrual é regular. Realizei check-up completíssimo recentemente, em um centro de diagnósticos muito bem conceituado aqui em SP, que é inclusive referência no país! (tudo ok ).Tenho saúde plena !!!!! Sempre fui muito cuidadosa !!!!!”

Mais para frente, parte para assuntos  práticos. Diz que tem disponibilidade para viajar, pretende receber 60% no acerto e os demais 40% antes da cirurgia, tudo adiantado.

Custos

Nos anúncios verificados pelo DIÁRIO, um rim chega a ser comercializado por R$ 150 mil. Há casos curiosos, como o de um rapaz de 21 anos, que afirma vender o órgão “barato”, por R$ 50 mil. Em seguida, as explicações: “Não fumo e não uso drogas. Sou sano e estou sujeito a realizar todas as provas de compatibilidade. Negócio preço a custo baixo porque tambem quero ajudar.”

O DIÁRIO  conversou com três pessoas que pretendem vender seus órgãos pela internet. Um deles disse que  esteve desempregado por dez anos, acaba de arranjar trabalho mas mesmo assim ainda aceita negócio, “para fazer um pé de meia para o futuro”.  Outro, contou sofrer de uma doença crônica, a osteomielite (uma infecção óssea). Por isso precisaria  de dinheiro para se tratar e tem a intenção de vender  um rim. O terceiro foi taxativo: “Esse anúncio é antigo. Hoje  tenho 29 anos, mas continuo saudável e querendo vender um rim.”

A delegacia responsável em apurar crimes cometidos pela internet informa que não há nenhum inquérito em andamento envolvendo a venda de órgãos humanos pela web. A Lei Federal 9.434, de 1997, prevê pena de reclusão, de três a oito anos, para esse crime.

No Brasil, pessoas vivas podem doar um dos rins, parte do fígado, parte da medula óssea e parte do pulmão. Pela lei, parentes até o quarto grau e cônjuges podem ser doadores. Não parentes só podem ser doadores com autorização judicial. Na prática, entretanto, isso nem sempre funciona.

Nancy Scheper-Hughes, antropóloga americana da Universidade da Califórnia (EUA), trabalhou mais de dez anos no Brasil investigando denúncias sobre o tráfico internacional de órgãos. Num livro que escreveu sobre o tema, ela enumera casos em que a lei foi desrespeitada. “Os médicos dizem que de vez em quando chegam duas pessoas que dizem ser primas. O interessante é que a que recebe o órgão é de classe alta. A que doa usa sandálias de plástico e vem da área rural. Os cirurgiões dizem que não são responsáveis se eles mentem”, afirma.

Policia descobriu esquema internacional

A Polícia Federal desarticulou, em 2003, na chamada Operação Bisturi, um esquema internacional que rendeu  aos traficantes internacionais mais de US$ 4 milhões. Eles pagavam, em média, US$ 6 mil  pelos rins de pessoas pobres, no  Recife, que eram abordadas em áreas da periferia da cidade.

100 brasileiros venderam órgãos no esquema Brasileiros eram operados na África.

Os brasileiros eram transportados até a África do Sul e lá, operados. Seus órgãos eram transplantados para pacientes de Israel, que pagavam até US$ 120 mil, 20 vezes mais do que os pernambucanos recebiam. Os traficantes respondem processo na África do Sul.          

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