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Vítimas de tragédias passadas dizem ao G1 como reconstruíram a vida

Vítimas de tragédias passadas dizem ao G1 como reconstruíram a vida

Atualizado: Segunda-feira, 17 Janeiro de 2011 as 8:41

Casa, carro, geladeira, documentos e, no pior dos mundos, parentes e amigos. A ação implacável da água e da lama em enchentes como as que atingiram a Região Serrana do Rio de Janeiro na quarta-feira (12) periga levar consigo também a esperança de suas vítimas, que se perguntam como – e se – vão reconquistar, algum dia, tudo o que perderam na tragédia.

“Eu não tinha nem motivo para viver. Minha vida parecia que tinha acabado”, diz ao G1 a copeira Sabrina Carvalho de Jesus, 27, que viu sua casa, construída ao pé do Morro do Bumba, em Niterói (RJ), ser soterrada em segundos pela avalanche que trouxe abaixo dezenas de casas construídas sobre um antigo lixão, em abril de 2010. O avô de Sabrina, a mãe e o filho de 7 anos, Caíque, morreram no episódio. Cauã, seu outro filho, então com 7 meses, foi salvo depois de ser resgatado dos escombros.

“Eu não queria nem saber do Cauã. Tinha me fechado para o mundo. Mas tive que botar a cabeça no lugar e falar: ‘meu filho só tem 7 meses de idade e precisa de mim’. Peguei forças de onde não tinha e, com muita tristeza, como estou ainda, fui superando”, diz ela, que há 4 meses ganhou um novo motivo para seguir adiante: está grávida de outro menino. “Deus sabe o que faz. Não planejamos e, por muito coincidência, vem um bebê, um menino. Parece até que Deus voltou para tirar o vazio que ficou”, comemora.

Foi também em meio à tragédia que a dona de casa Patrícia da Silva Pires, 36, viu renascer a esperança depois de perder tudo o que tinha dentro de casa, no centro antigo de São Luiz do Paraitinga, interior de São Paulo, devastado pelas chuvas de verão em 2010. Enquanto mudava de uma casa para outra, buscando abrigo contra as águas que não paravam de subir, Patrícia chegou ao bairro São Benedito, onde vivia o peão Carlos Augusto da Fonseca, 24, com quem começou a namorar dias depois.

Carlos também corria contra o tempo. Ele conta que, durante o temporal do primeiro dia do ano, pegou o pai e a mãe, com quem mora, e subiu para a parte mais alta do terreno. A casa fica a 50 m do Rio Paraitinga, que transbordou e provocou a enchente na cidade. “Dormimos no tempo”, lembra. Com ‘tempo’, ele quis dizer ao relento. “Na verdade, a gente mal dormiu”, completa. “Quando a água baixou e eu desci 2 dias depois, vi o estrago. Passou tanta coisa na cabeça, foi muito difícil”, diz o rapaz, que hoje ergueu uma nova casa no mesmo lugar daquela que ruiu.

Agora, o casal aguarda a reconstrução de um dos principais postais da cidade para poder oficializar o namoro – que em 17 de janeiro completa 1 ano. Patrícia, para quem um dos momentos mais tristes das enchentes foi ver desmoronar a primeira torre da charmosa Igreja da Matriz, brinca que quer ser a primeira a se casar no local, ainda em ruínas. “Fui batizada na Matriz e quero esperar ela ser construída de novo para casar lá.”

Lua de mel adiada

Vítimas das enchentes em Itajaí, em novembro de 2008, o jornalista Anderson Silva da Costa e a auxiliar administrativa Juliana Salete Paris da Costa haviam se casado exatamente no dia da tragédia. A lua de mel teve de esperar um ano, até que o casal conseguisse recompor tudo o que havia sido perdido. O plano de fazer um cruzeiro foi deixado de lado, e eles passaram uma semana em Maceió.

“Os dias seguintes [à enchente] foram só de limpeza. Vimos o que tinha estragado e tentamos arrumar. O mais triste foi perder coisas que a gente não recupera mais, como fotos de infância, por exemplo. A mãe dele tinha guardado o primeiro brinquedo que ele ganhou, mas tudo isso foi embora com a água e não tem como recuperar”, conta Juliana.

Na época, eles estavam morando na casa dos pais de Anderson, porque o apartamento que compraram ainda não tinha ficado pronto. A água ali chegou a 1,5 m e destruiu tudo que estava no imóvel, inclusive dois carros.

“Foi complicado ficar sem carro. Nós tínhamos a viagem de lua de mel marcada e foi um baita trabalho para conseguir o ressarcimento da empresa, ficamos meses esperando. Felizmente não perdemos muitos documentos, porque meus pais perceberam a água subindo e levantaram tudo”, disse Anderson.

A família chegou a dormir na laje, com medo que a residência fosse alvo de saques. Além dos documentos e de alguns eletrodomésticos, o casal também conseguiu salvar os presentes de casamento, que tinham sido enviados para a casa da mãe de Juliana.

“Hoje, a casa está totalmente diferente, mas toda a reforma foi feita por causa da enchente. O muro que tinha sido derrubado com a enxurrada foi refeito. Também tem um jardim lindo. Nem dá para dizer que a gente passou por tudo aquilo”, afirmou Juliana.

Vida de apartamento

Bruno Lemos, 31, que é primo de Sabrina, do Morro do Bumba, não teve a mesma chance para reconstruir a vida no mesmo lugar em que vivia desde que nasceu. Depois do deslizamento, a Defesa Civil mandou demolir a casa em que morava com a esposa, dividindo o quintal com mãe, pai, irmã, irmão, cunhado e sobrinhos. “A casa da minha mãe era maior ainda. Tinha piscina de azulejo, garagem para cinco carros. Perdemos tudo isso”, diz ele, que teve de mudar, junto com toda a família, para um conjunto de apartamentos cedido pelo governo do Estado no bairro Várzea das Moças.'   “A gente está acostumado com casa. Apartamento é muito pequeno”, reclama Bruno, gerente de recursos humanos de uma empresa de contabilidade, que antes levava 10 minutos do trabalho até sua casa e hoje leva 40. “Minha mulher, que trabalha no centro do Rio, está levando 2 horas para ir e mais duas para voltar. Dobrou o tempo de deslocamento.”

O que mais preocupa Bruno, no entanto, é que, passados quase 10 meses da tragédia, ele e seus familiares ainda não receberam as escrituras dos novos apartamentos doados pelo governo. “Estamos processando o município pelo que a gente tinha e não tem mais. O que a gente ganhou [de indenização] não paga, infelizmente. A gente tem até medo de ter que pagar pelo apartamento em que está morando”, desconfia.

O advogado Reinaldo Araújo, 65, anos, também critica a demora do poder público local para ajudar as vítimas das enchentes em Palmares (PE), em junho de 2010. “Muitas pessoas mais carentes, que se cadastraram para receber auxílio do governo do estado e do município ainda não receberam o dinheiro até hoje. Já fizeram recadastramento e continuam sem receber ajuda”, diz.

"Os serviços públicos estão caóticos. A cidade está mais limpa, quando se fala de lama, mas ainda resta muita poeira, porque boa parte do asfalto que tinha nas ruas se foi com a água. Muitos caminhões ainda passam por dentro da cidade e as ruas estão completamente esburacadas.”

Na antiga casa no Bairro Modelo, que foi toda cobertura pela água e lama, até as primeiras telhas, a situação vai se resolvendo lentamente. “Fiquei 60 dias só para tirar a lama e a sujeira", lembra. "Eu ainda não voltei para casa. Esta semana, passei duas noites aqui, com colchão no chão, para tentar pintar alguns cômodos. Ainda falta muita coisa para arrumar, muito serviço de pedreiro”, afirma o advogado, que também perdeu a mãe pouco depois da tragédia. "Passei um período bem ruim. Emagreci 10 kg e fiquei adoecido. Aos poucos a gente vai voltando a trabalhar.”

Trauma

Recuperando-se, cada qual à sua maneira, de seus dramas pessoais, as vítimas de episódios como esses voltam a viver momentos de tensão e tristeza a cada vez que ligam a TV e assistem a novas tragédias como as de Teresópolis, Nova Friburgo, Petrópolis ou São José do Vale do Rio Preto.

“Dá um desespero. Passamos por isso e sabemos o medo e a aflição que as pessoas estão sentindo nessa hora. É complicado, mas quem está passando tem que botar a cabeça em ordem, ter pensamento positivo e tocar a bola para frente. Coisas materiais, a gente trabalha e consegue de novo”, diz Juliana.

“Essa noite nem consegui dormir. Estava me colocando no lugar dessas pessoas que estão perdendo parentes. Fiquei muito triste, não conseguia parar de pensar. Quando via tudo caindo, só vinha aquele filme do dia 7 de abril na minha cabeça”, conta Sabrina.

Bruno, seu primo, confessa que também sente “tremer as pernas” toda vez que vê um carro de bombeiro ou uma ambulância passar. “Fica um trauma. Mas o bacana é que a gente está vivo. Se o governo não tivesse ajudado, a gente teria dado a volta por cima também, graças a solidariedade das pessoas nessa hora, que fala muito alto.”

Resgatado dos escombros com vida após três dias da tragédia do Bumba, quem continua ressabiado é o cachorro Nick, o labrador de Bruno que hoje “mora” com a sogra por falta de espaço no novo apartamento. “Três vezes por semana eu passo lá para cuidar dele”,diz. “Ele adorava água, mas hoje não pode ver chuva. Começa a cair, ele fica desesperado, se enfia embaixo da cama e não sai de jeito nenhum!”

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