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Wall Street e a verdade de época

Wall Street e a verdade de época

Atualizado: Quarta-feira, 13 Outubro de 2010 as 11:38

Existe um tipo particular de continuação que foge da lógica imediatista da indústria. Não faltam exemplos de filmes feitos à toque de caixa, em busca do lucro garantido de um produto que deu certo anteriormente.

Falo de filmes que retomam histórias antigas, cujos protagonistas envelheceram como os personagens. É assim em “A Cor do Dinheiro” (1986), em que Paul Newman retoma o Fast Eddy de “Desafio à Corrupção” (1961), o “Poderoso Chefão 3” (1990), em que Al Pacino volta à saga iniciada em 1972, ou o recente “Wall Street - O Dinheiro Nunca Dorme”, que surge após 23 anos do original. Há uma verdade impressa nos rostos dos atores. As rugas de Michael Douglas agora estão mais numerosas, Charlie Sheen, mais gordo.

É como se o filme ficasse mais real, já que todos ali estão envelhecidos naturalmente, sem recursos pesados de maquiagem ou computação. Como se, numa realidade paralela, Gordon Gekko realmente existisse.

Na “saga” “Wall Street”, essa “verdade” é quase como o cerne dos filmes. São produções em que o momento presente, a tentativa de se fazer um retrato fiel dos dias correntes se impõem.

Assista novamente ao primeiro filme, de 1987, se possível. Estão presentes ali elementos impossíveis de serem recriados completamente nos dias de hoje. Cortes de cabelo, combinações de roupas, maquiagem, computadores, telefones, a própria identidade visual do filme e a textura da imagem. Há, por exemplo, a cena em que Bud Fox (Charlie Sheen) decora seu novo apartamento, ao som de “This Must Be the Place (Naive Melody)”, do Talking Heads, enquanto prepara sushi. Naquele momento, sabemos, a economia do Japão estava no auge.

No novo filme, Jake (Shia LaBeouf) seduz investidores chineses proferindo algumas palavras no idioma e mostrando conhecimento da cultura local. São os novos tempos e as novas regras de negociações.

Claro, Oliver Stone é um diretor meio jornalista, decidido a fazer comentários críticos sobre sua época (e a inclusão de músicas recentes do ex-Talking Heads David Byrne mostra como tudo foi consciente). Mas são nesses detalhes de época que o filme ganha vida.

Mais do que um clichê, retratar jovens investidores ligados em sites de informação independentes, preocupados com causas verdes, são uma realidade. Assim como a estética cafona de mostrar imagens geradas por computador que parecem apresentação de Power Point. E, quem trabalha em qualquer empresa um pouco maior, sabe que, uma hora ou outra, apresentações de Power Point irão aparecer pelo caminho.

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