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Amazon e Apple correm pelo domínio dos livros eletrônicos

Amazon e Apple correm pelo domínio dos livros eletrônicos

Atualizado: Sexta-feira, 22 Janeiro de 2010 as 12

É um duelo formidável na tecnologia: Amazon.com versus Apple, pelos corações e mentes das editoras, escritores e leitores.

Os aparelhos e a loja de livros eletrônicos Kindle, da Amazon, agora dominam um mercado incipiente mas já próspero, e respondem por 70% das vendas de leitores eletrônicos e 80% das vendas de livros eletrônicos, de acordo com alguns analistas. Na quinta-feira, a empresa vai seguir o exemplo da Apple e anunciar que abrirá o Kindle a criadores externos de software.

O muito aguardado computador tablet da Apple, que deve ser anunciado na próxima quarta-feira e chegar ao mercado no segundo trimestre, seria um aparelho muito mais versátil (e caro), que oferecerá acesso a livros, jornais e outros materiais de leitura, por meio da popular App Store, parte da Apple iTunes.

As editoras, que se queixam do domínio da Apple e de sua insistência em vender os lançamentos por US$ 9,99, agora estão tentando jogar um gigante da tecnologia contra o outro.

No processo, podem estar simplesmente escapando das garras de um presidente-executivo tenaz, Jeff Bezos, da Amazon.com, para as de outro, Steve Jobs, cuja obstinação quanto a preços causou paroxismos de ansiedade semelhantes no setor de música.

"Os preços do Kindle vão derrotar o sex appeal da Apple? Será que não é essa a verdadeira questão?", disse Richard Charkin, diretor executivo da Bloomsbury Publishing, em Londres, que vem acompanhando com grande interesse os desdobramentos no mercado de livros eletrônicos. "Não faço a menor ideia. Tudo que posso dizer é que o momento é bom. Quanto mais gente vendendo livros, em formato digital ou qualquer outro, melhor". Agora, surgem manobras táticas das diversas forças envolvidas nesse mercado praticamente a cada dia, e ninguém sabe quanto tempo a disputa vai durar.

Em anúncio quinta-feira, a Amazon vai informar que permitirá que programadores criem o que chama de conteúdo ativo ¿ ou seja, aplicativos- para o Kindle, e que mantenham 70% dos proventos de venda, depois de descontados os custos de transmissão sem fio. A Amazon vai divulgar um conjunto de normas de programação que outras empresas ¿ entre as quais editoras de livros e periódicos - poderão usar para criar e vender aplicativos no Kindle.

Até que a empresa introduza modelos mais avançados do aparelho, os programadores estarão limitados por sua tela branco e preto e de operação lenta.

Ian Freed, vice-presidente da divisão Kindle, na Amazon, disse que esperava que os programadores criem ampla gama de aplicativos, entre os quais recursos como calculadoras, serviços de cotação de ações e videogames simples. Também prevê que as editoras possam começar a vender novas variedades de livros eletrônicos, como por exemplo guias de viagem abertos a buscas e guias de restaurantes, vinculados à localização do usuário do Kindle, bem como livros didáticos com testes interativos e romances que combinem texto e áudio.

"Sabemos desde os primeiros dias do Kindle que nem todas as invenções aconteceriam dentro da Amazon", disse Freed. "Queríamos abrir o processo a muitas pessoas criativas, de programadores a editoras e escritores, a fim de que criem o que bem desejarem".

A decisão pode representar uma alteração no relacionamento entre a Amazon e os jornais e revistas que produzem edições digitais para o Kindle. Muitos executivos nessas organizações expressaram insatisfação com sua parcela de 30% no valor das assinaturas digitais no Kindle, e pela falta de um relacionamento direto com os assinantes. Caso surja uma loja de aplicativos Kindle, as companhias de mídia poderiam vender aplicativos mais lucrativos, e apresentar notícias com atualização ao longo do dia.

A Amazon pode estar correndo para alterar as regras de sua plataforma Kindle tendo em vista o forte interesse que sem dúvida será despertado pelo tão aguardado tablet da Apple. Os aparelhos são fundamentalmente diferentes, é bom lembrar: a Amazon posicionou o Kindle como o instrumento essencial de leitura, com bateria de longa duração e tela que não desperta cansaço visual. Os analistas afirmam que para os compradores de um tablet Apple, executar vídeos ou videogames pode ser mais importante que a leitura.

Mas para as editoras de livros, o aparelho da Apple pode ser uma oportunidade dourada: a chance de contestar o controle da Amazon sobre o mercado de livros eletrônicos e de retomar alguma influência sobre questões sensíveis como os preços.

Representantes da Apple foram a Nova York esta semana para conversar com as grandes editoras, de acordo com executivos do setor. Eles disseram que a Apple havia proposto um arranjo sob o qual as editoras poderiam determinar os preços dos livros, com comissão de 30% para a Apple e o restante para as empresas. Steve Dowling, porta-voz da Apple, se recusou a comentar sobre o que definiu como "boatos e especulação".

A depender de a Apple estabelecer ou não um limite máximo de preço, esse modelo poderia ser muito mais atraente para as editoras, que não gostam dos descontos agressivos praticados pela Amazon nos preços de seus livros. A Amazon tipicamente vende versões eletrônicas de lançamentos e best sellers por US$ 9,99, e isso forçou outras fornecedoras de livros eletrônicos, como a Barnes & Noble, a acompanhá-la.

Embora a empresa pague às editoras um preço de atacado tipicamente equivalente a metade do valor de capa do livro, o que significa que sofre prejuízo na venda de livros eletrônicos, as editoras temem que a empresa tenha acostumado os compradores a preços insensatamente baixos. Eles afirmam que, se o Kindle mantiver sua posição dominante, isso poderia forçar as editoras a reduzir o preço de atacado dos livros.

A provável entrada da Apple e seu tablet no mercado de livros eletrônicos dá às editoras a esperança de algum poder adicional em sua batalha contra a Amazon. Eles poderiam, por exemplo, retardar o lançamento de títulos em versão Kindle, enquanto vendem versões mais caras para o tablet da Apple.

"Há uma batalha em curso quanto ao valor de um livro digital", disse um executivo editorial que não quis que seu nome fosse revelado devido à delicadeza das discussões com a Apple. "Nessa batalha, a Apple apresentou uma oferta que ajuda as editoras e, por extensão, os escritores". Algumas editoras advertem que os termos da Apple podem ser restritivos de outras maneiras, e que um modelo que parece bom teoricamente muitas vezes não se prova atraente na prática.

E a Amazon agiu para rebater os encantos da Apple. Na quarta-feira, anunciou a melhora dos royalties pagos a editoras e autores que publicassem títulos diretamente pelo Kindle ¿ em resumo convidando escritores e seus agentes a separar os direitos sobre livros eletrônicos dos direitos sobre material impresso, e distribuir os primeiros diretamente via Amazon.

Os novos termos oferecidos pela Amazon aos escritores e editores que vendam livros por menos US$ 9,99 incluem royalty de 70% sobre o preço de venda do livro (descontados os custos de transmissão digital, estimados em seis centavos de dólar por livro) - o que claramente ecoa a oferta da Apple. Mas as editoras podem esperar a chegada de mais um gigante da tecnologia ao mercado: o Google, que já mencionou seus planos de venda de livros eletrônicos.

"Quanto mais companhias controlarem as transações com os consumidores, mais importante será o papel das editoras", disse Mike Shatzkin, presidente-executivo da Idealog, que ajuda editoras a desenvolver estratégias digitais. "Caso a Apple entre nesse mercado, e dentro de três meses chegar a vez do Google, teremos um mundo muito diferente para os livros eletrônicos no ano que vem".

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