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Na Samsung, o que vale é chegar antes

Na Samsung, o que vale é chegar antes

Atualizado: Segunda-feira, 6 Dezembro de 2010 as 11:08

O lançamento do iPad da Apple, em janeiro deste ano, fez a Samsung repensar os projetos de leitores de livros digitais no Brasil. Diante do sucesso do equipamento criado pela empresa americana e da expectativa gerada para a chegada do modelo ao País, a companhia sul-coreana desistiu de lançar aqui os e-readers, vendidos nos Estados Unidos e na Coreia do Sul.

Em vez disso, saltou uma etapa e, em novembro, colocou nas lojas brasileiras seu próprio tablet, o Galaxy Tab, considerado até agora o único real concorrente do iPad. Enquanto a Samsung corria para lançar um produto à altura do iPad, a Apple demorou para se decidir e só lançou seu tablet aqui no Brasil na última sexta-feira.

A agilidade demonstrada na criação, no lançamento e na distribuição do Galaxy Tab no Brasil exemplifica bem a estratégia da Samsung para chegar à frente das concorrentes num segmento cujos produtos cada vez mais se tornam, pouco tempo após o lançamento, ultrapassados. "Chegar antes" tem sido o lema da empresa no mundo todo. Só no Brasil, já foram lançados este ano 124 produtos na área de eletrônicos de consumo. São quase três por semana. "No momento em que o consumidor pendura uma TV na parede, ela já está obsoleta", diz o vice-presidente da Divisão de Eletrônicos de Consumo da Samsung no Brasil, José Fuentes Molinero Jr.

A empresa vê como necessidade acelerar ao máximo a criação, a produção e a venda de eletroeletrônicos. "Nesse mercado, é muito importante mostrar o pioneirismo tecnológico. É uma demonstração inexorável da força e do tamanho do nosso investimento em pesquisa e desenvolvimento", acredita. Atualmente, a Samsung Eletronics investe de 8% a 9% do faturamento, que no ano passado foi de US$ 116,80 bilhões, em pesquisa e desenvolvimento de produtos.

"Essa estratégia é muito interessante do ponto de vista do consumidor. A Samsung tende a lançar produtos numa velocidade mais rápida do que a dos concorrentes, como a LG, que também é sul-coreana", relata o consultor de tecnologia da IT Data, Marcelo Locci.

Agressividade. Inovar numa velocidade superior à do mercado não depende apenas da manutenção de uma boa equipe de criação, mas também de uma "costura" eficiente do lançamento dos produtos com o varejo e as operadoras de celular, como explica Luís Minoru Shibata, diretor de consultoria da PromonLogicalis. "Nesse sentido, a Samsung também tem ido muito bem. Ela tem uma certa agressividade comercial que é comum às empresas sul-coreanas."

O ritmo acelerado com que a empresa trabalha pode ser notado de forma clara no mercado brasileiro. Diante do crescimento da economia, o País tem naturalmente despertado o interesse da companhia. Além do lançamento do Galaxy Tab, outro exemplo da importância que o País tem adquirido para a empresa pôde ser percebido com a TV 3D. O equipamento foi lançado em fevereiro deste ano na Coreia do Sul, levado aos EUA em março e em abril chegou ao País.

Da mesma forma, em março a Samsung começou a vender no Brasil sua linha de ar condicionado. Fez inicialmente um teste com equipamentos importados e, em poucos meses, o produto abocanhou 7% do mercado, fazendo a empresa a quinta maior do setor no País. Era a senha de que a Samsung precisava para iniciar a fabricação em território nacional, o que começou a ser feito em setembro, na nova unidade inaugurada em Manaus. "Investimentos massivos estão sendo feitos no País", diz Molinero Jr. "Trata-se de um mercado potencial bastante grande, há estabilidade da economia e um público consumidor ávido por tecnologia."

A nova unidade de Manaus é cinco vezes maior do que a anterior, ocupando mais de 100 mil metros quadrados. Por enquanto, apenas a produção de ar condicionado foi levada para lá. Durante as festas de fim de ano, todas as linhas da unidade antiga vão migrar para a nova. Lá também será iniciada, a partir de 2011, a fabricação de painéis de LED no País. A empresa, que reforçou a oferta de equipamentos de linha branca no Brasil este ano, tem planos também de começar a fabricar refrigeradores, fogões e lavadoras de roupa no País até 2012.

Tantos investimentos no País têm dado resultado. A empresa cresceu 50% no Brasil no primeiro semestre e deve crescer mais no segundo - no mercado, fala-se em até 80%. Atualmente, a Samsung lidera o mercado de televisores de LCD, LED e tocadores de blu-ray no País e ocupa o segundo posto no mercado de câmeras fotográficas e celulares.

Paradoxo. No que soa quase como um paradoxo, no entanto, a empresa não fala em diversificar sua linha para alcançar o público consumidor que mais cresce no Brasil, a classe C. Hoje a única exceção nesse sentido talvez sejam os celulares. "A especialidade da empresa é fabricar produtos de consumo refinados. Por isso existe esse questionamento se ela não vai lançar no Brasil produtos mais populares ou se vai continuar atuando nessa camada para a qual já atua", destaca Shibata, da PromonLogicalis.

A empresa também pode ser forçada a se reinventar mundialmente nos próximos anos por outros motivos. Hoje, a Samsung é um grande conglomerado que, além dos eletrônicos de consumo, fabrica também uma série de tecnologias-base: é a maior produtora mundial de displays de painéis planos (as telas finas, como as de LCD) e de memórias, destacando-se também no mercado de semi-condutores. "Essas tecnologias nos dão vantagem competitiva em vários segmentos: podemos produzir um tablet, uma TV, um monitor, um telefone, um smartphone", destaca Molinero Jr.

Na opinião de Shibata, uma tendência deve ser buscar a interligação dos produtos que fabrica. Ele cita o exemplo da Apple, que criou o iTunes - uma espécie de "ecossistema" em que o consumidor gerencia todos os produtos da marca. "A Samsung já falou em ter um sistema operacional próprio e acredito que ela pode também passar a investir em softwares e aplicativos. Ela provavelmente terá de passar a atuar numa outra camada, como Apple e Google", prevê Shibata.

Além disso, apesar de a Samsung ser reconhecida pelo design e por sua tecnologia de ponta, seus produtos ainda não são objetos de desejo ou definidores de uma categoria, como o leitor digital Kindle, da Amazon, e o iPhone, da própria Apple. Para esse desafio, não basta só ter pressa.    

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