90% das crianças que sofrem bullying não contam para os pais

90% das crianças que sofrem bullying não contam para os pais

Atualizado: Sexta-feira, 1 Abril de 2011 as 8:11

Esta semana, as imagens de uma briga num colégio australiano caíram na internet e rodaram o mundo. Um aluno cansou de ser provocado - e reagiu com violência.

Depois de apanhar muito, o jovem de 15 anos finalmente reage com um golpe assustador. O rapaz que parece ter começado as agressões, chamado Richard, se defendeu na TV australiana. Disse que, antes da cena que foi parar na internet, ele tinha levado um soco.

Já o garoto que revidou virou herói na escola. E contou que vivia sendo agredido e chamado de gordo. "Eu estava totalmente sozinho. Eu era um alvo fácil", disse Casey.

Foi um caso típico de Bullying: agressões físicas e morais comuns nas escolas. E, normalmente, mantidas em segredo.

A história que o rapper Emicida guardou por mais de 15 anos começa sem palavras, com uma cena apavorante numa escola de São Paulo. Meninos maiores, zoando, debochando. E depois batendo no magrinho tímido, de nove anos, que não tinha dinheiro para andar na moda.

"Os caras me zoavam porque eu não tinha um tênis. Os caras me zoavam por causa do meu cabelo", conta Emicida.

Quando atravessou os portões para sair da escola, o ataque ficou ainda mais violento.

"Aí, os cara pegaram, vieram me batendo, me batendo. Aí os cara me cataram e me jogaram", diz Emicida.

Os agressores foram suspensos pela direção. Mas foi a vítima que desapareceu. "Eu parei de vir na escola a partir de então", lembra o rapper.

Emicida confessa que pensava em vingança. "Eu tive vontade de matar os caras. Não sei, acho que não tive oportunidade, graças a Deus não tive", diz Emicida.

Criamos um espaço para as pessoas contarem suas histórias de bullying, e avisamos pela internet. Em apenas dois dias, foram quase cem telefonemas. Alguns exemplos:

"Era um grupo de meninas que não me batiam, não me perseguiam, mas me humilhavam. Eu estou estudando em casa porque eu não tenho condições de ir para o colégio. Eu tomei um monte de comprimidos".

"Sempre me chamaram de veado, bicha, gay. Você acaba se sentindo mal, acha que ninguém é seu amigo".

"Eu era chamado de dentuço, de robocop. Para mim, escola era o terror".

"Eu era gordinha. Para eu não apanhar das minhas colegas, eu dava caneta, dava lápis de cor".

"Já teve caso de meninas da turma saírem da fila que a gente formava pra ir medir a minha perna, pra ver se a minha perna era muito fina. E ficavam com fita métrica, essas coisas, entendeu?"

"Não tenho nenhuma amizade do colégio. Pelo contrário, são pessoas que eu tenho um profundo desprezo até hoje"

Em meio a tantos casos de vítimas, apareceu também a surpreendente história de um agressor:

"Ninguém, acho, que praticou o bullying que nem eu. Hoje, com 47 anos, eu olho isso aí e me envergonho de tanto bullying que eu fiz, cara. Poxa, se eu tivesse a oportunidade de pedir desculpa para essa gente aí".

Mas por que, afinal, é tão difícil detectar e combater esse problema que acontece com muita frequência? Para discutir o bullying, reunimos em uma sala de aula em uma escola na Zona Sul de São Paulo pais, alguns deles professores, o diretor da escola e a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva.

"Bullying é toda violência que ocorre em território escolar, e para ser bullying tem que ser intencional, ela tem que ser repetitiva, no mínimo três vezes, e a pessoa que sofre, a vítima, ela tem que estar sempre em uma situação desfavorável para fazer frente a essa agressão. E as agressões são difíceis de detectar. E 90% das crianças que sofrem bullying não falam para os pais", aponta Ana Beatriz.

Os pais demonstram total confiança no diálogo com os filhos. Mas os sinais nem sempre são claros.

"As crianças que sofrem bullying em geral são isoladas no recreio, elas não participam das brincadeiras, elas não participam dos passeios", diz a psiquiatra.

Durante o bate-papo, uma surpresa. "Me chamavam de vampira", diz uma mãe.

Dois pais revelaram que foram perseguidos e nunca disseram nada para a família. "Doía muito, e é um fantasma. Fica gravado em você. Fica como se fosse uma tatuagem", diz um pai.

Às vezes, as vítimas resolvem dar o troco. Em 2007, nos Estados Unidos, o coreano Cho Seung-Hui matou 32 pessoas na universidade e se matou. Sofria bullying por causa de uma enorme dificuldade para falar.

E veja só quantas vítimas entre os famosos. O "gordo" da escola virou o bilionário Bill Gates. Quem era mesmo a girafa? Gisele Bundchen.

Como os pais normalmente demoram a perceber que os filhos são vítimas de bullying, o problema acaba aumentando e, muitas vezes, as marcas ficam para a vida inteira. Pela primeira vez em mais de 15 anos, o rapper Emicida voltou à escola onde tudo aconteceu.

"É um sentimento de solidão quando eu olho. Sentava na escada, sentava na quadra", diz Emicida.

O rapper foi direto para o fundo da quadra. Enquanto a garotada jogava, ele se distraía desenhando. Até mudar de escola, viveu três anos de solidão.

"Sentar aqui, olhar, ver essa molecada brincando me lembra exatamente de estar aqui nesse lugar com a minha mochila no chão, com lápis aqui, e eu desenhando uma coisa qualquer. Mas desenhando com vontade de estar jogando, de estar rindo", lembra Emicida.

Quem diria que o magrinho de sandálias seria um rapper famoso, convidado para tocar nos Estados Unidos e no Rock in Rio?

Repórter: deixa eu te fazer uma proposta aqui: volta lá no campo e faz o que você provavelmente gostaria de ter feito naquela época.

"Estou mostrando como trabalha um verdadeiro MC junto com as crianças que é o brilho amigo, é a pura esperança", canta o rapper.

Depois de ser aplaudido no palco de suas maiores tormentas e de reencontrar a inspetora dos tempos da escola, o rapper Emicida saiu com uma rara sensação de alívio.

"Acho que foi importante. Eu tinha essa parada guardada em mim", acredita Emicida.

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