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A fisiologia do amor que se vai

A fisiologia do amor que se vai

Fonte: Atualizado: sábado, 31 de maio de 2014 09:17

Por que nos dói tanto a perda de um amor?

Antes de explicar vou tentar esboçar o que acho que acontece quando amamos.

A necessidade básica de ter os desejos atendidos nos compele a buscar ampla satisfação dessas necessidades criando um embate entre desejo versus realidade (que sacia ou frustra).

Nessa tensão constante (inconsciente) que se configura a angústia básica de ser humano.

Nosso inconsciente poderia ser visto como algo caótico e sem direção e por isso precisa da cognição para criar símbolos psíquicos que organizem e deem sentido às experiências cotidianas. O sentido da vida não existe à priori, mas é construído momento a momento.

O amor por uma pessoa, portanto, é uma das formas que encontramos de canalizar nossas energias mentais para um pólo organizador que ajuda a estruturar nosso desejo caótico numa configuração mais ou menos suportável.

É como se a pessoa amada me ajudasse a espelhar parte daquilo que sou pra mim mesmo, através dela eu me reconheço. Por exemplo, quando você sente vontade de convidar a pessoa para um passeio, você precisa alinhar seus impulsos internos nessa direção e aquele vazio psíquico dá lugar à uma sensação de objetivo desejo-passeio-pessoa-amada-eu-que-passeio-satisfeito. Aquele passeio-memória fica associado com aquela pessoa que vira uma pessoa-passeio-feliz. Chamamos isso de sintonia amorosa “nossa, eu sinto que te conheço há muito tempo!”

Na verdade na medida em que percebo o outro também me revelo a mim mesmo e é como se fundo e forma se tornassem uma única coisa sem distinção.  Deixo de ser eu e passo a ser eu-e-o-outro.

Com o passar do tempo a pessoa amada vai ganhando cada vez mais corpo no meu inconsciente e eu também vou ganhando forma para mim diante desse outro amado. Ou seja, na medida que essa pessoa nasce pra mim eu também nasço pra mim.

Na medida que crio sou criado juntamente. O amor se dá mais ou menos assim… Não sei se soa muito romântico, mas a coisa acontece por aí. É um espelho que reforça o outro espelho.

A dor de amor surge da perda brusca da pessoa amada pela morte (luto), perda do amor (abandono) ou quando perco a imagem ideal de mim mesmo (humilhação).

É como se de um momento para o outro eu perdesse a forma que me dá forma e organiza meus desejos e satisfação. É como se um membro do meu corpo fosse mutilado e eu ainda permanecesse sentindo sua presença ali.

Essa é a sensação de buraco no peito que sentimos quando uma pessoa amada se vai. Nosso caos psíquico é exposto em carne viva. E é exatamente para suprir esse buraco que nossa mente cria uma proteção que ajude a configurar nossos desejos de forma mais ou menos coerente, mesmo sem a presença da pessoa amada. Quando a pessoa morre a sensação de irrealidade é tão absurda que mantemos por um tempo a impressão de que ela voltará a qualquer momento e todo o sonho ruim desaparecerá.

Me lembro que meu pai quando estava chegando em casa sempre balançava o seu molho de chaves do carro e de casa. Quando ele faleceu aos meus 18 anos, vez ou outra quando ouvia algum barulho de chaves de qualquer vizinho, instintivamente eu me postava de tal forma como se meu pai fosse entrar em casa. Como se um pequeno delírio momentâneo se apoderasse de mim, mas que logo era desfeito pela realidade dura de que ele jamais entraria por aquela porta. De que sua risada, seu pigarrear específico (minha mãe diz que pigarreio da mesma forma que ele) e forma afetuosa de me abraçar NUNCA mais existiria para mim. A mente cria uma pequena sutura para suportar uma realidade terrível.

Quando uma pessoa nos deixa essa mesma sensação de abandono precisa ser suprida em forma de hipervalorização. O vazio deixado é preenchido por um gigante psicológico que oscila entre só coisas boas ou só coisas ruins. “Não vivo sem ele” (idealização) oscila com “desgraçado que morra!” (raiva depreciadora), todas elas são formas defensivas de dar um formato para o lugar que antes era ocupado pela pessoa real (que organizava nossos impulsos caóticos). Maximizamos a pessoa amada que se foi para suportar a ausência de nós mesmos em função do outro. Preciso me apegar à uma imagem do outro (ainda que irreal) para poder dar configuração a mim mesmo. A dor de amor é uma defesa para que nossa mente não se rompa numa loucura sem sentido (que é a partida súbita da pessoa amada, justificada ou não).

Enquanto há dor de amor, há sinal de vida, de que nossa mente está se reconfigurando e se reposicionando para direcionar seus impulsos caóticos numa outra direção. É uma forma de manter viva a imagem mental do desaparecido, e também a própria imagem interna.

Portanto, é preciso suportar um trabalho de luto considerável em nosso interior para que o amor fraturado decante nos devolva ao caos inicial que vá em busca de uma nova configuração em torno de outra pessoa amada.

Fácil? Simples? Prazeroso? Claro que não…

Pois é extremamente penoso ouvir uma música, ir à um lugar, ouvir pelo nome, sentir um toque sem associar imediatamente à pessoa amada que já não mais existe de fato ao nosso lado. Mas nessa dor que decanta lentamente que se revela suavemente uma outra faceta de minha própria identidade, agora transfigurada.

Muito complicado?

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