A poesia que Cristo nunca escreveu

A poesia que Cristo nunca escreveu

Atualizado: Segunda-feira, 19 Setembro de 2011 as 1:16

Houve um tempo em que os poetas deram a felicidade por perdida, e a trataram como uma genuína fantasia que atravessaria décadas. Fernando Antônio Nogueira Pessoa foi um dos que revelou em seus livros, que até mesmo a dor que se sente não passava de um fingimento, e que, em outro tempo, ser feliz exigia valentia.

Recentemente fui à uma exposição que aconteceu num centro cultural de minha cidade. Denominada "Fernando Pessoa, plural como o Universo", a belíssima mostra retratava a multiplicidade da vida e da obra do escritor português, que não me convenceu, dentre tantos encantos e sentimentalidades, de que seu afeto pela felicidade havia muito tempo estava corrompido. Saí de lá na companhia de alguns amigos e pensei: "Acho que Fernando Pessoa nunca foi feliz".

Nunca é muito tempo, mas o poeta versa com qualquer sentimento. Ele ama e sofre na mesma estrofe e intensidade com que desama e é desventurado. Tem uma indiscutível capacidade de nos fazer acreditar em seus opostos. Não se sabe a constância do que ele sente. Seus versos estão sempre ao inverso.

Na mostra, andei entre corredores que expressavam as mais íntimas e profundas declarações do homem considerado um enigma, que traduziu toda a sua crise com a verdade e a existência, mostrando através da poesia que o seu contentamento com a vida dependia completamente da sua inclinação para imaginar: “Viver não é necessário. O que é necessário é criar.”

Pensando em felicidade, cresci num bairro pequeno de vizinhos quietos. Todos os dias, quando criança, saía às ruas para brincar com os filhos desses vizinhos quietos. Nós ríamos uns dos outros e ao tardar o dia, cada um voltava para suas casas. Eu sabia que nem todos iriam encontrar em seus lares o que gostariam. Mas nas horas em que estávamos juntos, isso era o que menos importava. O essencial para nosso grupo de meninos descalços, era o tempo onde iríamos compartilhar e celebrar essa verdade e existência, coisas que na época, não era difícil para nós. As crianças são os mais sinceros e felizes de todos os seres humanos. Ainda que vivam em circunstâncias desfavoráveis, fazem questão de nos ensinar a olhar além do que nossos olhos podem alcançar. Quando Cristo estava perto dos pequeninos, não usava outro exemplo mais puro e sublime do que seus corações. Ele tinha prazer no louvor deles e na fiel expressão da alegria que contagiava a todos, ainda que fosse diante do medo e insegurança. A criança sabe considerar como a vida é preciosa. Elas são, sim, a melhor poesia de Cristo.

Diferente de Fernando Pessoa, Jesus não escreveu uma poesia repleta de incertezas e hesitações. Não precisou de heterônimos para ajudá-lo a se manifestar e dizer coisas de amor. De um amor tão instável e tão cheio de covardia. Na poesia de Cristo não existiu fraqueza. Não existiu mistérios e nem fingimentos. Ele justificou através da vida de pessoas tão pequenas, que ainda que estivesse chutando mesas e cadeiras, ainda que o povo se sentisse atraído a padecer em tristeza, ódio e decepções, era o perfeito louvor que saía da boca das criancinhas que iria cativar corações ao seu completo cuidado.

Numa das salas da exposição, havia uma mesa com dezenas de seus livros. Eram as mais diversas capas e traduções. Enquanto sentada, olhava ao meu redor. Percebi que alguns ali liam cada linha com deveras cortesia e delicadeza. Escritores, estudantes, admiradores e curiosos foram contemplados pela grandeza de um dos maiores poetas que já existiu. Pelo absurdo de tamanha harmonia entre as palavras e a sua triste história que a mim deixou evidente as aflições de um homem sofredor, iludidas pelas alegrias de alguém apaixonado pelo que fazia. Otávio Paz, um poeta mexicano, vem dizer que na vida de Fernando “Nada é surpreendente. Nada, exceto os seus poemas”. Eu digo que na vida de Cristo, tudo é surpreendente. Inclusive os seus poemas. Exceto o que ele nunca escreveu.

Por Aline Moreira - missionária da Jocum

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