A síndrome do 'namoro grude'

A síndrome do 'namoro grude'

Atualizado: Terça-feira, 7 Junho de 2011 as 10:03

Eles namoram, estão apaixonados, não poupam declarações e vivem num grude só. E aí, isso é normal ou os 'pombinhos' estão exagerando?

Bilhetinhos, cartas, telefonemas, presentes, e-mails, sms [mensagens no celular], recados nas redes sociais, enfim, tudo isso é válido na hora de demonstrar seu amor e carinho pela pessoa amada, mas tudo tem limite.

Calma! Não estamos contra o romantismo, mas o exagero na comunicação durante o namoro pode não ser tão benéfico assim.

A psicóloga Lia Honório, que realiza palestras sobre comportamento e relacionamento jovem, falou, em entrevista ao GUIA-ME, sobre alguns riscos que os namorados correm ao apresentarem sintomas do grude.

"O casal grude sofre muitos riscos. O maior deles é a decepção. Geralmente quem desenvolve um relacionamento muito dependente coloca no outro uma carga excessiva de expectativas e a verdade é que não podemos responsabilizar o outro pela nossa felicidade. É uma grande ilusão achar que o outro vai manter sempre esse sentimento intenso da paixão que estamos sentindo. Com o passar do tempo, e o esfriamento natural da paixão, as frustrações se tornam muito grandes, pois nenhum deles consegue reproduzir o que sentiam inicialmente, os sentimentos precisam ser trabalhados para amadurecer, tornando-se amor", explica Lia.

Os relacionamentos podem variar muito de um para o outro, a começar pelo perfil dos rapazes e moças: uns são mais tranqüilos, enquanto outros têm tendência ao grude, normal. Além disso, a rotina dos dois também interfere. O trabalho, a faculdade, a família, a igreja, e outras obrigações ditam o tempo que pode ser dedicado ao namoro.

Em uma pesquisa informal, o GUIA-ME, descobriu que alguns casais só conseguem se ver aos finais de semana, enquanto boa parte dá um jeitinho e se vê até pelo menos quatro vezes semanais.

Outro dado da pesquisa é referente ao contato do casal enquanto não estão juntos, ou seja, ligações e sms durante o dia. Duas ligações por dia foi a média das respostas, sendo que a quantidade de sms pode variar muito.

Namoro por mensagens no celular

Por falar nos sms, o GUIA-ME conversou com Ismael Machado da Silva Júnior, um jovem de 24 anos que namora há um ano e cinco meses e vive um relacionamento baseado em contato o dia todo.

Júnior, como ele é chamado, contou que no começo do namoro ele e a namorada se viam quatro vezes por semana e ocupavam todo o final de semana juntos, mas que agora se vêem basicamente apenas aos finais de semana.

Sem rodeios perguntei quantas vezes ele e Cinthia [a namorada] se falam por dia em ligações e sms. A resposta? "Ah, muitas e muitas. Mandamos uns 800 torpedos sms por mês, cada um. Benditas sejam as promoções da operadora! Ligações mesmo, só na hora do almoço, à noite - no intervalo da facul, e antes de dormir", disse ele.

800 sms por mês são quase 27 sms por dia, contando 30 dias no mês. E detalhe: cada um.

Júnior explicou que no caso deles o excesso de contato não atrapalha e nem é prejudicial ao relacionamento. "Pelo contrário. Acredito que muito da nossa amizade e confiança vem justamente desse contato 'excessivo'. Quando ficamos sem nos falar, brigamos e geralmente por motivos bobos".

Lia Honório cita a grande quantidade de meios de comunicação para alertar sobre os limites do namoro.

"Um sério agravante dessa geração é a tecnologia, que permite que você fale com qualquer pessoa em qualquer lugar, em tempo real. Isso nos traz grandes benefícios, mas dificulta a imposição de limites na relação. É importante que o casal tenha em mente que existem muitos outros papéis além de namorado que temos a desempenhar como o de filho, amigo, aluno, primo, neto, vizinho, enfim, existem muitas outras pessoas e atividades que também requerem nossa participação e investimento".

"Apesar de o namoro parecer o mais gratificante de todos, não pode se tornar prioridade máxima na vida de um jovem (...) Não há uma regra exata de vezes indicadas para o casal se falar, o segredo é o equilíbrio e o fato de que esse contato não atrapalhe as outras responsabilidades", diz a psicóloga.

O tempo de namoro faz diferença?

Namoro novo é sempre cheio de paixão e empolgação, e, às vezes, dá a impressão de que o passar do tempo do faz os apaixonados cansarem de demonstrar tanto carinho, mas isso é verdade ou não?

"Cientificamente, a paixão dura em média dois anos. Portanto, é comum que nos primeiros meses haja um deslumbramento maior, que aos poucos, vai se tornando menos ilusório e mais real. Mas não há como afirmar que existe uma regra para o tanto que conversam em X tempo de namoro", explica Lia.

A 'teoria' é comprovada por Júnior. "A Cinthia e eu somos prova disso, no começo eu brincava que ela era meu 'Twitter particular', eu contava tudo pra ela e ela acabou absorvendo esse comportamento também. Hoje ainda somos 'grudados', mas acho que isso acalmou um pouco", relata o jovem.

Ter alguém para dividir e compartilhar as coisas boas da vida, e até as não tão boas assim, é legal, mas cuidado para não agir de forma que faça o relacionamento perder a graça.

"É importante que os casais de namorados não fiquem trocando tantas satisfações e informações ao longo do dia e reservem momentos oportunos pra se encontrarem, contarem as novidades e compartilharem a vida", alerta a psicóloga.

Para fechar, Lia deixa um conselho a todos os 'pombinhos apaixonados': "Para se namorar não é preciso parar o mundo e seu dia tem muitas horas pra você distribuir com sabedoria! Se você tiver muita dificuldade em ficar um tempo mínimo sem conversar com seu namorado, talvez seja tempo de ser sincero com você mesmo e assumir que você está "viciado" nele ou nela. E cá entre nós, nenhum vício pode ser saudável!"

Por Juliana Simioni

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