A vida de jovens refugiados no Brasil

A vida de jovens refugiados no Brasil

Atualizado: Terça-feira, 9 Agosto de 2011 as 9:19

Em um lugar de paisagens paradisíacas que facilmente poderiam ser cenário de férias cinematográficas, o pai e a mãe da adolescente C., então com 17 anos, foram mortos. Ela não revela o motivo, nem como aconteceu, e responde com agressividade quando questionada sobre o assunto, mas sabe-se que a República Democrática do Congo, país de origem da jovem, tem conflitos políticos e étnicos entre os povos hutus e tutsis e já foi palco, entre 1998 e 2003, do que ficou conhecido como Primeira Guerra Mundial Africana.

É uma realidade dura para quem vive e tem família no país, e se tornou insuportável para a jovem órfã, que há sete meses, e sem ninguém para acompanhá-la ou orientá-la, entrou em um barco de rumo desconhecido e, depois de uma longa viagem, chegou a um porto. Lá, encontrou um homem que falava francês e descobriu estar em Santos, cidade litorânea do estado de São Paulo. "Ele me ajudou a pegar um ônibus e chegar aqui", conta.

A jovem congolesa se refere ao Projeto Centro de Acolhida para Refugiados ACNUR Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, que recebe os refugiados que chegam a São Paulo. A ACNUR, Agência da Organização das Nações Unidas para refugiados, trabalha em parceria com a rede da Igreja Católica que atua na defesa dos direitos humanos, e provê assistência àqueles que fogem do país de origem para, de acordo com a instituição, sobreviver a perseguições relacionadas a "raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opinião política", ou a "conflitos armados, violência generalizada e violação massiva dos direitos humanos".

Jardim de todos estrangeiros

Essas pessoas, que chegam ao Brasil até mesmo em embarcações marítimas clandestinas, são encaminhadas ao projeto sediado em um antigo palacete nas redondezas da Praça da Sé, em São Paulo, para receber orientação jurídica e assistência social. E a quantidade de pessoas que deixam para trás a casa, os amigos e às vezes a família para buscar abrigo no Brasil não é pouca. Só a Cáritas tem 2018 refugiados registrados, e 290 pessoas solicitaram refúgio em 2010.

No Brasil há sete meses, C. ainda é uma solicitante de refúgio, mas já mora em uma casa de mulheres refugiadas, está aprendendo português e vai começar um curso de cabeleireiro. Ela é uma das poucas que aceita, mesmo que com ressalvas, expor a própria história. "Já fiz amizade com as pessoas que moram comigo e penso em, mais para frente, fazer um curso de hotelaria", diz.

Em uma idade em que encontrar um grupo para pertencer é uma parte importante da composição da própria personalidade, deixar para trás os amigos, vizinhos e aquilo que, na adolescência, forma a referência de quem você é pode ser doloroso. Mas, por outro lado, demonstra coragem. "Deixar um lugar em que o jovem não tinha estrutura nenhuma provavelmente vai trazer mais ganhos do que perdas. Qual seria o prejuízo? O pior já passou", diz o psiccoterapeuta Fernando Elias José.

Essa realidade, no entanto, não é exclusividade da população congolesa. Entre aqueles que solicitaram refúgio em 2010, quase metade veio do continente africano, mas 30,9% são da América Latina e precisaram deixar a Colômbia, Cuba ou o Haiti.

É o caso das irmãs colombianas Anamaria e C'Ayu, de 24 e 13 anos, respectivamente, que estão no Brasil há nove anos. Anamaria chegou aos 15, em uma mudança que levou quase um ano. "Minha mãe veio ao Brasil para visitar minha tia, que era casada com um brasileiro", conta Anamaria. "A situação na Colômbia estava tensa e minha tia pagou a passagem dela de presente de Natal. A coisa foi ficando cada vez pior, e aí meu pai falou pra gente: ‘sua mãe não vai voltar e a gente vai pra lá'. Pensei que fosse piada", recorda.

Impossibilitada de fazer uma viagem tão grande, a família precisou mudar para o Brasil aos poucos. "A gente não tinha como comprar passagem para todo mundo de uma vez. Minha mãe fez rifa, falou com amigas da minha tia e juntou dinheiro pra comprar aos poucos", conta Anamaria. "Ela veio em novembro, meu pai avisou em janeiro que ela não voltaria, eu cheguei em junho. Meu pai, o último a chegar, veio só em outubro", afirma.

Apesar da tensão que a família sofreu por não poder mudar de uma vez para o Brasil, e mesmo com as ameaças sofridas pelo pai das meninas, este pode ser considerado um caso de sorte. De acordo com a ACNUR, são poucos os casos de famílias que vêm reunidas ao país - a maioria dos refugiados chega ao Brasil sem conhecer qualquer pessoa que possa lhe prestar assistência.

Na época da mudança, a família de pai, mãe e quatro filhas vivia em uma pequena cidade interiorana em um ponto estratégico da Colômbia. "Era bem no corredor, em um território muito disputado pelas FARC e pelos paramilitares, então eles estavam sempre em conflito", explica Anamaria. "Três vezes a cidade foi tomada pelas FARC, mas pacificamente. Eles ficavam o dia inteiro na rua, assaltavam o banco, mas não atacavam a população", recorda.

Segundo ela, a população local vivia com medo, mas até então não corria maiores riscos. No entanto, o pai de Anamaria e C'Ayu trabalhava para os bombeiros e a Cruz Vermelha e, por isso, começou a receber ameaças. "Meu pai não falava nada, acho que para proteger a gente. Eu sei que íamos para uma cidade, ficávamos lá uns dias, depois íamos para outra, mas ele nunca falou o motivo. Só muitos anos depois, quando a gente já estava no Brasil", conta a irmã mais velha.

Adaptação

Para Anamaria, sair de uma pequena cidade colombiana para viver em São Paulo foi uma mudança drástica. "Pra mim, aos 15 anos, foi um choque bem grande. Saí de uma cidade que não tinha nada para fazer e cada um ficava na sua casa, e de repente eu estava morando em São Paulo, no meio de um monte de shows de graça", diz Anamaria. "O mundo se abriu", comenta.

Sem dificuldade para fazer amigos, Anamaria começou a namorar no colégio um brasileiro com quem hoje divide um apartamento pago com o salário de professora de espanhol. Ela passou a freqüentar peças de teatro, shows, museus e chegou a fazer um moicano e virar punk, e hoje se sente integrada à sociedade.

Já com C'Ayu, irmã caçula de Anamaria que chegou aos 4 anos, a adaptação foi um pouco diferente. "Sempre achei a escola um saco porque me tratam diferente. E as coisas que meus pais me ensinaram em casa sobre pedir desculpas e compartilhar eram muito diferentes na escola", conta a jovem, que chegou ao Brasil e foi matriculada em uma escola particular, à qual não se adaptou. Mudou, então, para um colégio público, e a contragosto teve de voltar para o ensino privado.

C'Ayu diz haver diferença entre os alunos das escolas públicas e particulares brasileiras, e foi na primeira que se sentiu mais respeitada. "Eu penso muito diferente dos alunos da particular. Elas vêem o mundo de outra forma. Não pensam nos outros, não compartilham, e se algo não faz bem pra eles, só pros outros, não querem fazer", critica ela, que gosta de ler "O Capital", do sociólogo Karl Marx, e diz o que pensa em manifestações contra o aumento das tarifas do transporte público e na Marcha da Liberdade.

Sentir-se tratado como alguém diferente e "de fora" parece ser o que mais prejudica um jovem refugiado que tenta se adaptar à nova vida. C'Ayu não revela a todos os colegas de classe o motivo que fez a família mudar da Colômbia para o Brasil, e Anamaria, que está se formando em Geografia, diz saber que outras pessoas em situações piores precisam de ajuda, mas que é difícil ter de resgatar o passado a todo momento. "É algo que você tenta negar, porque você tem sua vida aqui, estuda, e não quer carregar aquele peso de ser diferente", explica.

E na adolescência, o impacto de "ser diferente" é ainda maior. "Nessa idade, as pessoas precisam pertencer a um grupo. Então, uma exclusão já é negativa para jovens em condições normais, e para refugiados acaba se tornando mais um problema, além daquele que ele já está enfrentando", diz Fernando José.

Para as irmãs colombianas, ter de abandonar casa e amigos sem se despedir e não poder retomar o contato já foi duro o suficiente, e reconstruir a vida em um lugar completamente diferente com tão pouca idade foi uma etapa difícil, mas superada. "Moro com meu namorado, estou terminando a faculdade agora, estou trabalhando e tenho planos até de estudar em outro país. Minha vida hoje está completa", diz Anamaria. "Não quero ficar lembrando [do passado], é uma coisa que machuca, que dói".

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