Ampliação e reestruturação no ensino superior

Ampliação e reestruturação no ensino superior

Atualizado: Terça-feira, 1 Março de 2011 as 10:33

O cenário detectado pelo recém-divulgado Censo da Educação Superior, que registrou 2,5% de aumento das matrículas entre 2008 e 2009, parece ter ficado para trás. 2011 começou com projetos de expansão tanto de instituições de médio e pequeno porte quanto dos grandes grupos educacionais, que anunciaram a retomada das fusões e aquisições. Mas o que parece ser mesmo a nova tendência do ensino superior brasileiro é uma boa notícia para todos: a gestão focada em resultados e a preocupação com a qualidade.

A base do otimismo e do anúncio de investimentos está na expectativa por um aquecimento econômico que deverá provocar aumento da demanda. Entretanto, pelas deficiências já conhecidas do setor, como a dificuldade de ampliação de crédito estudantil, não há esperança num crescimento arrebatador. Por isso, as instituições de ensino focam a eficiência para atrair novos alunos.

Enade ganha força

Como a oferta de crédito não tem mais o mesmo impacto na atração de novos alunos, uma forma de criar atrativo e se diferenciar dos concorrentes é apresentar bons resultados, acredita o diretor de desenvolvimento do Grupo Cruzeiro do Sul Educacional (Unicsul), Fábio Figueiredo.

As melhores escolas, na sua avaliação, serão aquelas com notas mais elevadas no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) e com melhor desempenho nos indicadores de qualidade, como Conceito Preliminar de Cursos e no Índice Geral de Cursos do MEC.

"Antes o diferencial era a estrutura física das escolas, que agora, mais equipadas até do que as públicas, vão buscar a diferenciação nesses indicadores", observa.

Dentro dessa estratégia, a Unicsul anunciou para 2011 investimentos da ordem de R$ 10 milhões direcionados em especial para a unidade localizada em Brasília. A instituição introduzirá mudanças no portfólio acadêmico com o lançamento de novos cursos na área da saúde. No primeiro semestre, passará a oferecer enfermagem, educação física e farmácia. No segundo, deverá lançar odontologia, psicologia e fisioterapia, entre outros também na área da saúde. Para meados do ano, está prevista ainda uma expansão física.

Já a FGV investe tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo.  A instituição vai aplicar R$ 140 milhões para expandir seu complexo educacional na Praia de Botafogo. Serão erguidos no terreno de oito mil metros quadrados da Fundação um novo prédio e um centro cultural, que integrarão as duas esplanadas - o prédio existente e o novo. As obras devem ser entregues em 2012. O conjunto arquitetônico foi idealizado pelo arquiteto Oscar Niemeyer há mais de 50 anos e vai suprir a necessidade da Fundação por mais espaço para novos cursos e áreas de pesquisa. Ainda neste ano, a FGV abre cinco novos cursos na unidade carioca. Em São Paulo, a estratégia é criar mais dois  laboratórios e um novo curso.

Na opinião do consultor educacional Carlos Monteiro, a tendência é realmente expandir com foco na qualidade. "O modelo de expansão de ensino superior está esgotado. Houve um crescimento desenfreado, aumento do número de instituições e de matrículas e hoje as universidades seguem um estilo de crescimento mais preocupado com a qualidade", diz o diretor-presidente da CM Consultoria de Administração e Marketing.

Para ele, a tendência é que as instituições adaptem suas gestões a um sistema calcado em resultados, o que implica mudanças internas. Uma delas, por exemplo, é adequar a administração às regulamentações do Ministério da Educação. "Como consequência haverá mais investimentos em laboratórios e bibliotecas", cita o consultor.

Ficar no topo

Universidades com significativo aumento do número de matrículas em 2011 também se baseiam nos indicadores de qualidade na hora de definir os investimentos. Esse é o caso da Veris Faculdades, que registrou 30% mais inscritos em seu processo seletivo neste ano do que em igual período do ano passado. A Veris adotou como base, por exemplo, as notas do Enade para aperfeiçoar ainda mais o curso de educação física avaliado com nota 5, a mais alta da região metropolitana de Campinas, segundo o diretor-executivo, Moacyr Rebello Horta Neto.

Manter esse conceito máximo é a meta da instituição. Para isso, o curso será remodelado com a ampliação do laboratório do movimento humano utilizado para as aulas práticas. A iniciativa vai permitir o estudo de diversas atividades físicas, além de integrar aulas de dança. Num espaço maior, o laboratório contará com aparelhos adequados para a modalidade.

Para atender às novas demandas e adotar medidas de melhorias, a instituição vai investir um total de R$ 17 milhões, dos quais R$ 13 milhões destinados à construção de um prédio anexo à unidade Central localizada em Campinas. A Veris deverá ocupar três andares do novo prédio, onde serão instaladas salas de aula, um auditório para mais de 300 pessoas e uma área de convivência.

Além disso, os campi de São Paulo, Campinas, Sorocaba e São José dos Campos vão receber R$ 1 milhão cada para aquisição de projetores, carteiras, móveis, equipamentos e livros para a biblioteca. "Tudo isso é investimento em tecnologia e benfeitoria", destaca Neto.

Outra preocupação do setor privado, observado por Monteiro entre os investimentos anunciados, é a fidelização dos clientes e a consolidação da marca. Muitas instituições têm feito isso por meio da educação continuada, o que pode levar alunos da graduação para outros cursos, impulsionando os programas de pós-graduação, mestrado e doutorado. "Se o aluno tem afinidade com a educação oferecida pela instituição, fará novos cursos", afirma.

Além do superior

Essa tendência, segundo o consultor, pode explicar investimentos de instituições como a Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) nas regiões de Ribeirão Preto e São José dos Campos, onde há seis anos são oferecidas pós-graduação e extensão. A instituição investiu R$ 8 milhões na construção de mais uma escola de ensino médio e pré-vestibular em Ribeirão Preto. No próximo ano, construirá um colégio nos mesmos moldes em São José dos Campos.

A iniciativa, segundo Monteiro, segue outra tendência, que é o posicionamento estratégico das instituições com uma definição clara dos públicos almejados.

"O mercado está exigindo que as instituições definam seu posicionamento estratégico, informem qual público querem atingir e qual não podem atender", analisa. "Criar uma identidade própria é o grande desafio porque é preciso fazer escolhas e renúncias."

A decisão da direção da Faap de construir um colégio em Ribeirão Preto foi tomada a partir da constatação de que a região concentra grande parcela de estudantes de ensino médio interessada em uma escola diferenciada, com menor número de alunos em sala de aula, preo­cupada com os grandes vestibulares e com perfil humanista, revela o professor Victor Mirshawka, diretor cultural da Faap.

Equipado com rede wireless, e com acesso a plataforma blackboard, biblioteca virtual e comunicação direta com os alunos via SMS, o novo Colégio Faap mantém salas com lousas eletrônicas (smartboard) de origem canadense, sonorização própria, projetor multimídia e telas elétricas. "A intenção é oferecer um colégio diferenciado, com grade curricular e disciplinas optativas abrangentes, que atenda alunos interessados em cursar diferentes áreas, como engenharia, direito ou medicina", explica Mirshawka.

A Faap segue a tradição em educação continuada e anuncia novos cursos para 2011. No primeiro semestre, a instituição vai lançar em São José dos Campos os cursos MBA Gestão Econômica Contemporânea e MBA Gestão Estratégica de TI. Além disso, serão oferecidos mais 18 cursos de extensão, MBA e pós-graduação em especial nas áreas de gestão e direito. "São José é um polo tecnológico e necessita qualificar cada vez mais seus profissionais." Em Ribeirão Preto, a Faap também ofertará 16 cursos de extensão, pós-graduação e especialização. "São duas cidades pujantes do Estado de São Paulo com potencial de absorção de todos esses cursos e outros que virão no futuro", planeja Mirshawka.

Demanda e riscos

As instituições miram na qualidade sem perder de vista, no entanto, a quantidade, mola propulsora do setor até o início da década passada. Para o diretor do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp), Rodrigo Capelato, o aumento da demanda continuará sendo por bom tempo um importante impulsionador do volume de matrículas. Há ainda um contingente imenso de alunos, explica, para ser absorvido pelo ensino superior.

"O Enem recebeu quatro milhões de inscrições e desse total um milhão deve ingressar no ensino superior enquanto três milhões vão ficar de fora", ressalta. Sua expectativa é que o mercado comece a absorver de forma mais intensa a parcela excluída. Esse movimento, segundo ele, começou a ser constatado no ano passado.

A inserção de alunos das classes C e D, observa, voltou a crescer de forma mais acentuada em 2010. Além disso, no ano passado levantamentos de institutos de pesquisas mostraram que em 2009 a participação no ensino superior de estudantes de classe A diminuiu, enquanto a de classe D aumentou.

Uma boa opção de investimento para absorver parte desse público é investir em cursos tecnológicos, como os de gestão de recursos humanos, o terceiro mais requisitado na região metropolitana de São Paulo, e o de análise de sistemas, diz Capelato.

Para Monteiro, da CM Consultoria, a economia aquecida deve movimentar o mercado em todas as faixas de renda. "Com um maior crescimento do PIB [Produto Interno Bruto], a manutenção do poder aquisitivo da população e baixas taxas de desemprego até 2014, vamos ter fortes migrações em todas as classes, da D para C, da C para B e até da B para A", prevê.

Ele destaca, no entanto, a importância de definir o público a ser atingido para orientar os investimentos. Instituições voltadas para a classe C precisam incluir a padronização dos alunos entre os investimentos estratégicos para recuperar a defasagem de ensino que eles trazem no currículo, igualar o nível de conhecimento e reduzir a taxa de evasão estimada em 20%. "Já os alunos da classe A exigem atendimento personalizado, professores renomados e serviços diferenciados", explica.

Mas investimentos para captar alunos, alertam os especialistas, oferecem riscos bem conhecidos do mercado: evasão escolar com aumento da ociosidade e inadimplência no caso de o aquecimento econômico ser um movimento passageiro. "Não existem garantias de que as classes C e D vão continuar crescendo. Se esse movimento for uma bolha e o aquecimento não tiver sustentação, investimentos em classes e estruturas podem resultar em prejuízo", diz Capelato.

Foco em Brasília

A unidade da Unicsul em Brasília será um dos principais focos de investimento do grupo em 2011. Para meados do ano, a universidade construirá novos laboratórios de engenharias e de áreas da saúde, além de ampliar a biblioteca e web-classes.  

A falta do financiamento

A movimentação das instituições para enfrentar a concorrência e aumentar a participação no mercado, que se manteve estagnado por alguns anos e que só no ano passado começou a dar sinais de recuperação, é comparada a um jogo de baralho pelo diretor de desenvolvimento do Grupo Cruzeiro do Sul Educacional (Unicsul), Fábio Figueiredo. "O crescimento pífio do número de matrículas, entre 3% e 4% ao ano, transformou o setor de ensino superior num jogo de rouba monte", afirma. A tendência deve permanecer mesmo com o aquecimento econômico porque, segundo Figueiredo, o custo do financiamento ainda não é acessível a boa parte dos alunos. O país, o executivo avalia, carece de uma política de financiamento e de concessão de bolsas de estudo mais agressiva. "O brasileiro não tem a cultura de fazer dívida para investir em educação e não está disposto a pagar um preço alto pelas mensalidades", observa.

Nova onda de incorporações

Com a economia aquecida, a onda de abertura de capital, fusões e incorporações que ganhou força entre 2007 e 2009 tende a voltar a crescer. "Há espaço para fusões em especial no Nordeste, interior de São Paulo e na região Centro-Oeste, onde é possível encontrar boas instituições", avalia Sergio Duque Estrada, sócio-diretor da Valormax Consultoria. O movimento de compra já deu sinais de retomada no final do ano passado. O grupo Anhanguera Educacional adquiriu, em dezembro, a carioca Sociedade Educacional Plínio Leite. Este ano, o grupo já anunciou a disponibilidade de R$ 1 bilhão em caixa, dos quais R$ 844 milhões captados por meio de ações para destinar às transações de compra e venda. A Anhanguera tem como meta adquirir pelo menos 46 novos campi por meio das aquisições e crescer dos atuais 54 campi para 100 no país.Entre as instituições de porte menor, o Grupo Cruzeiro do Sul Educacional também planeja entrar no mercado de fusões e aquisições com investimentos da ordem de R$ 50 milhões. A previsão do grupo é crescer cerca de 5% este ano. Parte do crescimento deverá ser decorrente das transações de aquisições e incorporações, informa o diretor de desenvolvimento do Grupo Cruzeiro do Sul Educacional, Fábio Figueiredo. "Já estamos em negociações bem adiantadas", afirma.

Campinas atrai investimentos

O interior de São Paulo parece ser mesmo um mercado em ascensão. A cidade de Campinas, por exemplo, vai receber investimentos de pelo menos quatro instituições de ensino superior. A Universidade Presbiteriana Mackenzie inaugura um novo campus na cidade no final deste mês de fevereiro. Com investimento de cerca de R$ 38 milhões, a estrutura inclui 27 mil metros quadrados e mais de 60 salas de aula. Já a Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação (Esamc) se prepara para entrar no campo de ensino de ciências exatas com sete novos cursos de engenharia. Diante do crescimento e da perspectiva de dobrar de tamanho em cinco anos, a instituição já planeja a construção de uma nova sede. A Faculdade Politécnica de Campinas (Policamp) começa 2011 com quatro novos cursos e a PUC-Campinas prevê um aumento de 20% em seus investimentos, incluindo a construção de um novo prédio.

Por: Salete Silva

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