Animais de estimação nada fofinhos

Animais de estimação nada fofinhos

Atualizado: Sexta-feira, 16 Setembro de 2011 as 9:09

o último VMA, o cantor Justin Bieber assustou a namorada Selena Gomez colocando um filhote de corn snake perto dela. “Se chama Johnson”, apresentou. A corn snake é uma espécie inofensiva que vive nos milharais americanos e não cresce mais de 1,50m. Mas, por ser uma cobra, não é exatamente o bicho de estimação mais fofinho e comum que alguém pode ter.

Apesar de algumas fugas do bicho de estimação e de alguns sustos da empregada doméstica, o estudante de biologia Gustavo Figueiroa, de 19 anos, cria corn snakes há quatro anos. “Desde pequeno sou fissurado. Vivia no Instituto Butantan observando as cobras criadas ali”, conta, referindo-se ao centro de pesquisa biomédica situado em São Paulo – SP.

Aos 15 anos e depois de muita pesquisa, Gustavo decidiu adquirir uma corn snake. “Vi que era a mais adequada para ter em casa”, conta. Aí, veio o processo de convencimento da mãe. “Conversei com ela, expliquei que queria fazer Biologia para trabalhar com isso, que esse era meu sonho. E um dia cheguei em casa com a cobra”, diz o estudante.

Hoje a mãe não gosta nem desgosta do animal, mas tem que lidar com algumas escapadelas de Dara, a cobra de estimação de Gustavo. “Recentemente voltei de viagem e ela não estava no terrário. Revirei a casa toda e não achei. No dia seguinte minha mãe estava indo dormir e a viu sair de trás de um móvel”, conta, “ela voltou para o vão em seguida e tive que entrar no quarto no escuro, em silêncio, para pegá-la sem que ela se escondesse”.Os cuidados com uma cobra de estimação vão ainda além de capturá-la quando ela escapa do terrário. O estudante Raul*, de 17 anos, comprou um filhote de corn snake em março, batizou de Nira e começou a alimentá-la com filhotes de camundongo. Isso mesmo, pequenos ratinhos adquiridos congelados em pet shops. “Quando chegou, ela comia os recém-nascidos. Hoje ela já come filhotes com o primeiro pelo”, conta Raul. “Compro quinze camundongos congelados e guardo no congelador. Cada um custa de R$ 2 a R$ 3”, diz o estudante.

Pode parecer meio sinistro guardar filhotes de camundongo mortos na geladeira, mas Raul explica. “Não dou camundongos vivos porque não os crio”, diz o jovem, que precisa se deslocar até a cidade vizinha para adquirir os animais.

Mas cobra não faz festa quando o dono chega em casa, não brinca com novelo de lã nem vai buscar gravetos no quintal. Então, qual é a graça de criar uma? “Não sei explicar. É legal, é diferente. Não tem como criar um laço afetivo, mas ela reconhece que sou eu que a alimento e não faço mal a ela, por isso, não tem medo de mim”, conta Gustavo.

Por não serem da fauna brasileira, a criação de corn snakes não é legalizada no Brasil. Portanto, Gustavo e Raul não têm autorização do IBAMA para criá-las, mas garantem que Dara e Nira não foram capturadas na natureza e ambos são contra a prática. Raul defende, no entanto, a criação das cobras em cativeiro, desde que nas condições corretas. “Ter uma serpente não é como ter um cachorrinho. Você precisa de um pouco mais de estudo”, explica.

Justamente por ser um animal silvestre, a cobra requer cuidados especiais que costumam ser caros. “Você gasta um dinheiro alto para deixar o ambiente parecido com o natural”, diz o estudante de Biologia, “o terrário em que a cobra fica chega a custar R$ 600 em lojas”.

Bichinhos de estimação que parecem dinossauros As cobras não são os únicos animais silvestres que podem ser encontrados no quarto de algum amigo de gosto mais peculiar. As iguanas também viram bichinhos de estimação e passeiam pelos braços e ombros dos donos. “Acho legal criar uma iguana porque ela é um réptil. Os répteis estão há muito tempo na Terra e ela parece um dinossauro”, conta Rafael Jacome, de 14 anos, que divide os cuidados da iguana Ivana com o pai. “Troco a água e a comida e limpo o aquário todo dia de manhã, antes de ir para a escola”, diz.

Segundo Rafael, a mãe e a irmã não gostam muito do pet. “Minha mãe não queria uma iguana, mas meu pai trouxe para casa mesmo assim. E minha irmã de 16 anos tem medo, se eu coloco perto dela, ela grita”, conta.

Mas Ivana é uma iguana afetuosa. “Fico com ela no quarto, alisando a cabeça dela, e ela dorme”, afirma Rafael, “mas ela também já me chicoteou com o rabo quando eu tentei alimentá-la”.

A demonstração de afeto da iguana não é nada parecida com as brincadeiras de um cachorrinho, mas quem cria o animal não está preocupado com isso. “O diferencial está em ter um animalzinho que você sabe que poucas pessoas terão igual, o que já não é o caso dos passarinhos, cães e gatos”, explica o empresário Denerson Larronda, de 21 anos, dono da iguana Kika, “não é todo mundo que quer ter ou tem condições de adquirir uma, então me sinto privilegiado, pois não tenho um bicho de estimação comum”.

Por que não um gatinho? Para a professora de Psicologia do Complexo Educacional FMU Érika Leonardo de Souza, a justificativa de Denerson é honesta. “O que acontece é que do mesmo jeito que os adolescentes têm as tribos, eles fazem isso para se diferenciar”, explica, “eles estão buscando identidade e querem ser diferentes dos adultos”, conta.

Mas, para ela, a troca de afeto entre o dono e o animal existe, sim. “Pode não ter como o cachorro, mas o adolescente cuida do animal e, apesar de o bicho não expressar nada, o dono acaba observando algo no comportamento dele”, diz Érika. Criar uma animal nada fofinho, para a psicóloga, também pode ser uma maneira se de proteger. “É claro que o animal não faz mal nenhum, mas ter uma cobra ou iguana é algo como ‘não chega perto de mim porque ele vai te machucar’”, afirma. Autorização do IBAMA

Criar um animal silvestre pode ser exótico, mas também pode trazer problemas ambientais. Mesmo que o animal tenha nascido em cativeiro, é importante observar se o criador é autorizado pelo IBAMA, principalmente no caso das corn snakes, que não são tipicamente brasileiras. “O animal precisa ter documento de entrada no país, senão é considerado contrabando”, explica Vincent Kurt Lo, analista ambiental do IBAMA.

A dificuldade em encontrar criadores de corn snakes certificados se deve à preocupação do IBAMA com a preservação das cadeias alimentares brasileiras. “A Flórida, por exemplo, tem um problema com pítons, que são uma espécie exótica invasora”, diz Vincent, explicando que as pessoas compravam pítons para criar como animais de estimação, soltavam na natureza após algum tempo e isso acabou causando um desequilíbrio ambiental.

Se um animal é encontrado pela entidade sem documentação, ocorre a apreensão. “Ele vai para um zoológico ou criadouro legalizado. É difícil repatriar, mas se estiver ameaçado de extinção, o país de origem pode requerer. É o caso da arararinha azul”, explica o biólogo.

Nesses zoológicos e criadouros, os animais costumam ser usados para educação ambiental. “Em vez de ficarem espalhados em apartamentos, os animais vão para reprodução e educação ambiental e recebem assistência de biólogos e veterinários”, afirma.

Para o biólogo, esse é um destino mais digno para o animal do que uma residência com, no máximo, uma simulação do ambiente natural das cobras, iguanas e outros animais como aranhas, escorpiões e sagüis. “O animal fica parado, não se alimenta adequadamente. É gostar de um animal fazê-lo passar a vida inteira em uma cuba?”, questiona, “se gostassem mesmo de animais silvestres, deviam trocar a gaiola por binóculos”.    

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