Arrivederci, mamma! Ou não...

Arrivederci, mamma! Ou não...

Atualizado: Sexta-feira, 4 Junho de 2010 as 9:58

Um relatório anual do Istat, Instituto Nacional Italiano de Pesquisa, acaba de revelar que triplicou, em quase 30 anos, a quantidade de jovens entre 18 e 34 anos que não consegue deixar a casa dos pais, para morar sozinhos. Os números mostram que 40,2% fazem essa opção por questões econômicas; 34% por necessidade de continuar os estudos; 26,5% por conta da dificuldade de encontrar casa e 21% por não conseguir encontrar trabalho.

Na Itália, há 40 anos, a perspectiva para os jovens era bem diferente. Sair de casa para romper os laços com a estrutura familiar patriarcal era quase obrigação. Durante o movimento feminista, as mulheres lutavam pelo direito ao aborto e ao divórcio mas, também, para que os jovens pudessem viver sua sexualidade livremente e em ambiente seguro.

"Antes, muitos adolescentes namoravam dentro dos carros, porque não havia lugar para a esse tipo de coisa dentro das famílias", conta Anna Biasi, professora e mãe de um filho de 18 anos. Ela participou do movimento estudantil, no começo dos anos 70, quando tinha 14. Laura fala, entre outros casos, de um serial killer conhecido como "o monstro de Firenze", que apavorava os casais de namorados, na época. Muitos jovens foram mortos. "Os pais italianos entenderam, depois, com muita luta, que os filhos também precisavam de espaço".

Assim, apesar da vigilância da igreja católica e da forte ligação com la mamma e la famiglia, a Itália aceitou, sem muito drama, que era melhor que as "crianças" fizessem sexo em casa e, melhor, que saíssem para morar sozinhas. Pode parecer "modernex", mas é assim que eram as coisas entre os jovens, não somente na Itália, mas na maioria dos países europeus. Infelizmente, para eles, a atual crise econômica está jogando contra essa liberdade que os jovens tinham conquistado, há algumas décadas.

Mimadões e neets

Tempos atrás, o ministro italiano da Economia, Padoa-Schioppa, ofereceu dedução no imposto de renda para os jovens, de até 30 anos, que alugassem uma casa. "Precisamos mandar esses mimadões para fora de casa", declarou. A rapaziada não gostou nada da expressão usada pelo ministro, e a polêmica dos "mimadões" dura até hoje. "Ele pensa que passamos o dia no Playstation, chattando ou vendo TV", dispara Carlotta, 23, estudante de Letras. Para morar com o namorado, Alessandro, de 24, ela precisa enfrentar dez horas de trabalho como atendente de telemarketing. Alessandro faz estágio numa agência de publicidade. Os dois ganham, juntos, 1.400 euros, e pagam um apartamento de 950. "Os aluguéis, em Roma, são os mais caros da Europa. Além disso, não há oferta, porque 80% dos imóveis está nas mãos da igreja católica", afirma a estudante.

A pesquisa do Istat calcula que, na Itália, 2 milhões de jovens não encontram colocação no mercado de trabalho. São os chamados neets – "not in education, employment or training", ou seja, aqueles que não estudam, não trabalham e não fazem nenhum treinamento de requalificação ou estágio. Para Carlotta, a ociosidade não é culpa dos jovens. "Atualmente, é muito difícil entrar no mercado de trabalho, e a maioria dos empregos não oferece contrato fixo. Será que o governo sabe disso?"

Laura Sabbadini, coordenadora da pesquisa do Istat, rebate o termo "mimadões", do ministro Padoa-Schioppa. "Essa palavra deveria ser banida, porque o quadro da população jovem italiana é crítico. Os filhos dos trabalhadores menos qualificados não conseguem se formar. Sem estudo e sem preparo, eles ainda têm que enfrentar uma realidade de trezentas mil vagas de trabalho a menos, em 2009", contabiliza.

Lorenzo, filho da professora Anna Biasi, também não está muito satisfeito. "Não me falta nada em casa, posso até ficar com minha namorada. Mas queria tentar sozinho, e não consigo emprego", diz. "Nossos pais lutaram contra a cultura dominante e as instituições. Hoje, nosso destino é morar com os pais para sempre", lamenta.

Basilio Puglia, 27, trabalha com pós-produção fotográfica.  Para ele, foi difícil deixar os pais, há dez anos, muito mais por ser filho único de uma família simples, do sul da Itália. "Não sou um mimadão. Minha mãe queria que eu me casasse, queria ver os netos crescerem. Aí, eu disse: não me amole". Ele conta que paga caro um aluguel em Londres, onde mora, e reconhece o quanto a situação mundial é determinante na hora de sair de casa, hoje em dia. "Acho que alguns jovens são obrigados a fazer um acordo com os pais, para viver na casa deles como se fosse um hotel, com a mãe que limpa e troca a roupa de cama. Outros fazem isso porque são covardes", critica.

Fora do ninho, pelo mundo

Outra pesquisa, dessa vez nos Estados Unidos, do Pew Research Center, demonstra que 13% dos pais assinalam a volta de pelo menos um de seus filhos crescidos para casa. Muito menos jovens entre 18 e 29 anos estão indo morar sozinhos.  Já na Escócia, o instituto General Register of Scotland indica que, em oito anos, o número de escoceses que mora sozinho vai passar de 1 milhão, a maioria jovens. O movimento parece ir em direção contrária à famigerada crise econômica. "Também depende muito da questão cultural, de como pais e filhos veem o mundo", diz Basilio Puglia, o que talvez explique porque, entre Estados Unidos e Escócia, a coisa ocorre de maneira diferente.

Na Espanha, muitos culpam a crise, que supostamente condiciona o comportamento das pessoas. "Não existe uma questão moral, queremos mesmo que nossos filhos saiam de casa", declara María, 53, mãe de 3 filhos entre 24 e 29 anos, que moram em Barcelona. "Mas o que vem primeiro é a estabilidade no trabalho, e isso não eles não têm". Outra María, uma modelo de 22 anos, conta que saiu de casa aos 16, para morar com a irmã, que tinha ido embora aos 13, para jogar basquete profissionalmente. Alba, 26, deixou a família aos 21, e paga o financiamento de sua casa própria com o salário de maquiadora.

Já para Aitor, 20, estudante de História da Arte, em Barcelona, tem sido mais difícil. Ele sonha em ir para a Inglaterra, mas, como é o filho do meio entre quatro irmãos, tem que esperar sua vez para que os pais o ajudem. Trabalhando esporadicamente como modelo, ele ainda não consegue pagar um aluguel. "Para meus pais, seria bom que eu fosse independente. Eles são separados e também precisam de sua individualidade, de festas, essas coisas", analisa.

O amigo e também modelo Se-bel Lee, 22, descendente de sul-coreanos, saiu de casa há um ano, para estudar engenharia industrial. Ele conta que, na Coreia, os filhos não costumam sair de casa antes de se casarem. Como nasceu em Barcelona, tem aproveitado a diferença cultural. "Prefiro o ambiente de estudos e os amigos", confessa. "Ainda bem que a Coreia está mudando".

Atento às dificuldades de moradia dos estudantes com a crise econômica, o ministério espanhol da habitação acaba de assinar um convênio com a universidade de Granada. Os alunos vão poder alugar apartamentos por um ano, com dois meses de abatimento, por conta do governo. Trata-se de uma experiência piloto que poderá ser estendida a outras as universidades públicas conveniadas.

A barcelonense Olga, 26, saiu de casa aos 21. Apesar de toda a dificuldade, não se arrepende. "Quero conservar minhas manias", fala. Quando descobre que, no Brasil, sair de casa não é um hábito muito comum entre os jovens, ela fica um pouco decepcionada. "Não sei se sou machista, ou feminista, mas não me vejo com alguém que não consegue tomar conta de si mesmo", avisa.

Por: Solange Cavalcante

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