Cheerleading: o Brasil também tem líderes de torcida

Cheerleading: o Brasil também tem líderes de torcida

Atualizado: Quinta-feira, 18 Agosto de 2011 as 10:02

Bastante conhecidos nos filmes hollywoodianos, os animadores de torcida ganham um caráter atlético e motivam jovens apaixonados por ginástica olímpica. O esporte tornou-se conhecido no Brasil com o filme "Bring It On" (As Apimentadas, de 2000), e também com o seriado "Hellcats", que está sendo exibido atualmente pelo canal pago Boomerang. "A realidade do Cheerleading é próxima da realidade da maioria dos esportes praticados no Brasil, amadora e sonhadora. Na verdade são pouquíssimos os países onde as pessoas podem treinar o Cheerleading e sobreviver dele", revela Rodrigo Gonçalves, técnico da União Brasileira de Cheerleaders, que fica em São Paulo. O esporte está engatinhando, mas encanta os olhos ver música, dança e ginástica, em sincronia, com acrobacia, junto a uma rotina de coreografia.

No Rio de Janeiro existe o grupo "Cheerleaders - Rio All Stars", que traz jovens que migraram da ginástica olímpica, rítmica, jazz e balé. "Ter uma base de ginástica ou dança é muito importante. Ajuda nos movimentos. É muito bom testar os limites do corpo, ver a evolução dos movimentos", conta Maira Leal, de 22 anos, estudante de medicina, que participa do grupo há três anos.

Apesar dos movimentos difíceis, o esporte é considerado democrático. Com dedicação e força de vontade, qualquer pessoa consegue participar. Uma pessoa mais forte, ou fora de forma, pode ser base, e um atleta mais magro, pode realizar as acrobacias, assim como alguém mais flexível, fica responsável pelos saltos. "Sabendo a técnica, você consegue fazer tudo. Tem que ser versátil, e querer aprender, desenvolver, testar os limites do corpo", conta Lucas Campello, de 21 anos, que está no grupo há um ano, e não tinha histórico de ginástica olímpica. "Eu sou muito magro, e treinando há um ano. Consegui evoluir bastante. Não sabia nada, e hoje faço acrobacia de nível avançado", afirma Lucas.

O grupo se reúne aos sábados e domingos, no Aterro do Flamengo para treinar. O solo é o gramado, inadequado para o esporte, mas a paixão pelas acrobacias é maior, e a turma vence as adversidades, e sonham em competir. "Nível técnico para concorrer nós temos, mas precisamos de patrocínio, de apoio. Mas enquanto não conseguimos, a gente vai treinando, e aperfeiçoando os movimentos", declara Mário Tavares, de 25 anos, treinador da equipe, que também participa de um time da UFRJ. Márcio foi eleito ‘coacher’, após um desentendimento que o grupo teve com um técnico anterior. "A equipe Rio All Stars, tem mostrado o ardente desejo em participar do Mundial de 2012, tanto do Mundial "por seleções" como do Mundial "por equipes", e estamos desenvolvendo uma estratégia para viabilizar a participação da primeira equipe brasileira nestes eventos", conta Rodrigo Gonçalves, que não mede elogio ao esforço do grupo carioca.

No início do ano, o grupo todo foi para Bauru, São Paulo, na esperança de treinar com estrutura profissional, e conseguir participar do World Cheerleading Championship. Sonhadores e determinados, largaram o emprego, trancaram a faculdade, e seguiram para Bauru, onde ficaram instalados em um ginásio, para intensificar os treinos. "Mas foi tudo uma ilusão. Ficamos mal alojados, e os treinos eram exaustivos. No final, ainda tivemos que fazer acrobacias no semáforo, para arrecadar dinheiro para a alimentação. Foi meio que no desespero, mas conseguimos quase R$ 2 mil, em uma semana de trabalho nos sinais. O treinador, que eu prefiro não revelar o nome, não estava preparado para administrar uma viagem", revela Márcio.

"Foi um momento difícil para o grupo, mas isso uniu mais a equipe. Chegou uma hora que tivemos que parar o treino, para ganhar dinheiro na rua. Comíamos quentinha no almoço, e esfirra no jantar. No final do dia, o cansaço tomava conta de todos da equipe, e não rendíamos tanto no dia seguinte", lembra. Superada essa fase, o grupo voltou, e decidiu que continuaria, mas que agora, cada um tentaria custear as despesas, para manter a equipe.

Para eles, a experiência foi válida, já que tiveram a oportunidade de treinar em um ginásio com tatame, tablado de ginástica e colchonetes. "Desenvolvi muito nessa época. Treinar com recursos adequados faz muita diferença", diz Lucas Campello.

Outro benefício que o grupo ganhou com a viagem, foi a união, já que estavam longe de casa. "Na nossa última semana, tentamos fazer uma coreografia especial. Nos esforçamos muito. Foi bem emocionante, parecido com o último episódio do "Hellcats". Fizemos uma coreografia de um minuto, tudo com a sincronia perfeita", conta Leandro Rente, de 23 anos, dizendo que esse momento ficará guardado pra sempre.

Para Lucas Campello, a viagem para Bauru trouxe mais um benefício: uma namorada. A estudante Mônica Queiroz, de 20 anos, é flyer da equipe, mas por morar em Jundiaí não treina com o Rio All Stars semanalmente, apenas quando vai ao Rio de Janeiro visitar o namorado. A dupla se conheceu quando ela cursava Biologia na UNESP de Bauru. "Primeiro conheci o Pedro, irmão gêmeo do Lucas, mas nem gostei muito. Aí ele me apresentou o irmão pela internet e, quando o pessoal foi treinar em Bauru, nos conhecemos pessoalmente e começamos a namorar", conta.

Grupo All Stars

Pouco tempo depois, Mônica deixou a faculdade de Biologia por não gostar do curso, mas a paixão pelo cheerleading e por Lucas permaneceram. "Eu digo que o cheer me deu um namorado e uma profissão, porque agora estou fazendo cursinho para prestar vestibular para Educação Física", diz ela.

Mas quem acredita que participar de uma equipe de Cheerleaders é fácil, e que a paquera rola solta, está enganado. "Entrei pensando nas meninas. Tinha a imagem dos filmes, com garotas lindas, e eu jogando-as para cima. Mas, com duas semanas de treino, quebrei o nariz, e vi que era mais sério, e que exigia mais responsabilidade", brinca. Leandro Rente, que hoje ajuda a montar as rotinas, até pensa em dar aulas.

"Somos uma equipe de verdade. Não dá tempo de pensar em paquerar. Até tem uns casais no grupo, mas na hora de um salto, todos têm muita responsabilidade, para não deixar ninguém cair", afirma Amanda Azeredo, de 22 anos, que também estuda medicina na UFRJ, e participa do time da Universidade. Na equipe, ela é considerada a Savannah Monroe, personagem principal do seriado "Hellcats". "Assisto ao seriado mais para ter ideia para as coreografias. Mas é divertido". Amanda tenta conciliar os treinos com os estudos, que também são intensos. "Sei que vai chegar uma hora que vai ser difícil manter os dois, mas vou levar até onde der. É como uma válvula de escape que preenche um vazio, faz bem" explica.

Também por falta de recursos, o figurino ainda não está pronto. Por enquanto eles improvisam, padronizando a cor preta, e usando malhas confortáveis. A música também é um fator bem importante nas coreografias. Tudo tem que ser ritmado, sincronizado, com os trechos da música, e os efeitos sonoros. "Em um campeonato o juiz leva em consideração cada efeito da música, sincronizado com uma acrobacia. As músicas são mixadas em bpms específicos, quanto mais rápido mais difícil", conta Márcio Tavares. A música tem que encaixar com a contagem de tempo dos atletas, durante os treinos, cada passo é contado, para que entrem na hora certa.

"O ideal é começar com tudo que é difícil, para dançar só no final, senão cansa muito", comenta Márcio, que lembra que no Cheerleaders a expressão facial conta muito, que o atleta tem que estar sempre sorrindo, por mais difícil que seja o movimento, e que cantar as músicas também é importante. "Precisamos passar alegria. Contagiar quem assiste, com as rotinas montadas", conclui.

Cheerleaders universitários

Assim como em "Hellcats", no Brasil há grupos de cheerleaders dentro das universidades, animando as torcidas de campeonatos esportivos entre faculdades. A estudante de psicologia Isabella Rigo, de 22 anos, entrou para as Texuguetes, grupo de cheerleaders da UNESP de Bauru, assim que começou o curso. "Não tem nenhum pré-requisito, não precisa saber nenhum tipo de acrobacia nem ser supermagra, é só comparecer aos treinos", conta ela, que diz não ter passado por um processo de seleção maldoso como o das Apimentadas.

Isabella explica que, em 2006, quando as Texuguetes surgiram, o foco do grupo era a dança. Foi só em 2010 que elas começaram a incorporar acrobacias às coreografias. "O time ficou sob minha responsabilidade e, como não sou profissional de dança e nem tenho didática, fui procurar uma professora", conta. "Achei Bruna Perandré, técnica das cheerleaders do time de futebol Noroeste. Ela aprendeu técnicas americanas com um profissional dos Estados Unidos e juntou com o que já sabia", diz a estudante.

Agora, as meninas lutam para que o esporte seja uma das modalidades do InterUNESP, competição que reúne todos os campi da Universidade. "A bateria conseguiu ser uma modalidade e a gente luta para que o Cheerleading seja também. Mas para isso precisamos nos aperfeiçoar", diz Isabella.

Grupo Rio All Stars: meninos são maioria no grupo carioca

Esporte ainda está engatinhando no Brasil, mas há esperança

Como todo esporte novo, o Cheerleading passa por uma série de dificuldades de patrocínio, e também de poucos atletas. O esporte chegou ao Brasil em 2008, quando teve o apoio da Comissão Paulista de Cheerleaders. Hoje, é representado pela União Brasileira de Cheerleades – UCB, que apóia os atletas, e formam técnicos.

Os países que se destacam no esporte são o Chile (Vice Campeão Mundial 2010 e 2011), Colômbia e Equador (países da América do Sul onde o esporte é bem desenvolvido). "A UBC está trabalhando para que novos profissionais sejam formados, novas pessoas e praticantes possam entrar em contato com o esporte. Também queremos que os atuais praticantes possam evoluir em seus conhecimentos através de cursos de formações", garante Rodrigo.

Neste ano aconteceu a terceira edição do World Cheerleading Championship, evento organizado pela International Cheer Union - ICU, entidade máxima do esporte – que a UBC esta afiliada. Há dois tipos de Mundial, existe o evento que acontece com a participação de seleções de países, e o formato que acontece com equipes. "Nenhuma equipe de Cheer ou Cheerdance representando o Brasil participou de qualquer um dos campeonatos, por diversos motivos - formação de atletas, formação de equipes, patrocínio ou apoio, questões financeiras, entre outros", assume Rodrigo Gonçalves.

Em 2010 a Comissão Paulista de Cheerleading em parceria com a UBC, e a Federação do Desporto Escolar do Estado de São Paulo - FEDEESP, Liga Esportiva Universitária Paulista e o Celfran realizou o primeiro Festival e Campeonato de Cheerleading, do Estado de São Paulo, seguindo os padrões básicos de Cheerleading. "Neste ano desejamos realizar o primeiro Campeonato Brasileiro de Cheerleading e Dança. Para isso estamos buscando patrocinadores e parceiros", comenta Rodrigo, técnico da UCB.

Equipe de Cheerleading no Brasil

No total há 11 equipes trabalhando o Cheer segundo padrões internacionais ddo esporte:

Manaus - AM (The Lions)

Vila Velha - ES (Panthers)

Curitiba - PR (Legends)

Rio de Janeiro - RJ (Rio All Stars)

Salvador - BA (Politans)

São José dos Campos - SP (Nação Jovem Cheerleading)

ABC - SP (UFABC),

São Carlos - SP (Cheerleading UFSCar)

Rio Claro (Deliders Unesp)

Bauru (Texuguetes Cheer)

São Paulo - SP (UBCheer)

veja também