Com 'contador' e balada profissional, repúblicas têm novo perfil

Com 'contador' e balada profissional, repúblicas têm novo perfil

Atualizado: Segunda-feira, 4 Abril de 2011 as 9:42

As repúblicas estudantis de Barão Geraldo, distrito de Campinas, têm ‘contador’, rodízio para tirar o lixo de casa, conta bancária, coleção de esmaltes conjunta, multa para quem deixa louça suja na pia, envelope para as notas fiscais das compras coletivas e baladas profissionais que reúnem até 800 convidados. A região é conhecida por abrigar muitos estudantes já que é próxima da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da PUC-Campinas.

O G1 visitou duas repúblicas em Barão Geraldo, uma formada por nove meninas, a República Olimpo; outra por dez meninos, a Tangas; e conversou com um morador da Amsterdam que reúne 19 garotos, para saber como é a vida do jovem que dá o primeiro passo rumo à independência.

Cada república tem suas regras, problemas e vantagens, assim como em qualquer lar, porém os estudantes garantem que a imagem do universitário que vira noites e noites em festas, burla o banho, mata aulas e transformam a casa onde mora em uma balada ininterrupta não condiz com a realidade. Pelo menos não entre aqueles que já estão há mais de um ano fora de casa.

Da esquerda para direita: Matheus Svolenski, Bruno Correa, Geraldo Sampaio, Douglas Geraldi, Anderson Bravalheri, André Yonenoto e Eliezer Emanuel, o 'contador', agachado

"Nossa república está envelhecendo, é muito clara a distinção entres os recém-chegados e os demais estudantes. O começo é uma eterna balada, há muitos visitantes, amigos de amigos, depois não", diz Bruno Correa, de 25 anos, estudante de filosofia e morador da Tanga.

Mestrando em geociências, Geraldo Sampaio, de 23 anos, afirma que a casa não tem espírito festeiro. "Somos várias pessoas morando juntas em perfeita harmonia. Não é como nos filmes."

Nem tanta harmonia assim. Os meninos contam que já brigaram entre si e que o maior motivo de discussão é a louça suja. "A principal regra para se morar aqui é lavar tudo que usa, mas vira e mexe alguém não respeita", conta Anderson Bravalheri, de 22 anos, aluno de engenharia elétrica, e um dos moradores mais antigos da Tanga.

As contas da casa ficam a cargo do também estudante de engenharia elétrica Eliezer Emanuel Ferreira, de 22 anos. É ele quem controla a conta bancária da república e sabe quanto cada morador tem de depositar. A casa possui um ‘caixa’, por isso acontece de financiar móveis para a república que depois é dividido entre todos os moradores. A última aquisição foi um fogão.

Os valores são encaminhados mensalmente por Ferreira, via e-mail, no informativo que tem até o logotipo da república. O aluguel varia entre R$ 215 a R$ 305 – os valores mudam se o estudante divide ou não o quarto, além de R$ 100 com as demais despesas. As ligações interurbanas são anotadas em um caderno e pagas individualmente. Cada semana um morador é responsável por tirar o lixo da casa.

"Não gosto de bagunça, gosto de administrar. Além disso, a maior parte das contas está em débito automático. Não tem muito segredo", diz Ferreira. Como assume a função de ‘contador’ da casa, ele está dispensado de recolher o lixo.

Festas e multas

Formada em 2005 por cinco estudantes de engenharia de alimentos, a Amsterdam é uma das repúblicas mais famosas de Barão Geraldo. Primeiro pela quantidade de moradores - são 19 meninos -; segundo, pelas festas que eles promovem que já chegaram a reunir até 800 pessoas.

As baladas têm DJ, segurança e o convite dá direito à open bar. Pedro Raiça Arteze, de 20 anos, um dos moradores da Amsterdam garante que os eventos não dão lucro, apenas se pagam, mas que estão suspensos, por conta da reclamação da vizinhança. Agora, eles optaram pelas festinhas menores, com no máximo 100 pessoas.

"Gosto mais das festinhas menores porque não dá tanta confusão e dá para curtir mais. Na maiores, trabalha-se muito. As festas em repúblicas estão acabando por causa da vizinhança. Todo mundo está optando por reuniões pequenas", diz Arteze.

É função dos 'bixos' que chegam na casa limpar a piscina, tirar o lixo e guardar a louça, como forma de "sentir que a casa é deles e precisa de manutenção", conforme descreve Arteze. A louça é motivo de multa na Amsterdam. Apesar de manter uma faxineira três vezes por semana, ninguém pode deixar louça suja na pia, caso contrário, paga multa: pratos, talheres e copos custam R$ 1 cada, e panelas, R$ 5. As despesas, incluindo o aluguel, saem em torno de R$ 430 mensais.

"Acho demais a vida em república porque sempre vai ter muita gente para conversar, fazer algo, interagir. Além do mais, você aprende a tolerar e respeitar", afirma Arteze que tem família em São Paulo, mas pretende continuar na república caso arrume emprego na região, após se formar no curso de engenharia de alimentos.

Esmaltes, bebidas e livros

Na República Olimpo, que só reúne meninas, a atual formação é recente, e por enquanto, segundo elas, a paz reina. São quatro quatros para oito moradoras. Duas dormem sozinhas e dois trios dividem os outros dois dormitórios. Segundo elas, dá certo. Daniela Assis Moraes, de 18 anos, estudante de dança; Julia Koury Marques, de 18 anos, aluna de engenharia de alimentos; e Caroline Baldo, de 19 anos, que estuda estatística, chegaram neste ano e já se adaptaram à casa.

Da esquerda para direita: Caroline Baldo, Mariana Marques (com a gata Pandora), Marília Souza Dissordi, Maria Angélica Araújo Barnabé, Daniela Assis Moraes, Júlia Koury Marques, e Clara Maria Ferreira Silva, a 'contadora', sentada

Clara Maria Ferreira Silva, de 22 anos, estudante de arquitetura e urbanismo, coordena as contas e convoca reuniões mensais para discutir despesas e limpeza da casa. Cada moradora paga em torno de R$ 350 por mês, incluindo aluguel e outros gastos. Na geladeira há um envelope para colocar as notinhas dos gastos coletivos.

Na sala há uma estante que reúne livros, bebidas e uma coleção de esmaltes. A máquina de lavar é usada por todas, e os armários estão divididos, assim como os alimentos que vão para a geladeira estão etiquetados.

As meninas evitam fazer festas porque o bairro residencial e os vizinhos podem se incomodar, mas costumam frequentar eventos e baladas da região.

" A mordomia faz falta, mas não trocaria roupa lavada e comida feita pela liberdade que tenho hoje", disse Mariana Marques de Oliveira, de 21 anos, estudante de história, que morava com a avó em São Paulo.

Para Julia Marques, que morava em Jundiaí, a saudade dos pais ainda é um desafio. "Sou muito apegada a eles, sempre vou vê-los no fim de semana, e no domingo à noite minha mãe não quer que eu volte."

Maria Angélica de Araújo Barnabé, de 24 anos, aluna de ciências da computação, diz que a sensação de sair sem ter de dar satisfação é uma das principais vantagens de se morar em uma república. "Quando morava com a minha mãe, tinha hora para voltar para casa. Agora é diferente."

Por: Vanessa Fajardo

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