Como escolhemos os nossos amores

Como escolhemos os nossos amores

Atualizado: Quarta-feira, 15 Fevereiro de 2012 as 9:09

“Acho que não é muito comum o que aconteceu comigo. Pelo menos nunca ouvi ninguém comentando um caso assim. Eu estava solitário há algum tempo quando conheci Patrícia, e fomos, aos poucos, nos apaixonando. Ela comentou que sua melhor amiga estudava no exterior e que se correspondiam quase todos os dias. Ela falava de mim e comentava sobre a nossa paixão. No fim do ano passado, quando Joana voltou de seu curso na França, saímos os três juntos. Foi um choque. Naquela única noite, em duas horas durante um jantar, num restaurante agradável, descobri que Joana era a mulher perfeita para mim. Aquilo que eu achava interessante em Patrícia era reflexo de Joana sobre ela. Patrícia é até mais bonita, mas Joana é a pessoa que quero ao meu lado. Não sou o que costumam chamar de homem “galinha”, mas me apaixonei pela melhor amiga de minha namorada.”

Este é o desabafo de André, um arquiteto de 32 anos, numa sessão de terapia. Por que Joana e não Patrícia? Por que Ivan e não Paulo? Alguém sabe dizer? Às vezes tentamos até encontrar alguma explicação razoável para nossas escolhas amorosas, mas não é nada fácil. O pior é quando tentamos nos apaixonar por alguém que em tudo parece ser o parceiro ideal, mas nada acontece. Não desencadeia a menor emoção. É comum se desejar mesmo aquela outra pessoa complicada, cheia de problemas, que nunca sabe o que quer e não se decide.

Dos amigos desiludidos ouvimos com frequência: “O que ela tem que eu não tenho?” ou então “O que ela viu nele?”. Mas como responder essas perguntas? É claro que todos nós podemos relacionar algumas coisas específicas que nos atraem numa pessoa, mas o que decide mesmo nosso interesse por alguém está escondido no inconsciente.

O sexólogo americano John Money denomina “mapa amoroso” um dos mecanismos pelo qual as pessoas são atraídas por alguém em particular. Ele acredita que as crianças desenvolvem esses mapas amorosos entre os cinco e oito anos de idade (às vezes antes), e mais tarde eles vão determinar o que desperta nossa sexualidade e por que nos apaixonamos por uma pessoa e não por outra. A relação com a família, professores, amigos, vizinhos, contribuem para isso, à medida que todas as experiências vividas vão nos afetando de diversas maneiras.

A forma como nossa mãe nos escuta ou nos repreende, o jeito do nosso pai brincar ou caminhar, o riso gostoso de uma tia, ou o mau humor do avô. A casa animada, cheia de amigos ou tranquila e silenciosa, aspectos da personalidade que apreciamos num professor ou detestamos num colega, e assim por diante. Algumas características nos atraem, outras repudiamos.

Quando crescemos, esses mapas influenciam nossas escolhas amorosas porque já temos prontos alguns elementos básicos do que desejamos num parceiro: sua voz, seu jeito de falar, suas amizades, seu senso de humor, seus interesses, suas aspirações. São milhares de coisas óbvias, e também minúsculos elementos subliminares que atuam em conjunto para tornar essa pessoa mais atraente que outra.

Por que então encontramos tanta gente insatisfeita com o parceiro, se queixando do seu jeito de ser? A resposta está na ansiedade de se encontrar um par amoroso, impedindo que se vivam os encontros com tranquilidade. Sem perceber adequadamente o outro, se projeta nele o mapa amoroso pessoal, tentando encaixá-lo nesse modelo. Aí as pessoas acreditam estar perdidamente apaixonadas. Quantas frustrações seriam evitadas se fosse possível iniciar uma relação amorosa somente com quem realmente nos causa interesse?

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