Detran diz que adolescentes se envolveram em 118 acidentes este ano

Detran diz que adolescentes se envolveram em 118 acidentes este ano

Atualizado: Quinta-feira, 24 Novembro de 2011 as 1:29

Estatísticas do Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso do Sul (Detran/MS) apontam 118 acidentes envolvendo veículos conduzidos por menores de 18 anos entre janeiro e setembro deste ano, em Campo Grande. Desse total, 103 condutores envolveram-se em acidentes com vítima e outros 15 em ocorrências que resultaram somente em danos materiais.

Uma formação sociocultural voltada para o veículo desde cedo, a percepção do veículo como um instrumento de poder, além do próprio fator econômico — crescimento da frota de veículos, facilidade de aquisição da moto ou do carro próprio e muitas vezes a presença de mais de um veículo nos lares —, estão entre os fatores que motivam o adolescente a "pegar o carro" e sair por vias públicas, muitas vezes com consequências sérias, segundo informações do psicólogo do Detran, Renan da Cunha Soares Júnior, que integra o o Programa Socioeducativo para Adolescentes em Conflito com a Lei de Trânsito (Premijr).

Desenvolvido pelo órgão de trânsito há 15 anos, o programa tem como objetivo ajudar a mudar o padrão de comportamento de adolescentes apreendidos ao volante e encaminhados ao Detran pelo Ministério Público, evitando que recaiam na infração e sejam futuramente condutores ajustados às normas de trânsito.

A iniciativa tem parceria com a Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) e somente entre 2009 e 2010 atendeu 200 garotos e garotas menores de 18 anos. Neste ano, 80 passaram ou ainda estão inseridos no projeto, que tem média de dois meses para cada turma, com realização de até 10 encontros nesse período. "Discute-se a participação do adolescente no trânsito, a questão da autoestima, direitos e deveres, além de fazermos um trabalho de campo, onde o próprio adolescente detecta e analisa atitudes de risco no trânsito", explicou.

No início e ao final de cada turma, os pais desses menores também participam dos trabalhos e os relatos em geral são de mudança.

Perfil

Pesquisa por amostragem realizada entre os atendidos pelo projeto ajuda a traçar um perfil de quem é pego ao volante antes mesmo da primeira habilitação. "Nove entre cada dez adolescentes acreditam que se chegarem na escola, na balada ou em outros locais de grande aglomeração dirigindo um veículos, as pessoas vão ter uma ideia melhor deles e eles serão considerados importantes", menciona o psicólogo.

O agravante é que sete entre cada 10 entrevistados admitiram não conhecer as leis de trânsito e 50% dos adolescentes ouvidos relataram já ter experimentado bebida álcoolica e ter contato regular com a substância há pelo menos um ano, embora nenhum tenha relacionado esse uso ao momento em que foram apreendidos dirigindo. Sobre o consumo de álcool, Renan Soares lembra que pesam os fatores cultural (o fato de dessa substância ser normalmente aceita e estar bastante disseminada na vida social) e também a influência do grupo, especialmente forte nessa época da vida.

Para os pais, a recomendação é uma só — atenção. "Que os pais vigiem com quem seus filhos estão andando, saibam para onde eles estão indo. Hoje há a tecnologia que nos auxilia justamente para evitar esse tipo de situação", orientou o psicólogo.

O mesmo cuidado vale para a educação no trânsito. Segundo o psicólogo, a grande maioria dos pais de adolescentes atendidos pelo Premijr procura ter uma conduta correta, não deixando que o adolescente dirija nem facilitando o acesso dele ao veículo, mas também há casos de pais que compraram o veículo (moto) para o filho. "Pais e adolescentes têm que se conscientizar que o trânsito é uma atividade de risco. Já temos tantos problemas com quem é habilitado, para quem não está preparado para o trânsito então, a situação é muito mais difícil. Que os pais possam estar mais próximos dos seus filhos, para evitar essas tragédias", disse, fazendo referência ao acidente com um Honda City envolvendo sete menores registrado no sábado passado.

Fiscalização

Após um adolescente morrer e outros quatro ficarem feridos durante o capotamento de um Honda City, ocorrido neste fim de semana na Avenida Ministro João Arinos, região da saída para Três Lagoas, a Companhia Independente de Polícia de Trânsito (Ciptran) e a Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran) vão mandar nesta semana uma equipe técnica ao local do acidente. O objetivo do trabalho é identificar os fatores de risco de acidente nesse trecho da via.

"Onde acontecem acidente de trânsito com vítima fatal, uma equipe técnica vai até o local e verifica porque aconteceu o acidente, se houve falha humana ou falha de sinalização, por exemplo. Faz-se então um agendamento de trabalho e os resultados são apresentados na reunião mensal do GGIT (Gabinete de Gestão Integrada de Trânsito)", explicou o comandante da Ciptran, tenente-coronel Alírio Villassanti.

No caso específico do acidente que vitimou sete menores na saída para Três Lagoas, o comandante da Ciptran alerta para a necessidade de se impor limites aos adolescentes. "Temos uma sociedade em que os pais são excessivamente permissivos, não impõe limites para o filho e isso tem que ser revisto, para que fatos lamentáveis e tristes como esse não ocorram mais", afirmou.

O levantamento da Agetran e da Ciptran ajudará, por exemplo, a orientar cronograma de fiscalizações, assim como identificar a necessidade de reforço de sinalização do local ou de outro tipo de intervenção. No caso do trecho da avenida onde aconteceu o acidente com os sete menores, a avaliação ganha importância redobrada, já que ali foi registrado outro desastre envolvendo uma motocicleta e um ônibus há menos de duas semanas, resultando na morte de dois irmãos de 16 e 20 anos de idade.

Vulnerabilidade

Pesquisa realizada pela própria Agetran aponta que a maioria dos acidentes registrados na Capital tem como autores condutores de 18 a 25 anos de idade. Quando há o envolvimento de menores, a técnica da divisão de educação do trânsito da Agetran, Vera Lúcia de Matos, questiona o tipo de valores que esses adolescentes estão recebendo dentro de casa. "Entra aí a questão dos valores, o que eu estou repassando ao meu filho? É preciso ter a consciência de que dirigir com menos de 18 anos de idade é crime", comentou. (DA)

via: Correio do Estado

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