Diário de classe: a rotina às vésperas do Enem

Diário de classe: a rotina às vésperas do Enem

Atualizado: Sexta-feira, 21 Outubro de 2011 as 11:01

Segundo o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2010, a escola estadual Joiti Hirata, no Parque Independência, extrema zona sul de São Paulo, tem o típico desempenho de uma escola brasileira. Os alunos da instituição obtiveram exatamente a nota média nacional no teste do ano passado: 511 pontos.

Longe das primeiras e das últimas colocações nos rankings, foi escolhida pelo iG para retratar a rotina do estudante em uma escola regular no mês que antecede a realização do Enem. Os detalhes dos últimos 30 dias foram anotados em um diário de classe feito por Samara de Oliveira Santos, 18 anos, aluna do 3º ano matutino do ensino médio na unidade.

Inscrita no Enem que será realizado neste fim de semana, ela espera conseguir pontuação para estudar Publicidade. Como os colegas, não tem esperança de cursar uma instituição superior pública, mas de conseguir fazer faculdade pelo Prouni, programa do governo federal que dá bolsas de estudo em instituições particulares em troca de renúncia fiscal.

Antes de começar o diário, Samara contou à reportagem que esperava que eles fossem de “revisão e atividades intensivas”. A previsão não se confirmou em suas anotações.

Entre 21 de setembro e 20 de novembro, descontando os finais de semana e um feriado, houve 21 dias úteis. Do total, não houve aula em seis deles, ou 28% do total. Em um por conta de uma excursão a um parque de diversões, outro para os professores tratarem da avaliação do governo paulista, o Saresp, três dias foram usados para conselho de classe e um para reunião de pais.

Dos 15 dias de aula que sobraram, metade teve pelo menos uma aula em que não houve conteúdo relacionado à disciplina. Conforme escreveu Samara, os alunos ficaram “conversando, jogando (truco ou pif, paf)”, “sem nada” ou ouvindo bronca, como ocorreu no dia 28, na aula de química. “A professora falou sobre o péssimo desempenho de todos os alunos na prova”, descreveu a aluna, explicando que há semanas a turma não entende a matéria, mas que mesmo assim foi feita uma avaliação cujo resultado confirmou que ninguém aprendeu.

Ponto alto: choro da professora

Para a estudante e os colegas, a aula mais marcante do último mês foi uma dessas em que houve apenas uma conversa, em 6 de outubro. A professora de história, que esteve de licença maternidade no primeiro semestre, fazia um balanço de suas aulas no bimestre em encerramento. Reclamou da falta de infraestrutura para diversificar as aulas, do comportamento de alguns alunos e chorou. “Muita gente mudou de atitude depois disso”, conta.

Nas demais aulas, o mais comum foram atividades para nota, exercícios em apostilas e textos seguidos de questões. A insistência de alguns professores na mesma aula também é exposta. “Inglês: aula inteira a professora passa um texto sobre ‘simple present’”, anota no dia 3. “Professora fala sobre ‘simple present’”, no dia 4. “A gente não entende nada do que ela fala, em português mesmo. Eu já disse para ela, mas continua falando a mesma coisa”, lamenta.

As aulas de português e de práticas diversas (PD) de português são as mais elogiadas. “Foi a que mais ajudou aos alunos do 3ª A em relação ao Enem explorando textos, livros, erros e acertos de redações”, escreveu a aluna, que resumiu o período assim: “Foi um mês que ficou entre muitos trabalhos de fim de bimestre e muito tempo vago, por professores estarem em reuniões, conselhos e fechamento de notas.”

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