Emos viram tribo em extinção e agora curtem até funk proibido

Emos viram tribo em extinção e agora curtem até funk proibido

Atualizado: Terça-feira, 2 Agosto de 2011 as 8:32

Quando Rodrigo Alves, 18, apareceu de chapinha em casa pela primeira vez, "todo mundo olhou estranho".

    Desde aquele Natal de 2007, o radar antiemo do seu velho apita assim que ele cruza a porta. "Se meu pai quer me zoar, me chama de emo." E quer saber? "Eu era mesmo! O que tem demais? Poxa, é só ouvir uma música melancólica..."

Hoje, o chororô secou. Rodrigo trocou a tribo conhecida por arroubos emotivos (daí o "emo") por gostos mais diversos, como funk proibidão.

"Dos meus amigos que eram emos, a maioria agora ouve funk, eletrônico. Na rua, se passa um carro com proibidão, a gente tá dançando!"

Uma mudança e tanto para quem passou boa parte da adolescência trancado no quarto, com fones de ouvido ricocheteando o pancadão deprê de My Chemical Romance e Panic! at the Disco.

Como ele, muitos seguidores do movimento debandaram -uma tribo em extinção.

Se lágrimas pareciam incapazes de borrar a maquiagem dramática nos olhos, a imagem dessa galera saiu bem mais manchada. Após estourar, na virada do século, o emotivo virou motivo de chacota.

Foi tanto bullying que até bandas associadas ao emocore (hardcore emotivo), como Fresno e NX Zero, quiseram distância. Emo, eu? Imagina...

"O Brasil é um país machista", avalia Rodrigo. "Vieram aquelas bandas americanas passando maquiagem... Emo, aqui, ganhou fama de viado."

SE CHOREI OU SE SORRI

  Melissa Guebara, 18, culpa "aquela depressãozinha que dá na adolescência" por sua fase melancólica. Mas já saiu dessa. "Sei lá, comecei a achar que era atitude de criança."

E se desfazer do visual emo, com referências que vão de caveiras a lágrimas desenhadas no rosto, faz parte desse ritual. "Na faculdade de ciências contábeis, vou ser olhado de lado", argumenta Rodrigo. "Chega uma hora em que você amadurece."

Dos tempos de lamúria, ficaram as madeixas. "Não tem como sair totalmente das coisas em que a gente entra de cabeça. Minha franja sobrou", diz Melissa, hoje fã da MPB de Ana Carolina e Cássia Eller.

Um dia, o pai de Rodrigo propôs cortar o "mal" pela raiz. "Ele pega no pé por causa do cabelo. Diz: 'O que você quer para cortar? Quer um notebook? Vamos negociar!'"

O filho não fechou negócio. Com ajuda de escova progressiva, o franjão continua.

Para o antropólogo da USP José Guilherme Magnani, mais fácil é cortar fora os ideais da juventude. É normal, diz ele, que emos cresçam e se deparem com "opções [de vida] mais duradouras, com perspectiva profissional". "Não tem drama algum nisso."

É Roberto Carlos quem canta o ponto final: "O importante é que emoções eu vivi...".

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