Escolaridade não previne gravidez na adolescência

Escolaridade não previne gravidez na adolescência

Atualizado: Segunda-feira, 2 Agosto de 2010 as 4:21

Um estudo da Secretaria da Saúde de São Paulo, que reuniu 908 adolescentes - entre agosto de 1997 e janeiro de 2010 na Casa do Adolescente de Pinheiros (SP) – afirma que metade dos jovens que tiveram filhos antes dos 22 anos tem mais de oito anos de estudo.

As mães têm em média 17,5 anos quando engravidaram e começaram a vida sexual aos 15. Dessas, apenas 14% planejavam ter um filho. No caso dos meninos, a idade média dos pais é de 22 anos. E os números da escolaridade contrastam com o dado de que 61% dos entrevistados não preveniram a gravidez – o anticoncepcional oral foi usado por 19% das garotas e o preservativo, por 16% dos garotos.

Danielle Azevedo, 18 anos, tomava pílula e tinha conhecimento dos métodos contraceptivos. "Sempre me informei por meio da televisão, da internet e me consulto com a ginecologista regularmente. O erro de ter esquecido o anticoncepcional foi meu. Como eu tinha enjoos frequentes por causa da gastrite, nunca imaginei que estaria grávida", conta. O pai, de 26 anos, já é formado. Casados, os dois vivem com a filha de três meses.

Segundo Albertina Duarte Takiuti, coordenadora do programa Saúde do Adolescente da Secretaria, os dados chamam atenção por quebrar o tabu de relacionar a falta de cuidado à falta de informação diretamente. "É importante trabalhar outros aspectos, especialmente as emoções, os medos e as angústias", reforça. Para ela, os jovens se relacionam sexualmente muito cedo, o que resulta em falta de intimidade e insegurança na hora da busca pelo prazer imediato. "Enquanto o menino sente medo de falhar, a menina receia não agradar. Além disso, existe a magia da adolescência: eles acham que, no caso deles, é muito mais difícil engravidar ou contrair DSTs", completa.

Mas, para Ana Cláudia Bortolozzi, psicóloga e PhD em Estudos da Sexualidade na Unesp, o fato de os jovens passarem mais de oito anos na escola não garante que eles recebam orientação sexual adequada. "A informação precisa fazer parte do processo educativo: na família e na construção dos valores sobre sexualidade. Uma coisa é saber como se previne doenças e gravidez, a outra é ter vergonha de usar tal método porque a mãe pode descobrir, porque a amiga pode falar mal ou porque o namorado acha que é falta de amor", atesta. Saber nem sempre é colocar em prática.

A pesquisa ainda revela que o Estado de São Paulo registrou queda de 36,2% no número de adolescentes grávidas em 2008 se comparado a 1998. A coordenadora Albertina comemora a redução, que considera uma vitória do espaço público. "Focamos não na informação, mas no cotidiano do adolescente, na discussão sobre sexualidade e nas inseguranças", diz. A psicóloga clínica Patricia Barreto acredita que o resultado se deve "ao fácil acesso às informações, aos relacionamentos familiares mais abertos e ao receio com a crescente estatística das DSTs".

Para as especialistas, a maneira mais eficiente de diminuir o índice de casos de gravidez na adolescência – a não ser que a menina deseje ter um filho – é falar sobre sexo, sobre as mudanças que o crescimento e a própria sexualidade impõem, trocar experiências e informações e ter diálogo aberto com familiares e adultos confiáveis. "Luto pelo ideal de que exista a educação em sexualidade nas escolas com professores que sejam bem formados para que eles possam atuar em parceria com a família", completa Ana Cláudia.

Por: Larissa Drumond

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