Estágio ruim não significa erro na escolha do curso

Estágio ruim não significa erro na escolha do curso

Atualizado: Terça-feira, 6 Julho de 2010 as 2:04

A falta de informações prévias sobre a carreira escolhida na hora de prestar o vestibular, a pouca vocação prática ou o azar de estar numa empresa ruim - ou num caminho profissional inadequado às ambições - podem levar um estudante talentoso e que aprecia o curso a não gostar do estágio. Consequentemente, é natural que questionamentos sobre a escolha da própria carreira surjam. Porém, antes de radicalizar, é preciso avaliar exatamente o que está errado, o emprego ou o curso.

O professor Bertoldo Schneider Júnior, coordenador do curso de eletrônica da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), afirma que não é necessário tomar atitudes extremas, como abandonar o curso. Para ele, toda profissão tem vários caminhos possíveis. "Pode-se trabalhar como empregado, empreender, ir para a área acadêmica e também pesquisar dentro das empresas. É possível ainda testar todas essas áreas na universidade", acredita ele. No entanto, o professor Alexandre Luque, do curso de Fisioterapia do Centro Universitário São Camilo, faz uma ressalva para alunos dos primeiros anos da faculdade. Segundo ele, os cursos de graduação não conseguem aproximar os alunos da prática de mercado.

Quem acha que esse tipo de situação, em que o estudante até gosta do curso que faz, mas se frustra ao começar a trabalhar na área, é rara, engana-se. De acordo com a professora Miriam Rêgo de Castro Leão, coordenadora do curso de enfermagem da PUC-MG (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais), a situação descrita é bastante normal e até esperada. Isso porque a formação universitária é, na visão dela, bastante generalista. Por isso, só a partir das primeiras vivências profissionais o aluno vai saber por onde quer efetivamente trilhar seu caminho. "Ele precisa achar a área com a qual mais se identifica. A enfermagem, por exemplo, abarca variados perfis profissionais, de qualquer área da saúde", afirma ela.

O equilíbrio entre a especialização e o conhecimento mais abrangente é um dos desafios impostos aos novos profissionais na análise de Luque. "A base da formação é a graduação porque depois não haverá tempo hábil para resgatar os conhecimentos. Aconselho que os estudantes entrem no estágio com a mente aberta, mesmo que numa área que não queiram seguir, mas com plena consciência de que vai usar o aprendizado em outras áreas", defende ele.

Essa foi a postura adotada por Benevides Leonel Ribeiro Netto, aluno do sétimo semestre de Fisioterapia do Centro Universitário São Camilo. Depois de ter passado por um estágio da área de fisioterapia cardiorrespiratória, transferiu-se para a área de neurologia. No entanto, não está se dando bem. "Na cardiorrespiratória era mais fácil qualificar os avanços dos pacientes. Mas é importante passar por outras áreas para ganhar experiência e ficar apto a exercer a profissão", acredita Netto.

Atuação alternativa

Assim, o primeiro passo para o universitário que se encontra numa situação dessas é justamente diagnosticar o que acontece. E para tanto a recomendação de Miriam é procurar os pares profissionais. Ou seja, os professores, o coordenador do curso, o coordenador de estágios e até os colegas. Segundo ela, por meio desse diálogo será possível conhecer experiências diferentes para definir a área de preferência e, se for o caso, conseguir um novo estágio. "Pode até ser que ele esteja no curso errado, mas o ideal é ter contato com as diversas áreas de atuação antes de abandonar", recomenda.

Uma forma de tomar conhecimento das possibilidades que existem na profissão escolhida é participar de eventos científicos, congressos, simpósios, palestras, workshops e atividades de extensão relacionadas à área. "A informação é muito presente hoje em dia e o curso não se faz só na sala de aula. Tem de explorar outros caminhos para buscar identificação com alguma área", declara Miriam. Na opinião dela, ao fazer isso, o aluno consegue ampliar sua visão e então diagnosticar sua situação.

A atitude do estudante depende totalmente do diagnóstico que ele fez da situação, explica Luque. "A grande questão é fazer a auto-avaliação para identificar porque não gosta da área. E aí cabe ao professor ajudar", diz ele. Afinal, caso o problema esteja relacionado a dificuldades com a teoria que embasa a prática, a recomendação do professor é para que o aluno tente conciliar os dois aspectos para enxergar como o dia-a-dia do trabalho depende do que é aprendido em sala de aula. Caso o problema seja o contrário - ou seja, de frustração com a prática em relação à teoria -, uma das saídas possíveis é a dedicação à vida acadêmica. Nesse caso, os programas de iniciação científica podem ajudar o aluno a testar esse caminho.

Durante a auto-avaliação, o aluno pode concluir que o problema é anterior à entrada na faculdade e diz respeito à pressão familiar pela escolha do curso ou a equívocos do próprio aluno. "No caso da saúde, tem muito aluno que queria fazer medicina, não entra e vai fazer fisioterapia. E fisioterapia não é medicina, embora se assemelhe em alguns aspectos", alerta Luque, que destaca haver diferenças entre as práticas das profissões. Algo que deve ser cuidadosamente observado nesse processo.

Dicas para avaliar porque o estágio não satisfaz

- O primeiro passo é identificar porque está infeliz. Muitas vezes tem a ver com os motivos pelos quais escolheu o curso. É necessário identificar se fez a opção por vontade própria, por não conseguir entrar em outro curso ou por pressão familiar

- É importante analisar eventuais equívocos nas expectativas pré-vestibular com relação à prática profissional. Se for o caso, uma alternativa é explorar outras áreas de atuação, como a acadêmica

- A prática profissional pode revelar que o aluno não gosta da profissão, embora tenha interesse pela teoria. Nessa situação, cabe avaliar se vale a pena seguir até o final do curso e procurar um nicho de interesse, como a pesquisa ou áreas correlatas, ou se é o caso de mudar imediatamente

- Mesmo que o estágio não seja na área de atuação desejada, é preciso haver consciência de que o trabalho será importante de alguma maneira para a formação prática e teórica. Além disso, sempre é possível mudar de estágio

- O aluno não pode descartar a possibilidade de o problema ser da empresa, que não é boa para trabalhar, ou do estágio, especialmente se for numa área muito específica

- A gerência da carreira é de responsabilidade do estudante e, por isso, mesmo em situações difíceis, ele tem de absorver os benefícios e administrar os problemas

Por: Bruno Loturco

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