Estudantes sofrem e aprendem longe de casa

Estudantes sofrem e aprendem longe de casa

Atualizado: Terça-feira, 4 Maio de 2010 as 3:20

Deixar a casa dos pais e começar uma vida longe das facilidades do lar é um processo natural na vida da maioria das pessoas. Muitos, porém, são obrigados a antecipar tal passo por causa dos estudos. Para alguns, a mudança de cidade é a única maneira viável de ingressar no Ensino Superior. Para se ter uma ideia, segundo dados do SiSU (Sistema de Seleção Unificada) do MEC (Ministério da Educação), até o final da terceira etapa de seleção do programa, dos 33.039 vestibulandos matriculados, 8.353 haviam optado por estudar longe da cidade de origem, o que representa uma taxa de mobilidade de 25%.

Quando tinha 19 anos, Camila Tainá Fernandes Silvano, hoje com 20 anos, estudante de Ciência e Tecnologia da UFABC (Universidade Federal do Grande ABC), trocau Itariri, cidade de 14 mil habitantes no interior de São Paulo, por São Bernardo do Campo, município de 801 mil habitantes na Região Metropolitana da Capital. Ela conta que a sensação inicial foi de estranheza, frio no estômago e insegurança. "Logo de cara, senti medo e ansiedade", lembra a estudante. Além da dificuldade em ter de sair da sua cidade, a estudante teve também de lidar com as inseguranças normais para essa fase. "Também tinha receio de não fazer amizades ou não me encaixar na turma", continua Camila.

O caso de Camila é comum para quem se vê numa situação totalmente diferente. Ricardo Monezi, professor de psicologia e pesquisador do Instituto de Medicina Comportamental da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), explica brevemente que tipo de reação nossa mente toma durante esse processo. "Quando nosso cérebro se vê diante de uma situação desconhecida, faz com que nosso corpo sinta estresse", resume. Para o professor, tudo isso é muito comum, já que sentimos os reflexos da mente em nossos corpos. Numa situação como essa nossa mente faz o corpo produzir mais cortisol (hormônio produzido pela glândula supra- renal que está envolvido na resposta ao estresse) e adrenalina (tipo de hormônio que prepara o corpo para grandes esforços físicos). "E a resposta desse tipo de estimulo vem à tona em forma de suor e mal estar no corpo", continua o psicólogo.

Esse tipo de medo, segundo Monezi, é muito comum entre os jovens e se remete à posição com que nós, seres humanos, nos encaixamos e nos relacionamos na sociedade. "Além de sermos sustentados por uma estrutura biológica e psicológica, também temos o fator social nos rodeia, que em conjunto com os outros dois aspectos, nos transforma em seres psicobiosociais (mente e corpo em interação com o meio social) em constante busca pela aceitação de nossos pares na sociedade", explica ele. Monezi diz que a maneira com que nosso cérebro busca por essa aceitação é por meio da comparação constante das situações, lugares e pessoas por onde passamos, um processo que costuma gerar ansiedade, mas que é comum e passageiro.

Esse confronto com uma realidade diferente pode mesmo ser assustador no começo, mas é o que a mente precisa para se habituar à novidade. É o período conhecido como fase de acomodação. "Ele dura de três a oito semanas, é quando nosso cérebro se acostuma socialmente e geograficamente para então seguir sua vida normal", tranquiliza Monezi. Passado esse período de adaptação, a ansiedade e o medo voltam aos seus níveis normais e dão lugar a aspectos que são mais duradouros e servem como base para pontos importantes na vida distante do lugar de origem. "É um tipo de responsabilidade e autonomia que me deixa bem comigo mesma. Hoje cuido do lugar onde moro e de todos os outros aspectos da minha rotina sem medos ou receios", comemora Camila, que divide a casa onde mora com mais três amigas.

Mas há casos mais extremos de saudade que podem gerar sintomas como crises de choro, aperto no peito e desconforto em qualquer tipo de ambiente. "Nesses casos é preciso procurar a ajuda de um especialista e deixar pessoas próximas informadas da situação", adverte Monezi, que também dá outras dicas para vencer a dificuldade da mudança. "Esporte, grupos de estudo e discussão, e até religião são ótimas atividades para ocupar a mente", sugere ele. O que também pode trazer alívio é a visita de familiares e amigos, mas Monezi adverte que as visitas são boas, mas que é preciso haver tempo para adaptação. "É como um remédio, em pequenas doses faz bem e cura, mas em doses maiores ele funciona como um veneno", compara ele, que também destaca a importância dos pertences pessoais na bagagem. "Objetos como travesseiros e cobertores, pelo cheiro, ativam nossa memória olfativa, enquanto fotografias trabalham no córtex visual. Ambos os casos servem para manter o vínculo de proximidade com o lar, são símbolos inconscientes que trazem conforto", explica Monezi.

Treinar em família

Para Eliane de Andrade, professora de psicologia da PUC-MG (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais), a família funciona como espécie de treinamento que será importante para a vida independente. Para ela, é dentro de casa que, desde pequeno, aprendemos a ter uma postura social. "Sair de casa amadurece, é quando eles aprendem a cuidar da própria vida, porque ninguém mais irá cuidar dela", comenta. A professora diz que a família funciona como uma espécie de "incubadora de adultos" e acaba por prevenir uma adolescência em idades avançadas. "É possível perceber como algumas pessoas pulam etapas em suas vidas e isso, pode ser resultado de uma vida que não foi amadurecida. São aquelas pessoas que pagam meia entrada até os 40 anos", ironiza a professora.

De acordo com Eliane, encontrar um grupo também faz parte dessa jornada de autoconhecimento, pois ele funciona tanto no lado social, quanto pessoal do desenvolvimento. "O adolescente precisa de grupos, que por sua vez precisam de um objetivo em comum, seja no âmbito profissional ou pessoal, isso servirá como uma representação valorosa para aquele momento", explica Regina. Quem concorda com essa explicação é a funcionária pública formada em História pela UNESP de Franca, Letícia Santiago, que depois de ter morado numa república durante seu curso viu os benefícios da independência. "Só nos tornamos adultos depois que saímos de casa", declara ela.

Nos primeiros meses longe de sua família e cidade ( ela morava em Poloni, município do interior São Paulo que, segundo dados do CENSO de 2004 possuía 4.901 habitantes), a mudança foi complicada, ainda mais pela falta de uma figura de proteção dentro da nova casa. Mas ela afirma que ter superado os problemas, a ajudou com experiências que Letícia pretende levar para o resto de sua vida. "Foi um aprendizado totalmente a parte da universidade, com certeza mudou minha vida", celebra Letícia.

Para muitos, o ingresso na universidade é o primeiro contato com a vida adulta. Encontrar uma nova casa num curto período de tempo entra na lista de barreiras a serem vencidas. Horus Orlandi, 27 anos, estudante do Bacharelado em Ciência e Tecnologia da UFABC, sabe bem como é essa sensação. Depois da alegria de ter passado no vestibular, vieram as consequências de morar longe de Campinas, cidade de origem do estudante. O primeiro passo foi encontrar um lugar para morar. Como não conhecia direito o lugar, nem sabia por onde começar, Orlandi optou por passar algum tempo em uma pensão. "O preço estava dentro do meu orçamento, mas era distante da universidade e o meu espaço lá dentro era bem limitado", declara ele.

Passados alguns dias, um imóvel encontrado por meio de um anúncio na Internet chamou atenção de Orlandi, que convenceu alguns colegas de turma a dividirem as despesas da casa. Uma vez instalados, foram criadas regras para que a convivência se desse da melhor maneira possível. "Tínhamos agendas com tarefas designadas para limpeza e fazíamos compras juntos", diz ele. A ideia funcionou tão bem que o aluno do quarto ano resolveu criar a Associação das Repúblicas da UFABC, para ajudar os recém-chegados com a integração. O nome do programa é, 'Acolha um Bicho', e serve para incluir e adaptar os calouros à vida em república. "Eles passam algumas semanas na nossa casa até terem conhecido a cidade e encontrado seu próprio lugar para morar", explica Orlandi, que preside a associação.

Esse tipo de apoio, segundo Regina Libero Covos Nery, psicopedagoga da UEG (Universidade Estadual de Goiás), serve para integrar os novos moradores às regras da república. Além disso, serve para socializar os mais antigos, com os alunos novos, o que ajuda a combater o bulling (violência física ou psicológica contra o indivíduo) e o trote violento. "Quando existe ajuda, e não apenas da família, mas dos colegas de faculdade, esse adolescente que poderia se sentir excluído e ter seu rendimento comprometido, se sente integrado e seguro para a vida acadêmica", explica Regina.

Por Roberto Machado

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