Estudar arte em meio à arte

Estudar arte em meio à arte

Atualizado: Quarta-feira, 3 Novembro de 2010 as 3:34

A Europa às vezes parece uma enorme cidade universitária. Jovens do mundo inteiro estão ali, à procura de uma infinidade de assuntos para estudar. E algo que sempre desperta interesse são as escolas de formação artística. Para o italiano Antonello Ricci, professor de História da Arte, seu país não poderia ser um cenário mais estimulante para esses jovens. "Caminhar por Florença, por exemplo, é como ter uma aula prática de Renascimento", explica. Se o assunto é o estudo das cores de Leonardo da Vinci, o professor também é prático: "A luz que inspirou o artista não é idealizada, basta olhar o céu da Itália: as nuvens têm tons de azul, as montanhas são violetas no crepúsculo e o primeiro plano é quente, com tons de amarelo e laranja". Parece legal, né?

A paranaense Carolina Maeda, de 24 anos, deu um tempo na faculdade de Arquitetura para estudar "in loco" as escolas artísticas sobre as quais não sabia quase nada. "Deve ser porque nosso ensino é muito técnico, fica difícil relacionar Artes e Arquitetura", lamenta. "Os professores falavam de coisas de que eu não tinha nenhuma referência. Decidi vir à Europa estudar". Carolina passou um mês num curso em Paris, e agora está em Florença, na Itália, para mais dois meses de "imersão". "É pouco tempo para aprender tudo. Mas vou voltar outras vezes, quem sabe com uma bolsa de estudos". Ela diz isso porque foi exatamente os altos preços dos cursos que limitaram sua estadia. Em três meses, ela vai ter gasto cerca de doze mil reais entre taxas, aulas extras de Francês e Italiano, entradas em museus e mostras que os alunos têm de pagar por conta própria, alojamento, alimentação etc. "É um investimento naquilo que amo", comemora.

Profissionais ligados ao turismo de estudos recomendam que os interessados em estudar na Europa calculem bem os gastos e providenciem os recursos da viagem bem antes. "Eu diria um ano de antecedência, no mínimo", diz Patrícia Liberale, de uma agência de turismo de Belo Horizonte. "A garotada paga o pacote do curso e esquece de incluir as despesas com o material. Minha filha chegou a me ligar pedindo dinheiro para os pincéis do curso de Moda", lembra. Em tempos de crise econômica, e com valor sempre alto do euro e da libra em relação ao real, os gastos podem ficar altos, dependendo do curso escolhido e do período do ano em que se viaja.

Em toda a parte, para todos os gostos

Contraditoriamente, o melhor período para se estudar na Europa é o verão, entre junho e agosto, quando tudo é mais caro. É quando aumenta a oferta de cursos de curta-duração, na medida para quem não tem nem muito tempo nem muito dinheiro. Em Roma, basta um pouco de aptidão artística e um Italiano básico e é possível frequentar um dos cursos da Università Popolare di Roma. Centenas de jovens, entre eles muitos estrangeiros, têm procurado seus cursos, principalmente os de Italiano e os voltados para as Artes. Isso porque são de curta e média duração, adequados a todos os níveis de formação e custam relativamente pouco. Além disso, seus cursos ‘itinerantes’ de História da Arte são verdadeiros passeios pela cidade, com visitas a monumentos e museus. "Os bens culturais e artísticos são a nossa maior riqueza", destaca a professora Stefania Laurenti, responsável pelo departamento de Artes.

Em muitas academias de Arte de Florença, onde estão as obras mais importantes de Michelangelo, as aulas são ministradas em Inglês, para atender à demanda dos estudantes estrangeiros. Mas na Accademia Europea di Firenze, por exemplo, é possível um atendimento em Português, pois o diretor Massimo di Mattei morou anos em São Paulo. "Os brasileiros são nosso segundo grupo mais numeroso de alunos, depois dos americanos", informa. As escolas costumam oferecer pacotes de cursos a partir de dez aulas, e o plano de estudos inclui desde esboços a desenhos, esculturas e pintura. Também é possível combinar o estudo das artes com aulas língua italiana. Mas Massimo vai logo avisando que os alunos precisam de alguns pré-requisitos, para não dizer talento. "Apesar de ensinarmos técnicas e parâmetros, não adianta vir só com a criatividade", brinca.

E que tal uma graduação em Artes e Espetáculos, na Itália? Pode parecer incrível, mas três anos de curso (correspondentes a um bacharelado, no Brasil), mais dois de especialização podem vir a custar menos do que um curso de Artes muito mais curto e menos abrangente. A taxa anual, nas faculdades italianas, pode custar um pouco, mas pode-se pagar em parcelas ou batalhar uma bolsa de estudos. Na Itália, a oferta de vagas é relativamente ampla, e basta fazer a solicitação online para as vagas de alunos estrangeiros. O paulista Anderson, de 28 anos, chegou à cidade em 2004, para o curso de graduação da DAMS, a tradicional escola de Artes da Universidade de Bolonha. Hoje, trabalha numa produtora de cinema, e não poderia estar mais feliz. "Aqui se passou muita fome, na Segunda Guerra. Por isso, hoje, chamam Bolonha de ‘La Grassa’, ou ‘A Gorda’, porque as coisas mudaram: come-se bem, o padrão de vida é alto e as relações humanas são fantásticas", conta.

Se o destino escolhido for Paris, é verdade que dez entre dez jovens com alma de artista gostaria de ingressar na tradicionalíssima École Supérieure des Beaux-arts, onde estudaram Degas, Monet e Renoir. Mas se a relação entre tempo e dinheiro é o fator determinante, não tem problema. A cidade também tem opções para quem precisa que se contentar com cursos breves. Um exemplo são as escolas que ficam na área do Quartier Latin, tradicional reduto da boemia intelectual da capital francesa. Murilo, de 21 anos, matriculou-se num curso de design gráfico não exatamente barato. Mas não conseguiu acompanhar, por causa do Francês. "Eu pensei que sabia bastante da língua, mas eles aqui não são de ajudar", reclama. A recomendação mais elementar, no caso, é garantir-se de um conhecimento razoável da língua de onde se quer estudar, ou pelo menos do Inglês básico.

Mas é sempre ter cuidado com certos anúncios. "Torne-se produtor musical em dois meses", como promete uma escola de música de Londres, não deveria merecer uma confiança cega. De fato, a tentação é grande, pois a capital inglesa continua sendo o destino de muita gente que quer melhorar o Inglês, na atmosfera descolada e multiétnica da cidade. Londres também é o local justo para se estudar interpretação. A paulista Alessandra, de 24 anos, está contando os dias para acabar a faculdade de Comunicação e embarcar para seu destino, no teatro. "Não quero só atuar, quero mergulhar, quero sorver, quero ingerir tudo desse universo", declama.

Para sair um pouco do roteiro badalado-chique, as gêmeas italianas Sissi e Francesca, de 22 anos, escolheram estudar dança flamenca em Granada, na Espanha, conhecida por ser a mais árabe das cidades europeias. Apaixonadas por dança, as duas fizeram um curso de três semanas que as deixou encantadas. Francesca, por sua vez, decidiu que vai se especializar em flamenco para poder ensinar. Sissi, não. "Só penso em voltar a Granada, ano que vem, porque o pessoal é muuuuito bacana".

> Onde estudar, a partir de zero euros:

(Roma) Forte Prenestino Esse "squat" tem cursos gratuitos de teatro e língua italiana. O local conta com um grupo permanente de teatro, com sua própria sala. É bonito e o pessoal, descolado. Mas a rapaziada ali não emite nenhum tipo de certificado. Também não se fala em alojamento. Os cursos do Forte são para quem já tem onde se hospedar. Ele fica no birro Centrocelle, na periferia de Roma (Via Federico Delpino, s/n., www.forteprenestino.net).

(Roma) Università Popolare di Roma (ou Upter) A Upter confere certificados de proficiência em língua italiana através da Universidade de Siena, mas não dá certificados para os cursos artísticos. Ela tem unidades por toda a Roma, do Centro Histórico ao centro expandido. Os cursos variam entre 100 e 670 euros, de quatro a 25 aulas de duas horas. Em geral, duram seis meses. Mas outros são mais rápidos, como o Arte e Cinema, que dura quatro aulas, e o Mitos de Grandes Obras e Grandes Artistas, com cinco encontros de duas horas cada um. Os preços também variam: vão de € 100 (para o curso de pintura com modelos vivos) ao mais caro, de 670 (de piano, com 25 aulas), ou seja, entre 230 e 16o0 reais. Na grade da Upter há 57 cursos de artes aplicadas (práticas), 204 de artes visuais e 156 de História da Arte.

(Granada) Escuela Carmen de las Cuevas Os cursos de dança flamenca e guitarra espanhola podem durar de uma a cinco semanas, à escolha do aluno. Em teoria, não é necessário conhecimento prévio, pois as turmas são divididas em vários níveis, com até 15 horas de aulas por semana. O preço máximo, para dança, é de € 468. Para guitarra, é de € 506 (por volta de R$ 1.100 e 1192, respectivamente). A hospedagem, opcional, fica entre € 91 (para acomodações duplas) e € 780 (R$ 214 e 1830).

(Florença) Accademia Europea di Firenze A escola oferece pacotes de cursos a partir de dez lições. Há diferentes grupos e níveis, e os alunos podem escolher incorporar aulas de Italiano ao curso. O diretor Massimo Mattei morou nove anos em São Paulo, e garante o atendimento em Português. Um curso de oito semanas sai a partir de 1970 euros (cerca de 4.600 reais), sem contar com a hospedagem. A inscrição pode ser feita on-line, com um depósito de € 60 pela matrícula, mais a metade do valor do curso. A metade restante é paga no início do curso.

(Paris) Cursos de verão da Esmod (Ecole Supérieure des Arts et techniques de la Mode) A tradicional escola (a primeira criada na França, em 1841) oferece cursos de design de moda e criação de modelos com duração de 15 dias e um mês, cinco dias por semana. As taxas ficam entre 690 e 2 mil euros (entre 1600 e 4700 reais, aproximadamente). A próxima turma de verão é para julho de 2011, e os cursos são realizados entre as cidades de Paris, Rennes e Bordeaux. A Esmod garante visitas a ateliês de moda e ao Museu Yves Saint-Laurent. O site www.esmod.com/en/index.html tem informações em Português e os interessados podem fazer a inscrição online.

(Londres) Drama Studio London Não é nem preciso citar Shakespeare para lembrar que Londres é a cidade certa para se estudar interpretação. Para os acima de 18 anos, e por £ 1.900 (cerca de R$ 5.200), é possível fazer um curso de um mês, com horário full-time de segunda a sexta. A escola fica num bairro universitário, onde não faltam novidades e animação (www.dramastudiolondon.co.uk).

(Bolonha) DAMS (Discipline delle Arti, della Musica e dello Spettacolo) Os candidatos brasileiros precisam preencher um formulário online, além de traduzir e validar os títulos de estudo (certificado de conclusão do ensino médio) junto aos órgãos diplomáticos ou institutos italianos de cultura, no Brasil. Isso permite obter os vistos de permanência e estudo e a possibilidade de uma bolsa. A taxa de matrícula pode chegar a 2300 euros (5500 reais). Além das disciplinas clássicas de formação artística, a DAMS tem cursos de Moda e Cinema. A cinemateca-laboratório da faculdade é especializada no restauro de películas antigas.

(Londres) The Recording Workshop Oferece um curso de nove semanas de engenheiro de som, com quatro semanas dedicadas à produção de música eletrônica. A carga horária é de seis horas por dia, e custa £ 2945, ou pouco mais de R$ 8 mil. Esteja preparado para despesas extras com o "material" do curso, como instrumentos musicais, programas de computador e demais equipamentos, que podem encarecer muito seu projeto (www.recordingworkshopuk.com).

(Paris) A American Academy já tem organizado um curso intensivo de Arte Clássica, Moda e Design de Interiores para julho de 2011. O custo é de US$ 3.600, mais 1.900 opcionais pela hospedagem (mais ou menos 9.370 reais). A escola fica no Quartier Latin, clássico reduto de estudantes e intelectuais. As inscrições podem ser feitas online (www.parisamericanacademy.fr).

(Londres) Istituto Marangoni O nome não nega que a escola seja italiana. Sua sede, a propósito, é em Milão, mas ela também está presente em Paris e Londres. A de Londres fica justamente na Fashion Street, vizinha de museus malucos e em cuja vizinhança acontece o badalado festival Photomonth de fotografia. A Maringoni oferece cursos de moda e design. No final do curso, cada aluno é levado a elaborar sua própria coleção de moda. Os cursos de verão (entre julho e agosto) duram quatro semanas e são de 80 horas (período integral). A hospedagem em flats ou apês com cozinha fica em € 4.900. Só o curso sai a € 3.500 (mais ou menos 11.500 e 8260 reais, respectivamente). As aulas são ministradas em Francês, Inglês, Espanhol e... Português! O site também tem informações em nossa língua (www.istitutomarangoni.com).

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