Exército de recém-formados passa aperto na China

Exército de recém-formados passa aperto na China

Atualizado: Segunda-feira, 20 Dezembro de 2010 as 3:55

Liu Yang, filha de um mineiro de carvão, chegou a Pequim – a capital chinesa – no meio desse ano, com um diploma novinho da Universidade Datong, 140 dólares na carteira e um ar de invencibilidade. Sentiu o sabor da realidade no mesmo dia, enquanto carregava as malas por um bairro decadente, não muito longe da Vila Olímpica, onde dezenas de milhares de outros jovens ambiciosos vivem “quatro por quarto”.

Incapaz de encontrar uma cama para dormir e impressionada com os edifícios mal cuidados, Liu fazia careta ao sentir o cheiro do lixo ao seu redor. "Pequim não é assim nos filmes", disse.

Jovens como ela, frequentemente, são os primeiros de suas famílias a terminar até mesmo a escola. Eles fazem parte de uma onda sem precedentes de formandos ambiciosos, que deveria mudar a economia dependente do trabalho manual daquele país. Em 1998, quando Jiang Zemin, o então presidente, anunciou planos para reforçar o ensino superior, universidades e faculdades chinesas produziam 830 mil diplomados por ano. Em maio passado, esse número era de mais de 6 milhões – e continua subindo.

É uma conquista notável, mas também um motivo de preocupação. A economia chinesa, apesar de seu forte crescimento, não gera empregos bons o suficiente para absorver o fluxo de jovens altamente qualificados. E muitos deles carregam as expectativas de seus pais, que esvaziaram suas contas bancárias para lhes comprar a boa vida que uma educação superior deveria garantir.

Os chineses criaram um novo termo para os jovens graduados que, como Liu, se deslocam em busca de trabalho: a tribo das formigas. É uma referência ao seu número imenso – pelo menos 100 mil só em Pequim – e ao fato de que muitas vezes eles se alojam em bairros lotados, trabalhando por um salário que nem mesmo os operários aceitariam.

"Tal como formigas, eles se reúnem em colônias, por vezes em alojamentos subterrâneos e trabalham muito o tempo todo", disse Zhou Xiaozheng, professor de sociologia na Universidade Renmin, em Pequim. Os moradores urbanos recebem em média 3,3 vezes mais do que aqueles que vivem no campo. Essas disparidades – e a sedução de grandes riquezas em cidades costeiras como Xangai, Tianjin e Shenzhen – fazem com que os jovens graduados continuem a chegar.

"Em comparação com Pequim, minha cidade natal [em Shanxi] parece estar congelada nos anos 1950", disse Li Xudong, 25, um dos colegas de Liu, cujo pai é um vendedor ambulante de verduras e vegetais. "Se eu ficasse lá, minha vida seria vazia e deprimente".

Enquanto alguns recém-chegados encontram o sucesso, a maioria topa com desafios e decepções. O que muitos acham o mais difícil são os obstáculos que o trabalho duro, por si só, não consegue superar. Seus cursos de graduação, muitos de universidades provinciais de terceiro escalão, recebem pouco respeito na cidade grande. E como filhos de camponeses ou operários, falta a eles o lubrificante social conhecido como guanxi, ou relações pessoais, que abre caminho para filhos dos chineses “novos ricos” e bem relacionados.

Após uma adolescência em famílias de filhos únicos, eles se chocam com a burocracia da administração, conhecida como sistema hukou, que nega aos migrantes casas subsidiadas e benefícios de saúde dos quais gozam os residentes legalmente registrados. "A China tem realmente melhorado a qualidade de sua força de trabalho, mas o outro lado da concorrência nunca foi tão grave", disse Peng Xizhe, reitor de Desenvolvimento Social e Políticas Públicas na Universidade Fudan, em Xangai.

Dada a quantidade de diplomados subempregados, Peng sugeriu que os jovens adotem vocações mais práticas como a enfermagem, ou recalibrem suas expectativas. "Tudo bem se eles querem procurar a sua fortuna por alguns anos, mas se ficarem tempo demais em lugares como Pequim ou Xangai, eles vão gerar problemas para si próprios e para a sociedade", disse ele.

Pesquisador da Universidade de Datong, Yuan Lei, foi o primeiro a jogar água fria nas expectativas de Liu, Li e três amigos não muito tempo após sua chegada em Pequim, em julho. Yuan tinha chegado há vários meses para um estágio, mas ainda estava sem emprego. "Se você não é filho de um oficial do governo ou não vem de família de dinheiro, a vida vai ser amarga", disse-lhes enquanto comiam tigelas de macarrão de 90 centavos, a sua primeira refeição na capital.

Quando a noite chegou e as ruas ficaram cheias de jovens recepcionistas, caixas e vendedores a caminho de casa, Yuan levou seus amigos por um beco úmido e por uma escada balança-mas-não-cai que levavam ao seu quarto. O cômodo era da largura de uma cama queen-size e ele compartilhava um banheiro sujo e uma área comum com um fogão com dezenas de outros moradores.

Li sorriu ao absorver o que via. Como a maioria dos jovens chineses, a sua vida até aquele momento tinha sido mimada e cheia de regras. "Estou pronto para sair para o mundo e me testar", disse ele.

Os próximos cinco meses seriam um teste maior do que ele e os outros tinham esperado. Durante semanas, Li enfrentou feiras de trabalho lotadas, mas saiu de mãos vazias. Seu diploma em finanças, os recrutadores disseram, era inútil porque ele era um "waidi ren", um jovem de fora, que não poderia ser confiado para lidar com dinheiro e os segredos de qualquer empresa.

Quando finalmente encontrou um emprego como corretor de imóveis para uma agência imobiliária, ele pediu demissão depois de menos de uma semana, quando seu chefe descumpriu sua promessa salarial e, em seguida, multou cada dia em que ele não conseguiu trazer possíveis clientes.

Li e seus amigos aceitaram um emprego de vendas em uma empresa de macarrão instantâneo. O salário inicial, US$ 180 por mês, dependia em parte de um ambicioso cumprimento de metas de vendas. Vestindo camisas de golfe roxas com as palavras "Noodles Lao Yun", eles trabalhavam 12 horas por dia, voltando para casa depois do anoitecer para comer um prato de macarrão instantâneo.

"Isso não é o que eu quero fazer, mas pelo menos tenho um emprego", disse Li, sentado em seu quarto em uma noite de outubro. Decorado com pássaros de origami deixados por um ocupante anterior, o quarto fica a menos de 2 metros de um poço de ventilação. O único toque pessoal é um pôster de macarrão instantâneo sobre a porta da frente para proteger sua privacidade.

Como ele havia vendido apenas 800 caixas de macarrão naquele mês, 200 a menos de sua meta de vendas, o salário miserável de Li sofreu cortes. E citando a chegada do inverno, "época de comer macarrão", o seu patrão decidiu dobrar a meta.

Em voz alta Li dizia temer que não seria capaz de casar com sua namorada do colégio, que o havia acompanhado até ali, se ele não conseguisse ganhar dinheiro suficiente para comprar uma casa. Tais preocupações são comuns entre os jovens chineses, que têm sido pressionados por uma disparada nos preços dos imóveis e uma cultura que exige que o noivo ofereça uma casa para sua noiva. "Eu estou me dando dois anos", disse ele, sua voz desvanecendo.

Em novembro, a pressão havia sido demais para dois dos outros, incluindo a irreprimível Liu Yang. Após sair da empresa de macarrão e não encontrar outro emprego, ela desistiu e voltou para casa.

Sobraram ali Yuan, Li e suas namoradas. Durante o jantar, uma noite, os quatro reclamavam da descortesia dos pequineses, do alto custo de vida e do tédio de seus trabalhos. Ainda assim, todos eles prometeram permanecer. "Agora que eu vejo como o mundo exterior é difícil, meu único arrependimento é não ter me divertido mais na faculdade", disse Yuan.

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