Família pode atrapalhar na escolha do curso

Família pode atrapalhar na escolha do curso

Atualizado: Quinta-feira, 6 Maio de 2010 as 5:10

Por mais que alguns jovens já tenham certeza do curso universitário que prestarão, boa parte ainda encontra dúvidas e questionamentos pelo caminho. Por razões óbvias, essa escolha deve ser feita com critério e é nessa hora que a participação da família pode ser determinante. Mas essa influência familiar, se mal trabalhada, deixa de ser um guia e se transforma em diretrizes obrigatórias que poderão causar confusão, frustração e até rebeldia na mente de quem se prepara para ingressar no Ensino Superior.

Margareth Prado Lopes, diretora do centro de educação da UFAC (Universidade Federal do Acre), acha que em princípio, a influência negativa que a família exerce sobre os filhos vem do status que a sociedade costuma atribuir a alguns cursos. "Muitos pais ainda querem ver os filhos como advogados ou médicos porque são profissões com remuneração alta e de prestigio", diz ela. Segundo Margareth, essas pessoas devem se preocupar em informar os filhos para que eles próprios tomem a decisão. "Os pais precisam respeitar a vocação dos filhos e ajudar, a partir daí, sem pressionar, para que no futuro eles não se envolvam numa profissão que traga apenas benefícios financeiros e não pessoais", acrescenta ela.

A educadora também conta sobre casos de filhos que são obrigados a seguir os passos dos pais. "Alguns jovens, sem opinião formada quanto ao assunto, são forçados a trilhar os passos dos pais, que por facilidade na profissão ou por fatores econômicos acreditam ser a melhor solução", afirma Margareth, que usa como exemplo a vida do escritor Carlos Drummond de Andrade. "Ele foi obrigado pelo pai e fazer o curso de farmácia, sem nunca ter tido vocação para isso. Depois de formado, entregou o diploma para o pai e seguiu, com muito sucesso, na carreira de escritor e poeta", conta a professora.

Para Margareth as pessoas deveriam começar a pensar nisso durante o Ensino Fundamental para não passar por esse desconforto na hora de expor suas escolhas. "O ideal seria que a escola colocasse os alunos em contato com atividades como arte, música e esporte para identificar qual a vocação de cada um. Dessa maneira os pais entenderiam sem interferir na escolha dos filhos", justifica a professora.

Nem sempre o direcionamento da família é explícito, ele pode acontecer naturalmente, a depender da maneira como a profissão do pai é abordada dentro de casa, um fator que pode ser natural segundo Cleonara Maria Shwarts, professora do programa de pós-graduação em educação da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo). "Quando a criança convive com um pai que é advogado, por exemplo, isso pode despertar nele certo interesse pela profissão", explica Cleonara, que não vê problemas desde que seja compreendido por ambos que essa escolha foi feita sem nenhum tipo de pressão.

Quem sentiu na pele a influência do pai foi Nicolas Barbosa Vieira Martins Basílio, 22 anos, estudante do curso de direito na USP (Universidade de São Paulo). Mas ele acredita que foi algo gradual que não interferiu em suas escolhas, pelo contrário, o ajudou a tirar dúvidas e entender mais sobre a profissão. "Meu pai sempre conversou comigo sobre seu dia-a-dia no direito, o que fez com que eu me interessasse pelo curso", conta o estudante.

Embora o pai de Nicolas não tenha pressionado o filho a seguir seus passos, ele teve que prestar o vestibular no mesmo lugar onde o pai se formou, em parte por causa de sua trajetória de vida. "Ele veio de Minas Gerais para São Paulo sem condições de pagar uma universidade e sem o diploma do Ensino Médio. Depois de ter concluído o supletivo ele passou no vestibular do Largo São Francisco na primeira vez que prestou a prova. Foram esses os argumentos que ele usou para me convencer a fazer direito lá e em nenhum outro lugar", conta Basílio, que prestou a prova três vezes até ser aprovado.

O futuro advogado também não descarta a possibilidade de seguir no futuro por outras áreas profissionais. "Um dia ainda pretendo ser professor de língua portuguesa, mas uma atividade não exclui a outra, mesmo assim vou continuar no direito", conta o estudante. Embora não tenha tido discussões com sua família quanto ao curso universitário que iria cursar, ele admite que os pais não veem com bons olhos algumas profissões. "Nunca chegamos a conversar sobre isso, mas existem alguns cargos, com o de professor, por exemplo, que não são bem vistos e não pela função em si, mas pela remuneração e pela maneira como a classe é tratada no Brasil", explica o rapaz.

Repulsão

Se por um lado a influência familiar pode levar o jovem a se aproximar da profissão dos pais, em outros casos, quando a profissão deles interfere negativamente na relação da família, o adolescente tende a se distanciar dessa área profissional. Cleonara explica o motivo. "Todo jovem tem uma expectativa de futuro e, embora isso não afete a todos, o motivo que provoca o distanciamento dos membros da família não é bem-vindo no futuro que ele planeja para si", resume ela.

Miriam Paura, professora da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), vê a vocação como importante base de escolha da carreira. Em muitos casos o gosto pela área vem desde pequeno. "O próprio Mozart tocava piano desde os cinco anos de idade, ele já tinha um talento nato para a música e essa foi a profissão dele até a morte", diz a professora, que explica a diferença entre vocação e profissão. "O trabalho pode ser relacionado com a profissão. É algo que todos têm capacidade de fazer, com talento ou sem, mas a vocação é mais íntima e profunda, é algo que nos dá prazer e, se combinada com o trabalho, pode dar frutos excepcionais, como no caso do músico", explica Miriam.

Essa vocação que brota na infância foi o que levou Victor Passanha, 22 anos, ao curso de biologia. Formado em 2009, ele diz que sentiu desde pequeno que gostaria de seguir na área de ciências biológicas, mesmo sem ter certeza em qual especialidade. "Costumava assistir todos os programas sobre animais e insetos que podia, além de observar todas as espécies que viviam no meu quintal", lembra Passanha. Sua única dificuldade foi na hora de ingressar no curso, já que não recebeu apoio da família. "Eles achavam que eu deveria fazer veterinária ou algum outro curso que desse mais dinheiro. Eles achavam que a biologia poderia vir em forma de passatempo depois da primeira graduação", recorda ele.

Só depois do primeiro ano no curso e após ter conseguido um estágio no Instituto Butantan que a família viu como era importante a carreira na vida do universitário, que estava numa área que trazia satisfação pessoal, além da profissional. "Aprendi muito no meu estágio durante o período em que estava na faculdade, o que serviu para me incentivar mais ainda na biologia", conta Pessanha que, por causa do estágio, já teve um artigo sobre revisão de gêneros aracnídeos publicado.

Também existem casos em que o direcionamento profissional vem de fatores externos, na forma de ídolos. "São os casos daqueles adolescentes que se espelham em jogadores de futebol ou outras figuras para manifestar seu interesse por alguma atividade", conta Miriam. Mesmo que essa prática seja comum entre os jovens, a professora Cleonara chama atenção para suas consequências. Os pais devem estar cientes que incentivar muito os filhos e fazer daquilo uma obsessão em suas mentes pode ser prejudicial para a formação do adolescente. "Quando a pessoa esta muito focada naquele objetivo e falha, perde o poder de decisão sobre sua trajetória, o que acarreta em frustração e falta de foco na vida adulta", adverte ela.

A professora acredita que o apoio dos pais deve vir em forma de questionamento sobre as ideias que já se tem em mente. "Ajudar o vestibulando a encontrar seu caminho não é levá-lo até um curso qualquer e dar o problema como resolvido. Pelo contrário, é preciso indagar e conversar sempre, essa é a sensibilidade de orientar e não de impor", exemplifica Cleonara. Outro fator, segundo a professora, que também gera confusão na mente do estudante é o fato dos pais, muitas vezes por questões de trabalho, se distanciarem dos filhos na época em que eles mais precisam de apoio. "Nesse momento eles buscam por conselhos de amigos e colegas e quando os pais tentam entrar nesse meio encontram resistência, que pode ocasionar em conflito entre as partes. Por isso é importante sempre manter conversas sobre os problemas que surgem", declara ela.

Mesmo que seja uma época de dúvidas e incertezas, Cleonara adverte. "O jovem não é uma marionete, ele tem capacidade de avaliar o que acontece", alerta a professora, que chama atenção para os meios de comunicação em massa no momento da busca de informações sobre cursos e aulas. "Os jovens possuem uma série de meios como revistas, livros e Internet para encontrar dados. O que ele precisa é ter capacidade para colocar essa informação em ordem", diz a professora.

Participar dessas pesquisas e busca por informações acadêmicas é de grande utilidade tanto para os pais quanto para filhos. Mariita Bertassoni, professora de psicologia da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) vê nessa parceria uma chance da família trazer opções que não haviam sido levadas em conta pelo estudante. "Contato com profissionais da área, palestras e até 'mini estágios' podem revelar tendências e traços de personalidade no aluno", sugere ela.

A professora aconselha aqueles que ainda têm dúvida sobre qual curso seguir a entrar em contato com educadores ao invés de buscar por testes vocacionais. "Existem provas na Internet que prometem resolver esse tipo de problema, mas na verdade esses testes são muito superficiais. O melhor é mesmo conversar com educadores algumas vezes para expor ao máximo o problema", aconselha Mariita.

Por Roberto Machado

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