"Fantoches virtuais" desafiam percepção de quem é quem na web

"Fantoches virtuais" desafiam percepção de quem é quem na web

Atualizado: Segunda-feira, 28 Março de 2011 as 9:26

"Ouço muito o nome dele por aí, mas não o conheço. Não sei quem Henson é. Ele parece ter sua mão em muitas coisas por aqui, mas eu particularmente não sei o que isso significa." A frase acima é de Caco - o Sapo, o fantoche mais famoso do mundo, falando sobre seu criador, Jim Henson.

Titeragem é a arte de animar um objeto inanimado e usá-lo para contar uma história. Estima-se que a prática teve origem por volta do ano de 30.000 A.C., e continua por aí atualmente, não apenas em programas como "Muppets", mas também na forma de pessoas e organizações que criam personas falsas no mundo online.

Talvez você já esteja usando essa técnica. Já mentiu sobre quem você é online? Possui múltiplos perfis em redes sociais como Facebook ou Twitter que não estão explicitamente ligadas a sua pessoa? E que tal ter criado endereços de e-mail para ficar anônimo mesmo que seja apenas para parar de receber spam? Esses são todos aspectos dos chamados "fantoches" ("sockpuppets" em inglês).

E se já fez alguns deles citados acima, você não está sozinho. Existem por aí todos os tipos de pessoas e organizações criando suas próprias personas falsas com todos os tipos de razões enquanto equipes de outras empresas, comerciais e governamentais, estão tentando esclarecer quais tipos de personas existem na web.

Mas qual o tamanho desse submundo de falsidade? Bem, estima-se que 29% da população mundial esteja online, algo em torno de 1,97 bilhão de pessoas... O que parece algo bastante improvável.

Fantasmas online

Não acredito nesses números como sendo de pessoas reais porque, em 2005, uma estimativa apontou que cerca de 80% da população mundial de 6,8 bilhões de pessoas vivia com menos de 10 dólares por dia. Pareceria muito improvável que o 1,36 bilhão de pessoas restantes pudessem estar todas online, já que muitas dessas pessoas vivem em lugares com serviço de Internet ruim ou não existente, não possuem acesso a um computador e/ou estão em uma idade em que não entendem as coisas do mundo digital.

Mas, pelo bem do argumento, vamos pegar esse número de 1,36 bilhão como o tamanho real da população online. A diferença entre esse valor e o 1,97 bilhão de usuários estimados é de cerca de 600 milhões. Mas como "acertar" essa diferença? Fácil: essa é a população de "fantoches".

Se você duvida que os fantoches existam nessa proporção apenas pense que existem muitas pessoas que possuem vários perfis em todo serviço de rede social e que praticamente toda companhia tentando usar a Internet para alavancar as vendas e o marketing também cria várias identidades falsas.

Além disso, também existem agências governamentais de muitos países que estão indo para o mundo online para tentar descobrir quem está fazendo o que, onde, quando, para quem e por quanto. Você não encontra essa quantidade de detalhes sem pesquisar muito, por isso os fantoches tornam-se uma ferramenta poderosa para explorar as redes sociais.

Bom exemplo

Um bom exemplo de como as agências de governos estão usando esses fantoches foi mostrado recentemente quando o grupo de hackers Anonymous roubou milhares de e-mails da empresa de segurança HBGary.

Se você não tem seguido a saga da HBGary, segue aqui um pequeno resumo: o CEO da empresa anunciou há algumas semanas que ia expor os membros do grupo Anonymous. Essa acabou sendo uma ideia bem ruim porque a segurança da HBGary era, digamos, fraca, e sem muito barulho, os membros do Anonymous invadiram e "picharam" (o processo é chamado de defacing) o site da companhia e roubaram seus e-mails.

Os e-mails acabaram sendo muito reveladores e mostraram que a HBGary era culpada por oferecer-se para realizar todos os tipos de serviços antiéticos para derrubar o Wikileaks. E junto com essas revelações havia uma mensagem do US Central Command, uma unidade "de cinema" Unified Combatant Command das Forças Armadas dos EUA, com um pedido ("Request for Proposal") solicitando licitação para softwares de gerenciamento de fantoches!

Eis um trecho de matéria do nosso parceiro Network World:

"O Anonymous está tentando descobrir o que a Central Command dos EUA quer com programas que permitem a criação e gerenciamento de identidades falsas em redes sociais. Chamado de "Operação Metal Gear", o esforço está focado em trazer à luz um software que tem potencial para criar perfis no Facebook, Twitter e outras mídias sociais e poderia ajudar operadores a gerenciá-los para parecer que eles foram criados por pessoas reais, com o aparente objetivo de influenciar e reunir dados as pessoas realmente de verdade das quais eles são amigos nos sites."

Guerra dos fantoches

Resumindo, a prática de usar fantoches virtuais foi de manobras de usuários para esconder ou ofuscar objetivos pessoais, passando por corporações que os usam a serviço de estratégias de marketing até tornaram-se parte integrante de programas de vigilância de governos. Quem são seus amigos, o que você diz e o que posta podem todos tornarem-se pontos de dados em repositórios comerciais ou governamentais que te identificam, rastreiam e, se você usar seus próprios fantoches online, tentam integrar suas personas em uma visão de quem você é.

Por isso, na próxima vez que conversar com alguém online que não conheça direito, apenas considere a hipótese de que você pode muito bem estar interagindo com um fantoche e não terá ideia de quem ou o que está por trás dele.

O fantoche pode pertencer a um cara legal no Rio de Janeiro, procurando por um "pouco de diversão", ou a uma companhia de marketing de São Paulo tentando mudar sua opinião sobre qual marca de refrigerante é melhor. Ou ainda ao governo de um país qualquer coletando informações sobre você e seus amigos para sabe-se lá o que.

E se você está usando seus próprios fantoches, será que "eles" conseguirão descobrir e juntar as peças para achar sua identidade real?

(Mark Gibbs)

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