"Game music" brasileira mescla músicas de jogos com ritmos locais

"Game music" brasileira mescla músicas de jogos com ritmos locais

Atualizado: Quarta-feira, 20 Julho de 2011 as 9:51

Alguns dos jogos de videogame mais marcantes da história têm trilhas sonoras quase tão célebres quanto seus personagens. Quem não se lembra de pelo menos uma das músicas de “Super Mario”, da faixa estimulante que embalava as corridas em “Top Gear” ou ainda das épicas trilhas características da série “Zelda”?

Com uma nação cada vez maior de jogadores, foi um caminho natural quando no início dos anos 2000 começaram a surgir – primeiramente no Japão - as bandas dedicadas a levar as melodias que embalavam horas a fio em frente à TV para o palco.

No Brasil, uma das primeiras bandas a surgir nessa área foi a Megadriver, por volta de 2003. Liderada por Antonio Tornisiello, 32, o grupo faz versões em heavy metal de jogos, primordialmente do Mega Drive, console da Sega lançado em 1990 no Brasil. “Foi o videogame que eu mais joguei na adolescência, por isso as músicas daquela época foram as que mais ficaram marcadas em mim”, diz Tornisiello.

Em 1994, ele começou a estudar guitarra. “Pensei como aquelas músicas ficariam no estilão metal”, diz. À época, teve diversas bandas de garagem, mas sempre que tentava emplacar alguma música oriunda dos videogames no repertório do grupo, tinha suas empreitadas frustradas. “O preconceito era muito forte. Sempre me falavam: ‘Isso é coisa de nerd!’”, brinca.

Depois de diversas desilusões, em 2000, Nino formou sua própria “banda de um homem só”, como gosta de dizer, gravando do próprio computador todos os instrumentos e colocando o resultado na internet. Em pouco tempo, o site começou a ganhar popularidade.

Mas foi apenas depois de ingressar na faculdade de engenharia da computação que o guitarrista encontrou os parceiros ideais para seguir com o projeto: “Todo mundo na banda é maníaco por games. De noite, quando acaba o trabalho, está todo mundo jogando”, garante.

Logo no início, o grupo começou a reunir fãs e nos últimos anos, impulsionados pela recente popularização dos nerds, que deixaram de ser motivo de piada para se tornarem figuras cultuadas, fizeram shows por todo o Brasil. Em 2010 foram mais de 30 apresentações.

  No repertório, as músicas que fazem mais sucesso são as do início da era dos videogames. “Os jogos antigos eram feitos em 8 bits, 32 bits. Com os instrumentos, tentamos dar uma melhorada, fazer uma transformação”, conta antes de confessar certa dificuldade em transpor algumas trilhas novas para os palcos: “Os jogos modernos parecem não ter mais um tema específico, alguns são repletos de ambientações. Mas estamos trabalhando em algumas coisas novas, como ‘God of War’”.

Com proposta mais eclética, a Abreu Project, que surgiu em 2006, mescla as músicas de videogame com ritmos brasileiros, como se revela na faixa intitulada “Baião em Gothan City”. Leandro Abreu, de 27 anos, é a pessoa por trás da criação do grupo. “Respeito as notas originais, mas coloco estéticas diferentes, inusitadas”, explica.

Diferentemente de Tornisiello, nerd assumido, Leandro revela que não é preciso ser necessariamente geek para ser um astro da game music. “Eu não me considero nerd. Eu gosto muito de videogames, mas acredito que somente isso não faz de uma pessoa nerd”. Outro fã dos jogos antigos, ele não tem dúvidas quanto à sua trilha favorita. “Top Gear é a campeã de todas, acho que é a que mais marcou. Tem uma estética musical muito marcante e o jogo também foi muito popular”.

  Já o músico Ricardo Madureira, de 22 anos, é da nova geração da game music. Sua banda, a “Gameboys”, surgiu em 2007 tocando hits da Nintendo, mas de forma mais tradicional, sem muitas alterações no som original. Ele conta que as preferidas do público são sempre oriundas de jogos como “Final Fantasy”, “Super Mario”, “Sonic”, e “Zelda”, o qual Madureira confessa ser também seu predileto. “A trilha de ‘Ocarina of Time’ foi um marco. Foi composta com cuidado e, pela época, foi um jogo que me marcou, joguei muito na infância”.

O guitarrista vê nas gerações atuais de jogos muito material a ser trabalhado. “A gente não se prende ao passado. Tem muita coisa nova e interessante também, como ‘Halo’, ‘Metal Gear 4’, ‘Super Mario Galaxy 2’.” Segundo Madureira, a “onda nerd” é um fenômeno que veio para ficar. “Hoje, o universo nerd virou uma coisa ampla, que abriga uma série de gostos. É um leque que se abriu, as pessoas estão lidando com isso de uma forma muito mais saudável.”

  Mas o que é essencial para que a música de um videogame seja digna de se tornar um hino repetido ad eternum? “O segredo é a capacidade de interação com o jogo. A música tem que complementar a experiência, dar vida ao que acontece na tela”, diz Madureira.

Quando questionado se músicos de game music também têm groopies, Madureira não titubeia: “Sim, com certeza”, mas explica que não é como com as estrelas do rock. “É de um jeito diferente, a procura está mais associada a um interesse pelo contato, pela amizade”, garante.    

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