Garotos de fé

Garotos de fé

Atualizado: Quinta-feira, 14 Julho de 2011 as 11:41

José Daniel Violante Filho, 17, de São Paulo, Budista

O estudante paulista visitou pela primeira vez o centro budista Buddha's Light há um ano, com os amigos. "Fui por curiosidade", diz. Lá, praticou meditação, gostou e se tornou freqüentador. Ele mora na Zona Sul de São Paulo com os avós, que são católicos. "Eles vão à missa, mas eu não me identifico com a fé católica", comenta ele.

Você acredita em Deus? O Instituto de Estudos da Religião (Iser) fez essa pergunta a 800 brasileiros com idade entre 15 e 24 anos e 98% deles responderam sim. Trata-se de uma maioria acachapante, capaz de desarmar qualquer ceticismo em relação à religiosidade dessa geração. Talvez o correto seja dizer "espiritualidade", pois a fé é hoje muito mais uma questão de escolha pessoal do que era nos tempos do vovô, quando a garotada ia à igreja por imposição familiar e social. Os jovens hoje elegem a própria fé. "Como a decisão é deles, a religiosidade dessa geração tende a ser muito mais forte que nas décadas passadas", diz a antropóloga Regina Novaes, do Iser. Entre os que seguem alguma religião, 33% escolheram por decisão pessoal, independentemente da preferência familiar. Tanto é assim que dois em cada dez mudaram de religião ao menos uma vez.

Joyce de Souza Cunha Melo, 18, de BH, Católica

A estudante mineira vai à missa uma vez por semana e é devota de São Josemaría Escrivá, fundador do Opus Dei. Acredita em milagres e já fez promessas, uma delas para passar no vestibular. Ela cursa o 1º ano de administração na Universidade Federal de Minas Gerais. Nem sempre foi assim. "Quando eu era mais nova, era superesotérica, acreditava em horóscopo", diz.

Boa parte dos teens está olhando para a religião como se estivesse diante de uma prateleira de supermercado. "É como um serviço self-service, em que a pessoa escolhe a que mais a atrai", define Mário Sérgio Cortella, professor do departamento de teologia e ciências da religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Os teens sentem-se à vontade para experimentar. Eles acreditam em Cristo, nos orixás e até em duendes, tudo ao mesmo tempo. Sobra ainda espaço para a proliferação de crenças alternativas, cujo maior atrativo é o inusitado, como cura por cristais, invocação de anjos e bruxaria.

William Silva, 18, de Itacaré, Bahia, Evangélico

Nascido numa família de católicos praticantes, William tornou-se evangélico há seis anos. Sua igreja, a Bola de Neve, é freqüentada sobretudo por jovens. Surfista desde criança, ele sempre reza antes de entrar no mar e pegar onda. Muitos de seus amigos usam drogas. "Eu não uso porque Deus não gosta dessas coisas", diz. "Vivo aconselhando meus amigos e às vezes consigo convencer alguns deles a largar o vício."

É curioso que isso esteja ocorrendo com os filhos de uma geração que, trinta anos atrás, fugiu da religião institucionalizada. O movimento atual é no sentido inverso, com o aumento nas hostes de fiéis. Metade dos freqüentadores dos cultos evangélicos tem menos de 24 anos. Missas católicas são agora animadas em ritmo de rock, tecno e rap. Há igrejas neopentecostais criadas especialmente para fiéis mais jovens. Uma delas, a Bola de Neve, usa uma prancha de surfe como altar. A tolerância religiosa é uma das características bem-vindas dos novos fiéis. Nesse aspecto, o budismo, que não exige exclusividade de seus praticantes, tornou-se a opção preferida de quem deseja freqüentar mais de uma religião ao mesmo tempo.

98%

dos 800 brasileiros com idade entre 15 e 24 anos ouvidos numa pesquisa disseram acreditar em Deus Entre os que seguem alguma religião,

33%

escolheram sua fé por decisão pessoal, sem interferência da família

17%

deles tinham mudado de religião ao menos uma vez

Uma das características da religião é promover a integração social. Rapazes e moças vão à igreja ou ao templo e lá conhecem outros adolescentes que pensam como eles. Assim, formam grupos. Assistem aos cultos juntos, saem à noite, viajam. O lazer fica associado à religiosidade. "A maioria de meus amigos é daqui", diz a estudante paulista Ana Teresa Santos Cavalcante, de 17 anos, que freqüenta a igreja evangélica Bola de Neve. "Gostamos das mesmas coisas, fazemos os mesmos passeios, por isso nos damos tão bem", afirma ela.

fonte: Veja Jovens

veja também