Geração Y; geração despojada e cheia de vontade

Geração Y; geração despojada e cheia de vontade

Atualizado: Segunda-feira, 3 Outubro de 2011 as 11:34

Você tem entre 20 e 30 anos, vive rodeado de tecnologia, se preocupa com o meio ambiente, é engajado em causas sociais, cresceu aprendendo a fazer muitas coisas, brincando com jogos eletrônicos e tem contatos ao redor do mundo mesmo sem sair de casa? Sim? Então você faz parte da geração “Y”! Não? Prepare-se. Eles estão dominando o mundo!

Os nascidos no final da década de 1970 até o início dos anos 1990 são classificados como a geração “Y”, que também é chamada geração do Milênio, por chegarem à juventude no início dos anos 2000, ou geração da Internet, por crescerem usando a ferramenta sem dificuldades. Segundo o consultor de marketing Daniel Portillo Serrano, a definição foi criada em 1993 pela revista norte-americana Advertising Age. A publicação revelou hábitos de consumo dos adolescentes da época.

Os “Y” se desenvolveram em uma época de grandes avanços tecnológicos e prosperidade econômica. Os pais, da geração anterior, a chamada “X”, não quiseram dar aos filhos as mesmas condições que tiveram, por isso, deram muitos presentes, atenções e atividades e uma educação mais liberal. Resultado, eles cresceram cheios de autoestima, estimulados por atividades e fazendo tarefas múltiplas.

O prazer e o trabalho num lugar só

Renan Fenrich Niespodzinski, 20 anos, aprendeu desde o começo da adolescência a consertar computadores e a gostar de instrumentos musicais. Não teve dinheiro para fazer cursos nas áreas de interesse, mas conseguiu desenvolver habilidades somente “fuçando”, como diz o autodidata.

O jovem busca trabalhar sempre com o que gosta. Mesmo com pouca idade, ele tem experiência em diversas áreas. Passou por várias funções atrás de chegar onde realmente quer.  Já foi desenvolvedor para web, técnico de som, faz manutenção de computadores e instrumentos musicais, trabalhou em comércio e em hotel.

Na última profissão, designer gráfico na Prefeitura de Guaramirim, ele ficou cerca de dois meses. A oportunidade era boa, mas, segundo Renan, o sistema de trabalho não era agradável. Empregos operacionais, mais rotineiros, também não o atraem. “Não consigo trabalhar em produção. Função repetitiva não é comigo”, diz.

De acordo com psicólogo e especialista em recursos humanos, Paulo André Charchut Leszynski, o comportamento de Renan para o mercado de trabalho é típico da geração “Y”. “Eles não querem atividades operacionais porque não são atrativas. Não gostam de mesmice, querem sempre desafios”, analisa. Segundo o especialista, a vontade de encarar uma coisa nova a cada dia pode ser influência dos jogos eletrônicos, os quais os “Y” cresceram utilizando. A ideia de passar de fase e superar obstáculos é repetida na vida real.

Uma pesquisa da FIA (Fundação Instituto de Administração da USP), realizada com cerca de 200 jovens de São Paulo, revelou que 99% dos nascidos entre 1980 e 1993 só se mantêm envolvidos em atividades que gostam.

Renan confirma a pesquisa. O músico desenvolve um site de anúncios há um ano e oito meses. Já refez o trabalho pelo menos cinco vezes e o deixa de lado quando fica monótono. Paralelo ao projeto, faz consertos e trabalhos freelancer, além de tocar baixo em uma banda, a Soul Blind. Abandonou a faculdade de Análise de Desenvolvimento de Sistema por falta de dinheiro. Com o site, pretende estabelecer uma base financeira para, mais tarde, tocar projetos ligados à música. “Quero usar um pouco de tudo o que sei", afirma.

Trabalhar com o que gosta é o objetivo alcançado por Michele Camacho, 30 anos. A jornalista gosta de escrever, de moda e de trocar ideia com as amigas. Ela conseguiu unir as três coisas em um blog, o “Monalisa de Batom”, que vem alcançando cada vez mais internautas. “No começo era um hobby, depois começou a ‘bombar’ e decidi me dedicar só a ele“, diz Michele. O blog tem 15 anunciantes é a única atividade dela.

Michele foi assessora de imprensa por três anos e relações públicas de uma loja de roupas por um ano e meio. Deixou o último emprego há pouco mais de um ano e desde novembro o foco é explorar o universo feminino na internet, onde publica três postagens por dia. Ela desenvolveu a primeira versão do site sozinha. “Fui fazendo e aprendendo”, diz. Os “Y” são donos da maioria dos blogs e também são a maior parte dos membros das comunidades e redes sociais na internet.

O desafio das empresas

A vontade dos “Y” de ganhar dinheiro fazendo o que para muitos é um hobby atrapalha as empresas mais conservadoras no momento de contratar um jovem para atividades burocráticas e rotineiras.

Para o consultor Paulo André Charchut Leszynski, as empresas se complicam por não encontrarem mais pessoas que aceitem funções repetitivas e com pouca possibilidade de promoção. Segundo o especialista, as empresas que relutam a se adaptar estão sofrendo.

O “despojamento” da geração “Y” é visto como uma afronta por algumas empresas, segundo Leszynski. “As autoridades não têm mais a verdade única”, explica o psicólogo. “Sem intenção nenhuma de faltar com respeito, os ‘Y’ têm a liberdade de questionar algumas decisões”.

Mas de acordo com a gerente de desenvolvimento humano e organizacional, Jussara Dutra, o mercado não muda para atender a uma geração específica, porém, precisa evoluir como um todo para dar conta do que surge de “novo”. “Os representantes da geração ‘Y’ querem rapidez, velocidade e resultados imediatos ao lidar com seus objetivos de carreira” explica a especialista. “Eles não estabelecem segregação entre a vida pessoal e profissional, sendo provável que no dia a dia de trabalho, ambos os aspectos se entrelacem com naturalidade. Desejam que seu trabalho tenha sentido para que possam se vincular a uma missão com desafios crescentes”, analisa.

Na opinião de Jussara, com a crescente falta de mão de obra, as empresas precisam se preparar para receber os representantes das gerações que estão iniciando a vida profissional e trazendo novos paradigmas.

Ponto negativo

Se por um lado a geração “Y” tende a ser autoconfiante, irreverente e busca a liberdade para se expressar e participar das decisões, a grande quantidade de informação que esse grupo obtém gera mais cobrança por parte das autoridades, seja pai, professor ou chefe.

Segundo Leszynski, os “Y” são a geração que quer resultado imediato, mas falta filtrar as informações. “Eles têm acesso a tudo com facilidade, porém, muitas vezes, não se aprofundam em nada e não sabem como usar as informações”, explica. Além disso, não criam perspectiva de futuro a longo prazo e têm dificuldade para manter o foco em uma atividade do começo ao fim. “Para eles, o ontem já é passado e os planos são feitos para um ano no máximo”, diz.

É válido lembrar que nem todos os jovens nascidos nos anos 80 apresentam todas as características da geração “Y”. Alguns são mais representativos, outros menos. Cristiano Mahfud Watzko, 25 anos, é um deles, mas está na contramão em alguns aspectos. O jaraguaense teve uma infância e adolescência típica de um “Y”. É preocupado com o meio-ambiente, defende valores éticos e morais, consome informação em diversos meios e desempenha várias atividades.

Cristiano prestou 23 vestibulares para Medicina. Segundo ele, “queria provar que era capaz”. Após alguns semestres, desistiu do curso por motivos pessoais e decidiu retomar a faculdade de Direito. Desde então, o estudante trabalha em um escritório de advocacia. Ele está lá há quatro anos e não pretende mudar de emprego. “Não sou de ficar ‘pulando’ de empresa”, afirma.

Para a especialista Jussara Dutra, os jovens que estão revendo suas carreiras devem ser apoiados e seus objetivos redirecionados para retornar ao mercado de trabalho. “É preciso integrar as diversas gerações, não com foco específico na geração ‘Y’, mas com o objetivo de rever as práticas para atrair e reter os talentos de todas as gerações”, diz.

As gerações através do tempo

TRADICIONAIS (até 1945) - Enfrentaram uma grande guerra e passaram pela Grande Depressão que arrasou com alguns países. Eles precisaram reconstruir o mundo e sobreviver. São práticos, dedicados e gostam de hierarquias rígidas. Costumam ficar bastante tempo na mesma empresa e se sacrificam para alcançar seus objetivos.

BABY-BOOMERS (1946 a 1964) - Nasceram após as guerras. Romperam padrões e lutaram pela paz. Mais otimistas, puderam pensar em valores pessoais e na educação dos filhos. Mantêm o foco e têm relações de amor e ódio com os superiores.

GERAÇÃO X (1965 a 1977) - Tiveram as condições materiais do planeta para pensar em qualidade de vida. Puderam equilibrar a vida pessoal e o trabalho com o desenvolvimento das tecnologias de comunicação. Porém, enfrentaram crises, como a do desemprego na década de 80, e se tornaram céticos e superprotetores.

GERAÇÃO Y (1978 a 1990) - Cresceram em uma década de valorização da infância, com internet e mais tecnologia do que qualquer geração anterior. Não se sujeitam a atividades que não fazem sentido em longo prazo. Lidam com autoridades como se eles fossem colegas de turma.

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